Quem Escreveu a Bíblia – Parte 1/2

A mídia cientificista tradicionalmente procura apresentar motivos pelos quais a Bíblia não deveria ser considerada uma obra sagrada e muito menos levada a sério. Atentando apenas para os aspectos históricos em que foram produzidas as Sagradas Escrituras, a mídia pós-moderna aponta uma série de alterações e erros de cópia e tradução ocorridos ao longo da história, que atestariam de forma indiscutível que a Bíblia, embora constituindo uma obra notável, não passa de uma compilação literária inteiramente humana.

A fé cristã afirma entretanto que apesar de ter sido escrita por mãos humanas, a Bíblia foi uma obra inspirada por Deus. A Bíblia não foi ditada por Deus a homens, como muitos afirmam hoje haver recebido mensagens espirituais divinas, mas Deus utilizou homens comuns, com suas idiossincrasias, suas culturas e sua diversidade intelectual, para transmitir à toda a humanidade a sua Palavra. Embora distantes entre si geográfica e historicamente, os seus cerca de quarenta autores conseguiram, sob a inspiração divina, elaborar ao longo de aproximadamente 1.600 anos uma obra que ainda transmite hoje uma mesma mensagem original. O cristianismo crê na inspiração divina das Sagradas Escrituras não por que julga ingenuamente que a Bíblia que hoje temos nas mãos é cópia fiel de seus manuscritos originais, ou mesmo das cópias mais fiéis destes manuscritos.

A igreja cristã tem plena consciência das falhas ocorridas ao longo do tempo, no processo de cópia e tradução dos manuscritos dos textos bíblicos, manuscritos estes cujo número é da ordem dos milhares. Entretanto, a evidência da inspiração divina da Bíblia é demonstrada menos por sua coerência e suas referências internas do que pelo fato de ela haver conseguido, ao longo dos séculos, manter intocada a sua mensagem original, que anuncia ao mundo o advento da plenitude do Reino de Deus e a redenção espiritual humana através de Jesus Cristo, o filho unigênito de Deus.

A cristandade crê na inspiração divina das Sagradas Escrituras exatamente pelo fato de, a despeito de todas as falhas humanas ocorridas ao longo do processo transformar a mensagem bíblica de sua forma original, escrita em simples peles e papiros, em hebraico, grego e aramaico, em livros impressos traduzidos na maioria das línguas humanas atuais; ela preserva de forma assombrosa a sua integridade essencial e o seu poder de transformar vidas e de resgatar almas.

Um artigo recente publicado recentemente em Superinteressante, uma revista voltada ao público jovem e adolescente interessado em ciência e tecnologia, aborda mais uma vez a questão da legitimidade e da confiabilidade do texto bíblico. Este artigo, denominado Quem Escreveu a Bíblia (Edição Dezembro 2008), baseado na obra de Richard E. Friedman, Who Wrote the Bible, não foge à política editorial da mídia racionalista, que relega o sobrenatural à categoria de mera crendice popular. Como na mídia em geral, onde os assuntos religiosos são abordados quase sempre de forma tendenciosa, superficial e reducionista, este artigo não foge à regra. Anteriormente, a revista Galileu, do mesmo gênero, havia também publicado um artigo semelhante, abordando a obra de Bart Ehrman “O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?” (Edição Outubro 2006). Este artigo não seria portanto digno de nota, a não ser pelo fato de apresentar a chamada Teoria Documentária, que afirma a existência histórica de pelo menos quatro fontes principais que teriam sido utilizadas para a elaboração do Antigo Testamento, como se fosse uma unanimidade no meio acadêmico.

Escolhi a seguir alguns temas mais relevantes abordados no artigo, por serem comuns às críticas sobre a confiabilidade e legitimidade da Bíblia, embora não pretenda aqui discuti-los com a devida profundidade:

1. Os dois relatos de Gênesis

O fato de Moisés utilizar dois nomes para referir-se a Deus, Elohim em Gênesis 1 e Javé em Gênesis 2, é tomado aqui como uma comprovação de que ele não foi o autor deste livro e que os dois relatos da criação são originários de fontes diversas. Entretanto, este equívoco chega a ser absurdo, pois os dois primeiros capítulos de Gênesis não são, de forma alguma, relatos “bastante diferentes” da criação, como alega o autor.

Gênesis 1 constitui um relato temporal e lógico da criação do mundo , e Moisés utiliza aqui o termo Elohim (Deus) para referir-se à onipotência criadora de Deus. Gênesis 2 é um relato genérico e poético da criação do Éden e de como os elementos da criação foram ali introduzidos, sob domínio e à disposição do primeiro casal humano. Moisés utiliza aqui o termo Javé (Senhor Deus)para referir-se a Deus por que enfatiza neste capítulo o relacionamento entre Deus o Homem.

As narrativas são portanto complementares e nada indica que sejam originárias de autores diferentes. Além disso, vale notar que na época em que foi escrito Gênesis, todos os vizinhos de Israel tradicionalmente referiam-se a cada um de seus deuses por pelo menos dois nomes diferentes, chegando em alguns casos a atribuir três ou quatro nomes a um mesmo deus.

2. A autoria mosaica do Pentateuco

Muito se tem discutido sobre a autoria dos cinco livros chamados da Lei, Pentateuco ou Torah, no Antigo Testamento hebraico.Existem entretanto evidências tanto referências internas à Bíblia quanto externas, de natureza arqueológica e documental que demonstram que de fato Moisés foi o autor dos cinco livros. Os círculos liberais e neo-ortodoxos de estudo bíblico são os que negam esta autoria, baseados na chamada Hipótese Documentária, que afirma que Israel não possuía escrita antes da monarquia e que estes livros somente foram escritos após meados do século IX a.C.. Tais estudiosos se baseiam sobretudo no pressuposto de que não existem fatos sobrenaturais e que portanto as profecias bíblicas são meras referências a fatos históricos já ocorridos na época em que foram escritas.

Supostos anacronismos, como a referência à Ur como sendo uma cidade caldéia em Genesis 11:28 e 15:7; a referência à cidade de Dã em Gênesis 14:14, que só recebeu este nome depois da era mosaica ou a referência a Gerar, em Gênesis 20:1 como sendo uma cidade filistéia, quando supostamente os filisteus somente teriam começado a colonizar esta região após o século VII a.C.; parecem confirmar esta tese. Um estudo mais aprofundado da história dos textos bíblicos no entanto demonstra que os nomes de lugares que aparecem nos textos atuais às vezes não correspondem aos nomes originais dos textos copiados, por uma razão meramente cultural. Muitos escribas preferiam utilizar os nomes correntemente em uso, na sua época, do que os nomes originais, por uma simples questão de atualização. Quanto às referências à existência dos filisteus na Palestina antes de 2.050 a.C., no tempo de Abraão, não há evidências históricas que comprovem a impossibilidade deste fato. O fato de não existirem relatos históricos anteriores ao de Ramesés III, em 1190 a.C. sobre a presença dos filisteus naquela região não constitui prova de que jamais houve imigrantes filisteus de Creta na região da Palestina em época anterior a esta.

As objeções mais comuns como a citada no artigo, de que Moisés não poderia escrever, em Deuteronômio 34, o seu próprio obituário; são facilmente explicáveis pelo fato de que é comum, até os dias de hoje, a inclusão de obituários em obras de autores famosos. Este adendo geralmente aparece no final da obra e é assinado por seu autor. A diferença aqui é que o autor do obituário de Moisés não destacou o mesmo na obra e não se identificou, o que não invalida porém a autoria da obra.

Gênesis 36:31-43 é uma passagem bastante de explicação bastante controvertida. Enquanto alguns estudiosos sustentam que foi divinamente inspirada, outros aceitam a possibilidade de que tenha sido uma adição posterior, correspondente a 1 Crônicas 43:54.

O fato de alguns relatos de Gênesis serem semelhantes a outros relatos míticos anteriores, como o do dilúvio universal, presente em grande parte da mitologia antiga de outros povos, não significa que tenham sido incorporados no Antigo Testamento. O fato de o relato bíblico aludir a lendas e mitos mais antigos apenas atesta que estas lendas e mitos eram baseadas em fatos reais. O relato bíblico entretanto, é seguramente o único histórico e confiável, pois é amparado na inspiração divina.

Uma outra objeção comum, a de que às vezes a narrativa nestes livros é feita na terceira pessoa, referindo-se a Moisés, como em Êxodo e Números; também pode ser naturalmente explicada como uma convenção literária comum em autobiografias, do autor referir-se a si mesmo na terceira pessoa. Isto ocorre, por exemplo, na obra de Júlio César, Guerra Civil (A Guerra Alexandrina 75), em que ele expressa sua surpresa com o ataque inesperado das tropas de Pharnaces no Ponto, dizendo: “César ficou espantado diante desta incrível temeridade”. Os numerosos registros históricos sobre os reis egípcios e seus feitos eram normalmente escritos na terceira pessoa, exceto nos casos em que eram citadas pronunciamentos do próprio faraó.

A distinção feita Gênesis 7:2 entre animais puros e impuros, também é comumente citada como exemplo de comprovação de uma data mais tardia para a elaboração do livro, uma vez que esta distinção somente é estabelecida posteriormente, em Deuteronômio e Levítico. Este é também um argumento racionalista, pois o fato de tal distinção entre os animais não haver ainda sido estabelecida formalmente na época em que Gênesis foi escrito, não significa que Moisés não soubesse de sua existência, uma vez que era inspirado por Deus.

Finalmente, existe ainda a objeção quanto a uma repetição dos termos da Lei, recebidos de Deus por Moisés em Êxodo 20:1-17; 34:1-28 e novamente mencionados em Deuteronômio 5:6-21. Novamente aqui, uma leitura imparcial do texto revela que a Lei foi pela primeira e única vez outorgada a Moisés em suas ordenanças principais conforme 20:1:17 e nas demais ordenanças, conforme capítulos subseqüentes até o 24, durante um período total de quarenta dias e quarenta noites. Tendo Moisés entretanto se enfurecido com a infidelidade do povo, que durante a sua ausência festejou e adorou a um bezerro de ouro, destruiu em sua ira as tábuas da Lei que havia recebido de Deus (32:19). O capítulo 34 narra então novo retiro de Moisés ao Monte Sinai, onde Deus repetiu a ele as mesmas ordenanças, durante novos quarenta dias e quarenta noites, ao fim dos quais Moisés escreveu novamente as tábuas da Lei. Já em Deuteronômio 5, Moisés está diante de uma nova geração do seu povo, que não estava presente quando ele recebeu de Deus as ordenanças da Lei. Assim Moisés repete a esta nova geração essencialmente os mesmos termos da Lei, embora utilize para isto seu próprio discurso.

A chamada Hipótese Documentária foi uma teoria desenvolvida por Julius Wellhausen em 1895, e surgiu com o estímulo do lançamento da Teologia Bíblica (Biblische Theologie), por Wilhelm Vatke, discípulo de Hegel, em 1835. Wellhausen reformulou uma hipótese já existente do teólogo Karl H. Graf, que ficou conhecida como Hipótese Graf-Wellhausen e se tornou a base da crítica bíblica histórica na Europa e nos Estados Unidos. Segundo Wellhausen, o Pentateuco não é de autoria mosaica, mas a reunião de diversos documentos escritos por diversos autores, escritos em épocas distintas. Wellhausen afirma que o Pentateuco foi compilado a partir de quatro fontes históricas documentais básicas, que ele denominou J (Código Javista) e E (Código Eloísta), baseados em tradições orais; D (Código Deuteronômico), originário do período do reinado de Josias e P (Código Sacerdotal), originário do período pós-exílico.

A Hipótese Documentária, evidentemente, caso fosse verdadeira, destruiria não apenas a integridade da Bíblia como uma obra inspirada por Deus, mas também toda a base doutrinária do cristianismo, uma vez que lançaria em descrédito o testemunho evangélico de Jesus, no Novo Testamento, reconhecendo a autoria mosaica do Pentateuco. A Hipótese Documentária já foi contestada em seu próprio berço, a Europa. Muitas obras foram escritas condenando não apenas os conceitos, as sutilezas, mas também os seus fundamentos teóricos. Entretanto, os teólogos liberais e neo-ortodoxos indiscutivelmente a têm adotado como base de seu cristianismo humanista, no qual está claro não haver lugar para um Deus vivo e verdadeiro. Crer neste Deus não é fundamentalismo, mas uma questão de coerência com uma visão das Escrituras não restrita apenas às suas dimensões literária e histórica; mas focada essencialmente em sua dimensão espiritual, que é aquela em que Deus verdadeiramente se relaciona com o ser humano e através da qual ele realiza sua obra redentora.

3 – A violência de Deus

Não só os que não são cristãos, como também muitos cristãos, se sentem perplexos diante das narrativas bíblicas do Antigo Testamento, em que Deus ordena a Israel combater e eliminar muitos dos povos inimigos de sua nação. Como é possível, afirmam estes, que o Deus bom e compassivo do Novo Testamento seja o mesmo Deus irascível, cruel e vingativo do Antigo Testamento? Esta perplexidade demonstrada pelos incrédulos me causa no mínimo estranheza, pois os que a expressam parecem não compartilhar uma natureza física e biológica onde a violência é uma característica natural. A violência se tornou natural não por que seja inerente à natureza original da criação, mas devido à corrupção da criação divina, que perdeu o seu equilíbrio e a sua ordem originais.

Sendo Deus absolutamente justo e perfeito, o uso que Ele faz da violência é da mesma forma justo e portanto nada tem em si de condenável. A aparente contradição que muitos enxergam entre a mensagem de amor ao próximo e compaixão pregada por Jesus e a violência demonstrada por Deus no Antigo Testamento é fruto de uma lógica humanista que, por desconhecer esse Deus e a sua obra redentora, é incapaz de compreender a sua absoluta sabedoria e justiça.

Deus criou o ser humano com uma natureza justa e pura, à sua semelhança, mas o dotou de livre arbítrio desde a sua criação. Através do uso deste livre arbítrio entretanto, o ser humano decidiu se separar de Deus e viver segundo sua própria vontade e julgamento e com isto corrompeu a sua natureza original perfeita, afastando-se do amor de Deus, de sua sabedoria e da verdadeira justiça.

Deus entretanto não abandonou a sua criação à sua própria sorte, como crêem os deístas, mas desde então busca reconciliar consigo a humanidade, de forma a redimi-la de seus erros e reconduzi-la ao seu Reino, onde reencontraremos enfim a verdadeira vida e a bem-aventurança eternas.

Para isto, Deus adotou diferentes estratégias, conforme a resposta da natureza humana ao longo de sua história, aos seus apelos. No início desta história, a natureza humana se achava tão corrompida que foi necessário que Deus destruísse completamente a espécie humana sobre a terra, através de um dilúvio, para novamente permitir o seu renascimento e reprodução a partir do núcleo de uma única família, considerada por Deus digna de tal feito.

Mais tarde, no início da história do povo judeu, nação escolhida por Deus para iniciar o seu plano de redenção espiritual de toda a humanidade, a natureza humana era ainda bastante corrompida e Deus buscou educar aquele povo nos princípios básicos de disciplina, justiça e fidelidade espiritual. Deus introduz no meio daquele povo os seus mandamentos fundamentais e exorta Israel a obedecê-los, como requisito essencial para o estabelecimento de uma verdadeira comunhão com Ele. Os princípios de justiça ensinados por Deus nesta época ao ser humano ainda não são porém os princípios perfeitos pregados mais tarde por Jesus, mas princípios rudimentares, condizentes com a dureza do coração humano naquele tempo.

O primeiro e mais importante destes princípios fundamentais estabelecidos por Deus foi o da fidelidade espiritual a Ele. Naquele tempo, não só Israel, como também todos os demais povos à sua volta viviam em uma profunda promiscuidade espiritual, adorando e cultuando a vários deuses e entidades espirituais, cuja influência sobre aqueles povos era absolutamente perniciosa, escravizando-os à ignorância, ao egoísmo e à sensualidade, além de mantê-los em um estado de absoluta brutalidade e injustiça. Deus se manifestou a Israel como o único Deus, o verdadeiro Criador de todas as coisas, o Deus amoroso e compassivo, que para concretizar sua obra de redenção espiritual humana, requeria do seu povo apenas a sua fidelidade, no sentido de se afastar dos falsos deuses e das influências espirituais nefastas, obedecendo à sua Lei.

Israel relutava porém em responder ao chamado de Deus e abrir mão de suas inclinações politeístas, de seu orgulho individual, de suas paixões carnais e de seu egoísmo. Deus precisou assim demonstrar ao seu povo a gravidade daquela promiscuidade espiritual, que constituía o maior obstáculo para que Israel e o ser humano em geral pudesse se converter dos seus erros e tomar o caminho da santidade de da justiça, que conduz à salvação espiritual. Para ensinar a Israel a fidelidade espiritual, Deus afirmou ser necessário que o seu povo se mantivesse distante de qualquer comunhão espiritual com os povos politeístas à sua volta, evitando qualquer contato íntimo ou cultural com eles, tamanho era o mal causado pela influência deste politeísmo.

A violência utilizada por Deus ao ordenar o massacre de alguns destes povos, foi um recurso portanto absolutamente necessário para que Israel pudesse assimilar os princípios básicos espirituais de santidade e de fidelidade espiritual. Deus poderia simplesmente ter transformado a natureza espiritual do seu povo, de forma a torná-lo fiel a Ele, mas estaria desta forma violentando o livre arbítrio humano e transformando a sua criação em meras marionetes sem vontade própria. Esta violência foi portanto um recurso extremo utilizado por Deus, perfeitamente justo e condizente com seus propósitos soberanos, e que constituía naquele tempo a única forma pela qual o ser humano poderia aprender o princípio fundamental da fidelidade espiritual.

A violência utilizada por Deus no início de sua obra redentora de modo algum autorizou, contudo o ser humano a recorrer, em seu nome, depois da nova aliança firmada através de Cristo, a qualquer forma de violência; para impor quaisquer princípios espirituais a outros povos ou indivíduos, como supôs a igreja em seus primórdios, pelo autoritarismo que caracterizou a queda espiritual várias de suas lideranças.

A linguagem utilizada por Deus no Antigo Testamento, que nos transmite hoje a impressão de um Deus de caráter belicoso, vingativo e ciumento, é apenas reflexo da natureza humana, através da qual Deus se expressou ao revelar ao mundo a sua mensagem, por meio do povo judeu. Deus escolheu, desde o início de sua obra redentora, se relacionar com o ser humano de uma forma humana e pessoal, de modo a que pudesse ser facilmente compreendido por todos os seres humanos, com suas vicissitudes e limitações, características de uma natureza tornada imperfeita e limitada pelo pecado.

O Deus cristão não é o deus idealizado pelas religiões em geral, que se mantém acima de à sua criação, imponderável e imperturbável diante do universo, mas um Deus que anseia pela redenção espiritual desta criação e que, ao mesmo tempo que demonstra este anseio; ao exortar a humanidade a se converter de seus maus caminhos e buscar a santidade e a justiça, se inclina até esta humanidade e se revela a ela de forma pessoal e amorosa. Este amor de Deus pela sua criação é revelado mais tarde em sua plenitude através de Jesus, o seu filho unigênito, que manifesta a expressão humana de Deus em sua mais perfeita forma.

Quem Escreveu a Bíblia – Parte 2/2

4 – O cânon bíblico

Uma das noções expressas pelo autor do artigo de Superintessante, a de que o estabelecimento do cânon bíblico, ou seja a relação dos livros que viriam a compor a Bíblia, teria sido uma imposição arbitrária da igreja católica romana, é também uma crítica bastante comum entre os adversários do cristianismo mas é também superficial e totalmente infundada.

Embora o Cânon Hebraico de 39 livros do Antigo Testamento, só tenha sido realmente fixado no Concílio judaico de Jamnia em 90 d.C. já por volta de 400 a.C. ele estava praticamente completo. Havia duas seções principais: a lei e os profetas. Quase todos os livros distribuídos entre as duas seções são referidos no Novo Testamento como as Sagradas Escrituras. A igreja católica romana estabeleceu no século IV o seu cânon, baseado no chamado cânon alexandrino, que incorporava ao tradicional cânon hebraico mais sete livros, chamados deuterocanônicos. A Reforma Protestante entretanto, decidiu manter o cânon hebraico de 39 livros instituído no Concílio de Jamnia.

A formação do cânon do Novo Testamento foi iniciada pela igreja primitiva, no primeiro século da era cristã e somente veio a se concretizar no século IV, quando já havia um consenso geral a respeito do mesmo. No início da era cristã, havia uma multiplicidade de textos e doutrinas cristãs, muitas delas contraditórias. A igreja necessitava portanto de identificar, entre todos os textos religiosos em circulação, aqueles que eram verdadeiramente fiéis aos ensinamentos de Jesus e dos seus apóstolos, tanto pelo motivo doutrinário quanto por razões políticas, sobretudo depois que o imperador Diocleciano, em 303, ordenou que fossem destruídas todas as Escrituras.

A formação do cânon do Novo Testamento iniciou-se no primeiro século da era cristã, como demonstram as práticas vigentes na época de copiar e distribuir as cartas apostólicas. Conforme afirma Norman Geisler:

“Já havia nos tempos do Novo Testamento algo parecido com uma declaração de cânon das Sagradas Escrituras, aprovada tacitamente, circulando pelas igrejas. De início nenhuma igreja detinha todas as cartas apostólicas, mas a coleção foi crescendo à medida que se faziam cópias autenticadas pela assinatura dos apóstolos ou de seus emissários. Não há dúvidas de que as primeiras cópias das Escrituras surgiram dessa prática de fazer que circulassem. À medida que as igrejas foram crescendo, a necessidade de novas cópias foi-se tornando cada vez maior, pois mais e mais congregações desejavam ter sua compilação para as leituras regulares e para os estudos, ao lado das Escrituras do Antigo Testamento.”

[...]

“As primeiras igrejas foram exortadas a selecionar apenas os escritos apostólicos fidedignos. Desde que determinado livro fosse examinado e dado por autêntico, fosse pela assinatura, fosse pelo emissário apostólico, era lido na igreja e depois circulava entre os crentes de outras igrejas.

“As coletâneas desses escritos apostólicos começaram a tomar forma nos tempos dos apóstolos. Pelo final do século I, todos os 27 livros do Novo Testamento haviam sido recebidos e reconhecidos pelas igrejas cristãs. O cânon estava completo, e todos os livros haviam sido reconhecidos pelos crentes de outros lugares. Por causa da multiplicidade dos falsos escritos e da falta de acesso imediato às condições relacionadas ao recebimento inicial de um livro, o debate a respeito do cânon prosseguiu durante vários séculos, até que a igreja universal finalmente reconheceu a canonicidade dos 27 livros do Novo Testamento.”

Desta forma, fica claro que a igreja não criou um cânon arbitrário segundo os seus próprios critérios de ortodoxia doutrinária, mas utilizou como parâmetros para formação deste cânon os princípios doutrinários e os textos considerados legítimos e autênticos pelos próprios judeus, no caso do Antigo Testamento, e pelos próprios apóstolos, nos primórdios da era cristã, no caso do Novo Testamento.

5 – Alterações textuais e conflitos doutrinários

Se Deus dependesse apenas do engenho e da diligência humanas para divulgar a sua Palavra, ela provavelmente já teria sido sepultada pelo tempo, em meio aos incontáveis massacres e invasões sofridos por Israel, e das inúmeras interferências políticas e ideológicas que marcam a história da humanidade.

A mensagem de Deus para a humanidade teria também se perdido, desde o ato inicial de sua inspiração a seus primeiros escritores, até as inúmeras traduções de que dispomos nos dias atuais, a ponto da sua completa descaracterização; devido às falhas e interferências humanas sem dúvida ocorridas no processo de sua reprodução, ao longo de mais de dois milênios. Entretanto, o fato de dispormos hoje da Palavra de Deus em uma forma que mantém de um modo espantoso no Textus Receptus o seu mesmo conteúdo original dos manuscritos mais confiáveis, é uma prova de que o processo histórico que caracterizou a elaboração deste texto e suas traduções para nossos idiomas atuais não foi um processo meramente natural de crítica e estudos lingüísticos, mas antes de tudo uma obra sobrenatural, dirigida por Deus.

Deus permitiu e permite a ocorrência de alterações e erros nos processos de cópia e tradução de sua Palavra, por que a transmissão de sua mensagem à humanidade foi e sempre será feita através de seres humanos; mas também por que ela foi e será sempre preservada por Ele, não por meio do talento e da fidelidade dos homens que a escreveram e que a manuseiam, mas apesar de todas as deficiências e interferências humanas.

As alterações de texto encontradas nos manuscritos do Antigo Testamento são relativamente raras, pelo fato de que em sua época havia uma única tradição de elaboração destes manuscritos, os quais eram produzidos segundo regras rigorosas de exatidão.

As alterações encontradas nos manuscritos do Novo Testamento são mais numerosas, devido ao maior número de cópias não oficiais que foram produzidas. A crítica textual reconhece basicamente dois tipos de erros, os intencionais e os não-intencionais. As variantes do segundo tipo são mais comuns, causadas por falhas na divisão de palavras, uma vez que nos manuscritos as palavras não eram separadas umas das outras. Omissões, inversões ou repetições de letras e palavras, são também padrões de erros comuns encontrados. Além destes, haviam erros decorrentes de má audição, no caso de textos copiados por ditado oral e os erros de memória, quando o escriba se esquecia de uma palavra e a substituía por um sinônimo. Haviam ainda erros simples de grafia, causados por um estilo imperfeito de escrita ou acidentes durante o processo, devido a más condições ambientes e cansaço. Todos estes erros entretanto são pouco significativos e facilmente identificáveis através de exame crítico.

Os erros intencionais , embora sendo geralmente eram motivados por boa fé são mais graves, pois alteram o conteúdo original dos textos, adicionando ou suprimindo às vezes passagens inteiras. Um tipo de variante comum deste tipo eram as adaptações feitas pelos copistas de estilos lingüísticos, conforme a tradição escritural da época. As alterações litúrgicas são típicas dos lecionários, como o resumo de um texto para uso exclusivo no culto, que no entanto passava a incorporar o próprio texto, como foi o caso da chamada “doxologia” na oração dominical em Mateus 6:13. Eram comuns ainda as alterações para harmonização, quando o escriba tentava harmonizar uma passagem em um texto com a passagem correspondente em outro documento, como Atos 9:5-6, que foi alterado para concordar de forma mais direta com Atos 26:14-15. As alterações históricas ou temporais eram introduzidas com o fim de ajustar nomes, datas e horários conforme o escriba julgava ser a forma mais correta, como João 19:14, que foi alterado em alguns manuscritos onde se lê hora “terceira”, ao invés de hora “sexta”.

As alterações doutrinárias, enfim, eram introduzidas em sua maior parte para ajustar o texto à versão ortodoxa, como a referência à Trindade, em 1 João 5:7-8. Outros exemplos deste tipo de alterações são o acréscimo da palavra “jejum” à palavra “oração” em Marcos 9:29, o chamado final mais longo de Marcos 16:9-20 e a chamada perícope da mulher adúltera, em João 7:53 a 8:1-11 que alguns consideram tenha sido posteriormente interpolada ao evangelho de João. Embora não conste da maior parte dos manuscritos principais, ao traduzir a Bíblia para o latim, Jerônimo a incluiu por tê-la encontrado na maioria dos manuscritos de que dispunha para o exercício da tradução.

A alegação de que o suposto “caráter machista” apontado pelos críticos modernos nas cartas do apóstolo Paulo, onde ele afirma a condição de submissão da mulher à autoridade masculina tanto na igreja quanto na família teria sido introduzido no texto bíblico por algum escriba, é totalmente infundada.

A mesma posição é encontrada na primeira carta de Pedro aos cristãos da Ásia Menor. Antes de mais nada, os apóstolos não estão aqui criando nenhuma nova doutrina, mas apenas aplicando os princípios já estabelecidos por Deus em Gênesis. Quando Paulo e Pedro afirmam unanimemente que a mulher deve ser submissa ao homem, eles estão se baseando não em sua cultura patriarcal, mas no texto bíblico que declara a ordem da criação (Gênesis 2:18-25) e a conseqüente relação de dependência natural da mulher em relação ao homem:

“Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem.” 1 Coríntios 11.7-9

Não está implícito, contudo nas recomendações dos apóstolos nenhuma medida discriminatória das mulheres, como sendo inferiores aos homens. O próprio Paulo reconhece que, no sentido espiritual, a dependência entre homem e mulher é mútua, pois fomos todos criados por um mesmo Deus:

“Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus.” 1 Coríntios 11.11-12

Recomendo a todos que desejem se aprofundar no conhecimento da história bíblica, as obras de Norman Geisler, Introdução Bíblica, o seu Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” Bíblicas, e a excelente Enciclopédia de Temas Bíblicos de Gleason Archer. É necessário notar, como ressalta Geisler, que nenhuma doutrina cristã se baseia em algum texto sob objeção e que apesar de todas as alterações feitas aos manuscritos originais ou autógrafos, ao longo do tempo, a mensagem de Deus expressa através da Bíblia permanece intacta em sua essência e eficaz em seu propósito original. Geisler faz um paralelo admirável entre o Novo Testamento e as obras clássicas da literatura universal:

“Quando se comparam os textos chamados variantes, do Novo Testamento, com outros textos de outros livros que sobreviveram desde a antiguidade, as conclusões são maravilhosas; pouco falta para que as consideremos espantosas. Por exemplo, embora haja cerca de 200 000 “erros” nos manuscritos do Novo Testamento, eles só aparecem em cerca de 10 000 trechos, e apenas cerca de uma sexagésima parte deles ergue-se acima do nível das trivialidades. Westcott e Hort, Ezra Abbot, Philip Schaff e A. T. Robertson avaliaram com o máximo cuidado as evidências e che¬garam à conclusão de que o texto do Novo Testamento tem pureza superior a 99%. À luz do fato de haver mais de 5.000 manuscrítos gregos, cerca de 9.000 versões e traduções, as evidências da integridade do Novo Testamento estão fora de questão.

“Isso é válido, sobretudo, quando consideramos que alguns dos maiores textos da antiguidade sobreviveram em apenas um punhado de manuscritos. Quando se compara a natureza, ou a qualidade, desses escritos com os manuscritos bíblicos, estes ficam em posição audaciosamente saliente no que concerne à integridade. Bruce M. Metzger fez um excelente estudo da Ilíada, de Homero, e da Mahãbhãrata da índia, em sua obra Chapters in the history of New Testament textual criticism [Capítulos da história da crítica textual do Novo Testamento]. Em seu estudo, o autor demonstra que a corrupção textual desses livros ditos “sagrados” é muito maior do que a que acometeu o Novo Testamento. A Ilíada é particularmente cabível para esse estudo, por ter tanta coisa em comum com o Novo Testamento. Depois do Novo Testamento, a Ilíada é a obra que tem o maior número de manuscritos disponíveis hoje, mais que qualquer outra obra (453 papiros, 2 unciais e 188 minúsculos, ou seja, 643 no total). À semelhança da Bíblia, essa obra foi considerada sagrada, sofrendo mudanças textuais, e seus manuscritos em grego também passaram pela crítica textual. Enquanto o Novo Testamento apresenta cerca de 20 000 linhas, a Ilíada tem cerca de 15 000. Apenas 40 linhas (cerca de 400 palavras) do Novo Testamento inspiram dúvidas, mas 764 linhas da Ilíada estão sob questionamento. Portanto, 5% da Ilíada sofreram corrupção, contra menos de 1% do Novo Testamento. O poema épico nacional da índia, Mahabharata, sofreu um processo mais grave ainda de corrupção. É cerca de oito vezes maior que a Ilíada e a Odisséia juntas, com cerca de 250 000 linhas. Dessas, cerca de 26 000 linhas estão corrompidas textualmente, i.e., pouco mais de 10%.

“Assim é que o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior de manuscritos, mais que qualquer outro livro da antiguidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não. Até mesmo o Alcorão, que não é livro antigo, pois originou-se no século VII d.C., sofreu o processo de aparecimento de grande número de variantes que precisaram da revisão de Orthman. De fato, ainda existem sete modos de ler o texto (vocalização e pontuação), todas baseadas na revisão de Orthman, que se fez cerca de vinte anos após a morte do próprio Maomé.”

Sabedoria e Humildade

“Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra.”  Oséias 6:3

O ser humano possui uma característica intelectual que revela, de forma emblemática, a sua natureza egocêntrica e a sua mais absoluta falta de sabedoria. As pessoas em geral tendem a formar opiniões acerca de uma determinada questão com base apenas em algumas informações, às quais agregam os seus valores pessoais já formados. É lamentável e assustador perceber entretanto a dedicação com que se aferram  a estas opiniões preconcebidas, como se fossem para elas a verdade absoluta.

Quando desafiados, tendemos a buscar mais informações que venham a confirmar o nosso ponto de vista já estabelecido, de forma a demonstrar o erro de nosso opositor. Raramente nos damos ao trabalho de estudar, de forma imparcial e isenta, os diversos lados da questão, de forma a buscar evidências realmente honestas da solução mais provável para uma determinada questão. Um escritor de quem já não me lembro, certa vez propôs uma estratégia para conduzir uma discussão honesta sobre qualquer assunto. A estratégia consistia em provar que o opositor estava correto, isto é, ao invés de se apegar ao seu próprio ponto de vista, cada participante de uma discussão deveria tentar provar que o ponto de vista de seu opositor estava correto, e não o seu. Partindo desta suposição, ambos deveriam então testar esta hipótese com base em considerações do tipo “se…então”;  até chegar assim à verdade.

A questão da parcialidade e da superficialidade são a base dos preconceitos e a maior barreira para o entendimento humano, em quaisquer questões. O orgulho, a vaidade e a ignorância continuarão sempre dividindo os seres humanos segundo suas crenças e opiniões. Estas divisões não se limitam entretanto apenas aos incultos, mas caracteriza até mesmo os círculos acadêmicos da ciência e da filosofia. O ritmo de vida frenético da sociedade ocidental, sobretudo após a era moderna, tem contribuído sem dúvida para agravar esta situação, pois se por um lado se disponibiliza um volume cada maior de informações para um maior número de pessoas, paradoxalmente se reduz o tempo disponível destas pessoas para acessar estas informações, e ainda mais o tempo disponível para criticá-las e refletir sobre elas.

Torna-se assim mais prático escolher uma posição, com relação a qualquer questão; com base em valores pessoais, na opinião geral e em algumas informações ao acaso, do que se dar ao trabalho de estudar e investigar a fundo o assunto. Isto porém pode ter consequências imprevisíveis, pois muitas pessoas somente se dão conta tardiamente em suas vidas, de que a opinião a que tanto se apegaram por tanto tempo a respeito de um determinado assunto estava equivocada e que por este motivo cometeram vários erros.

Evidentemente, não dispomos de tempo suficiente para nos dedicarmos a estudar muitas questões acerca de assuntos políticos, econômicos, artísticos, culturais e científicos. Os assuntos de ordem prática que envolvem a nossa vida em sociedade já requerem uma grande dedicação. Quando muito nos debruçamos um dia ou outro sobre alguma questão acerca de saúde, alimentação e legislação, de modo a obter um conhecimento mais profundo acerca de problemas que nos afetam de forma urgente e direta no cotidiano. Quanto aos demais assuntos, geralmente adotamos as opiniões divulgadas pela mídia, que é um porta-voz da ciência e da ideologia das classes dominantes de nossa sociedade.

O perigo desta atitude no entanto, é que ela nos leva normalmente a relegar como secundários determinados assuntos que são na verdade essenciais, e nos faz crer que são irrelevantes ou que não são de nossa alçada questões que na verdade são vitais. Isto ocorre por exemplo com a banalização, pela mídia, da violência social e política, da miséria, da ignorância e da sexualidade humanas. Esta banalização nos leva a negligenciar assuntos de grande importância, como fossem naturais, como se não nos dissessem respeito ou como se fôssemos impotentes para fazer qualquer diferença em relação aos mesmos.

O maior destes equívocos entretanto acontece quando negligenciamos a religião como algo sem importância, ou como um assunto sobre o qual seria impossível chegar a qualquer consenso, considerando portanto legítima qualquer posição que se venha adotar. Formam-se assim os velhos chavões sobre o tema, como “todos os caminhos levam a Deus”; “Jesus te ama”; “ninguém é dono da verdade”; “futebol e religião não se discute” e outros . A maioria das opiniões expressas normalmente pelas pessoas com relação à religião são superficiais e baseadas e informações errôneas e infundadas.  Não deveria causar surpresa portanto o fato de as discussões sobre religião frequentemente terminarem em desavenças, agressões, insultos e servirem para classificar pessoas como sendo “ignorantes”; “hipócritas”; “moralistas”; “depravadas”;  e “infiéis”; quando não acabarem simplesmente em brincadeiras e piadas.

Entretanto, nenhum outro assunto é mais relevante ou urgente para o ser humano do que as questões relativas à espiritualidade. A falta de reconhecimento pela ciência da existência de uma dimensão espiritual da realidade não deveria servir como desculpa para negligenciar este assunto. Tampouco a diversidade de religiões e crenças existentes no mundo deveria desestimular o nosso interesse pela busca da autêntica espiritualidade. A nossa atitude com relação à espiritualidade é tão fundamental que determina todas as nossas demais atitudes com relação à vida, tanto neste mundo quanto após a morte. A realidade espiritual está no cerne das mais pungentes questões acerca da origem, da essência  e do destino final de nossa existência.

O cristianismo afirma, há mais de dois milênios; que existe apenas um caminho que conduz a Deus e à vida espiritual plena e bem-aventurada e que este caminho é Jesus Cristo, Deus feito homem, que veio ao mundo tornar possível a nossa definitiva e verdadeira redenção espiritual. O cristianismo afirma também que existe uma única verdade espiritual absoluta, e não apenas noções relativas e subjetivas da verdade; que esta verdade absoluta foi revelada aos seres humanos primeiramente através do povo judeu e é proclamada ao mundo deste os tempos de Cristo, através das Escrituras. O cristianismo afirma ainda que houve apenas uma única revelação da verdade absoluta à humanidade e que nenhuma revelação de caráter universal ocorreu antes ou depois dela. Por seu caráter único e exclusivo, o cristianismo tem sido taxado pelos descrentes como intolerante e questionado quanto à sua alegação de ser o único caminho para Deus.

O cristianismo tem sido atacado desde sua origem, de muitas formas, por aqueles que se recusam a aceitar a existência de uma única religião verdadeira. A Bíblia e as igrejas cristãs têm sido o alvo frequente destes ataques, fundamentados ou não, que buscam apontar no cristianismo erros e falhas que demonstrariam que a fé cristã é uma fé como qualquer outra, e portanto equivalente a qualquer religião existente. Entretanto, é necessário notar que a única coisa comum entre o cristianismo e as demais religiões é a humanidade dos seus praticantes, à qual se devem portanto, todas as falhas e defeitos atribuídos à doutrina cristã. Esta doutrina em si mesma, nenhuma falha tem e não se relativiza a nenhum tempo ou cultura, mas é eterna e universal, pois foi inspirada por Deus.

Antes portanto de se desprezar ou atacar a priori a fé cristã sob quaisquer alegações preconcebidas, vale a pena dedicar o maior tempo possível ao estudo aprofundado de sua história, como também ao estudo da Bíblia e de sua história, de forma verdadeiramente isenta e imparcial. Da mesma forma, todo cristão deveria se dedicar sinceramente ao estudo aprofundado não só do cristianismo, mas também das outras religiões, de modo a consolidar a sua fé.

Sejamos sábios e sensatos de forma mínima o suficiente para que não venhamos a fundamentar nossa atitude em relação à vida e à nossa própria existência em meros chavões ou idéias preconceituosas e mal informadas. Sejamos humildes o suficientes para confiar o nossa vida espiritual não apenas à nossa própria razão e julgamento; mas para confessarmos a Deus a nossa impotência intelectual para conhecê-lo e para nos apresentarmos perante ele como crianças, de modo que venhamos assim a conhecer a Cristo e reconhecê-lo como nosso único e suficiente salvador.

“Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

Mateus 18:2-3

Uma Igreja Para os Jovens

Uma série da TV norte-americana chamada My Wife and Kids, importada pelo Brasil com o título Eu, a Patroa e as Crianças, é uma comédia do gênero conhecido como sitcom ou comédia do cotidiano. Essa série ridiculariza o perfil do adolescente evangélico através de um personagem que luta desesperadamente contra os seus instintos sexuais, e que sob influência da namorada, se embebeda e se entrega a toda sorte de desvarios.

Esta é apenas uma das situações utilizadas pela mídia para promover o descrédito dos princípios cristãos; que são desta forma, relegados ao ridículo e ao absurdo. A psicologia humanista não reconhece a possibilidade de qualquer indivíduo superar os seus instintos, mas apenas o de controlá-los até certo ponto ou, conforme postula a psicanálise, o de sublimá-los, ou seja, convertê-los em atividades que substituem o seu propósito original por um propósito socialmente aceitável, através da atividade artística, do trabalho artesanal ou outras semelhantes.

Entretanto, o cristianismo afirma que não somente é possível, mas necessário, que o indivíduo vença os seus próprios instintos; de forma a submetê-los a leis não mais determinadas apenas por mecanismos fisiológicos de estímulo e reação, mas pelos princípios espirituais que são transmitidos através do Espírito de Deus. Esta transformação psíquica ocorre através do renascimento espiritual do cristão, que consiste em sua plena renovação íntima, operada mediante a sua fé e pelo poder de Deus agindo diariamente em sua vida. Este processo transforma a natureza humana egoísta e corrupta do indivíduo em uma natureza pura e verdadeiramente altruísta, capaz de amar incondicionalmente, fiel à justiça divina e disposta a servir. Esta não é entretanto uma transformação instantânea ou automática, e requer a perseverança do cristão no caminho ao qual ele se converteu, para que ele possa efetivamente vencer a si mesmo.

Reconheço portanto que o fato de um jovem cristão verdadeiramente nascer de novo e vencer a si mesmo é um milagre ainda maior que a conversão de um adulto ao cristianismo. Os jovens vivem a plenitude de suas vidas, estão normalmente cheios de vigor e de vontade de inovar, de empreender e de se realizar pessoalmente, de forma independente e autônoma. Os seus instintos são naturalmente aguçados e cada vez mais estimulados por uma sociedade que valoriza absurdamente a sensualidade, o hedonismo e o orgulho pessoal. Os jovens e adolescentes valorizam absurdamente tudo que é novo, têm sede de mudança e de transformação. Por isto é difícil para eles compreender o fato de que a mensagem de Deus na Bíblia é atemporal, imutável e completa. As lutas que um jovem cristão precisa enfrentar diariamente para viver uma vida realmente cristã são realmente terríveis, por isso meu coração se rejubila e louvo a Deus quando encontro adolescentes e jovens cristãos vitoriosos; verdadeiros servos de Deus, que honram e glorificam o seu nome através de suas vidas.

Entristeço-me entretanto, ao constatar que por outro lado, muitos jovens também fracassam em sua vida cristã; por não experimentarem uma verdadeira conversão de vida, ou – o que é mais comum – por não encontrarem em suas famílias ou em suas igrejas o apoio espiritual necessário para seu fortalecimento e crescimento espiritual. Através da minha experiência pessoal, pude constatar que a falta deste apoio é maior no sentido prático que no sentido doutrinário. A maior parte dos jovens que fracassa em sua vida cristã abandona a igreja e a fé simplesmente pelo fato de não perceber uma verdadeira coerência entre aquilo é pregado sob a forma de doutrina e aquilo que é efetivamente praticado em seu lar ou na igreja que freqüentam.

O maior empecilho alegado pelos jovens para a sua integração na igreja tem sido o fato de que em geral, eles não conseguem comprovar que o cristianismo é algo cuja viabilidade é demonstrada na vida dos cristãos com quem eles convivem. Os adolescentes e os jovens têm, em certos aspectos, uma psicologia muito próxima da psicologia de uma criança. Não se pode ensinar a um jovem um comportamento que ele não pode ver comprovado na prática, o que é, aliás, bastante saudável. Por isso, alguns evangelistas têm adotado como estratégia para atrair os jovens para a igreja, o seu envolvimento em atividades comunitárias de ajuda mútua, em mutirões ou forças-tarefa de auxílio a crianças com problemas escolares, no reparo e construção de moradias, na limpeza de áreas compartilhadas pela comunidade entre outros.

Quando este tipo de atividade é praticado apenas por razões humanitárias, existe somente um ganho material e psicológico para todos os envolvidos, mas quando estas atividades são associadas ao Evangelho cristão, é produzido, além destes, o fruto principal que é o crescimento espiritual.

Não deixo de lamentar, todos os dias, a deplorável condição da maioria de nossos jovens, aliciados para vícios como a prostituição, as drogas (socialmente aceitas ou não), a violência e a todo tipo de entretenimentos, moralmente e espiritualmente degradantes. Sei que este estado de coisas não pode ser totalmente evitado, pois sempre existirão aqueles que são filhos deste mundo e, portanto morrerão com ele.
Entretanto, muitos que são filhos do Reino estão enredados nestes abismos porquê não conhecem a luz, porquê não vêem uma saída.

Uma igreja realmente viva e comprometida com a evangelização tem como objetivo prioritário, assim como Jesus, buscar os perdidos e os desgarrados e não em acomodar os que já estão salvos. Buscar meios de apresentar Cristo prioritariamente aos jovens, mais passíveis de serem seduzidos ou confundidos pelo mundo que os adultos e idosos; supostamente dotados de maior sensatez e discernimento. Buscar meios de canalizar a energia destes jovens para a construção do Reino de Deus e não para a glorificação das paixões materiais.

Os meios mais eficazes para isto não são simplesmente a pregação da doutrina, os shows de música gospel e as performances teatrais em praças públicas, como muitos acreditam. Se quisermos criar meios para que o Espírito de Deus possa produzir conversões verdadeiras, não podemos dizer a um adolescente ou a um jovem que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos se não mostrarmos a ele como fazemos isso em nossas vidas. Não podemos conduzir os jovens a Cristo se nós mesmos não formos verdadeiramente cristãos.

Quando Jesus respondeu ao jovem rico que o perguntou sobre o necessário para herdar a vida eterna, Ele não apenas lhe ordenou cumprir os mandamentos básicos, mas mostrou a ele também como demonstrar, na prática, que ele estava sinceramente decidido a herdar a vida eterna e que amava a Deus e a seu semelhante e não estava apenas interessado em obter o melhor dos dois mundos: “vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me”. Além disso, Jesus testemunhava claramente através de sua própria vida tudo aquilo que pregava. Confrontado com esta escolha eminentemente prática, aquele jovem revelou ali a verdadeira natureza de seu coração.

Jesus também nos mostrou, de forma prática, como receberá e reconhecerá aqueles que realmente fazem parte de sua igreja:

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mt 25:34-36)

O Humanismo

O humanismo não é uma ideologia única, monolítica, mas um conjunto de ideologias surgidas a partir do século 19; através do reavivamento dos ideais antropocêntricos renascentistas, que têm em comum o fato de buscarem estabelecer o ser humano como o centro da vida e do universo. Estas ideologias procuravam, cada uma com seu enfoque próprio, estabelecer os princípios éticos e racionais por meio dos quais a sociedade humanista deveria se organizar e desenvolver. O humanismo surgiu a princípio como uma reação ao caráter dogmático e espiritual das religiões. 

A International Humanist and Ethical Union (União Humanista e Ética Internacional) ou IHEU, em seu último congresso em 2002, assim definiu o seu papel atual:

“Nossa tarefa primordial é tornar os seres humanos conscientes, na forma mais simples, do que o humanismo pode significar para elas e do que ele as envolve. Utilizando a livre investigação, o poder da ciência e a imaginação criativa para a promoção da paz e a serviço da compaixão, temos confiança de que possuímos os meios para solucionar os problemas que desafiam a todos nós. Convidamos a todos os que compartilham desta convicção a se associar conosco nesta empresa.”

Esta instituição assinou, em 1952 a chamada Declaração de Amsterdã, a qual foi revisada em 2002 e estabelece os princípios básicos dos seus associados. Em síntese, são os seguintes os fundamentos relacionados neste documento , como características do humanismo moderno:

a) Ética;

b) Racionalidade;

c) Apoio à democracia e aos direitos humanos, conforme definidos pela ONU;

d) Defesa da liberdade individual associada à responsabilidade social;

e) Alternativa à religiosidade dogmática;

f) Valorização da criatividade e da imaginação;

g) Busca da satisfação máxima possível do ser humano, através da ética e da vida criativa.

No Brasil, existe o MHD ou Movimento Humanismo e Democracia, fundado em 1992 e que na ocasião lançou um manifesto, que era também “uma convocação para a reflexão, para o estudo e para o debate a todos aqueles cuja formação intelectual ou atividade profissional e política pode contribuir para a consolidação de um ‘novo pensamento humanista’.”

Pode-se identificar, como principais movimentos humanistas da história; por seu impacto ideológico na civilização ocidental, o marxista, o comtiano e o secular.

O humanismo marxista é uma linha interpretativa de textos de Karl Marx, geralmente oposta ao materialismo dialético de Engels e de outras linhas de interpretação que entendem o marxismo como ciência da economia e da história. É baseado nos manuscritos da juventude de Marx, onde ele crítica o idealismo hegeliano que coloca o ser humano como um ser espiritual consciente. Para Marx o ser humano é antes de tudo um ser natural, assim como já havia dito Feuerbach, mas, diferentemente deste, Marx considera que o ser humano – de forma diferente de todos os outros seres naturais – possui uma característica que lhe é particular, a consciência, que se manifesta como saber.

O positivismo de Auguste Comte é também uma forma de humanismo, na medida em que afirma o ser humano e rejeita os valores defendidos pela teologia e a metafísica. A forma mais profunda e coerente do humanismo comtiano é sua vertente religiosa, que ele chamou de Religião da Humanidade; que propõe a substituição moral, filosófica, política e epistemológica das entidades supranaturais (os “deuses” ou as “entidades” abstratas da metafísica) pela concepção de “humanidade”. Além disso, afirma a historicidade do ser humano e a necessidade de uma percepção totalizante do homem; ou seja, em suas dimensões afetiva, racional e prática ao mesmo tempo.

Os humanistas seculares por sua vez são utilitaristas e empiristas; são geralmente encontrados entre os cientistas e os acadêmicos, embora seus simpatizantes não se limitem a esses grupos. Têm preocupação com a ética e afirmam a dignidade do ser humano, recusando explicações transcendentais para a realidade e preferindo o racionalismo. São em geral ateus ou agnósticos. Apenas alguns deles se auto-denominam humanistas; porém, a maior parte desses humanistas , embora recusem esse rótulo, seguem suas doutrinas; especialmente no que se refere a ética. Defendem o princípio de que os dogmas, as ideologias e as tradições; quer sejam elas religiosas, políticas ou sociais; devem ser avaliados e testados por cada indivíduo, em vez de simplesmente aceitas por uma questão de fé. Sua preocupação básica é com a satisfação, o progresso social, o pleno desenvolvimento das qualidades naturais e da criatividade, tanto em relação ao indivíduo quanto à humanidade em geral.

Antonio Rezk, coordenador nacional do MHD, oferece a seguinte conclusão sobre o resultado de toda uma experiência de prática destas diversas vertentes humanistas, que culminou com o fim da chamada era moderna:

“Por enquanto, basta-nos a afirmação de que a humanidade sofre uma crise estrutural de transição para uma nova era de desenvolvimento. Esta crise demoliu a experiência soviética assim como vem demolindo o sonho da democracia americana tida como modo de vida ‘exemplar’. Do mesmo modo como leva ao colapso do paradigma europeu do Walfare State da social-democracia.

Robert Kurz define esta fase como o ‘colapso ético e religioso da sociedade de trabalho – e do seu respectivo sistema produtor de mercadorias’; Alvin Toffler dirá que é o fim da era manufatureira das fábricas de chaminés. Ambos, entre outros – cada qual com a sua visão do processo –, procuram demonstrar que chega ao fim um estágio da sociedade humana. Nada impede que também opinemos, já que a verdade social e os seus modelos teóricos estão agora em sério questionamento.”

Rezk constata em seu balanço deste período histórico que em parte coincide com a idade moderna, que os valores humanistas não foram eficazes em produzir um estado de bem estar social como se supunha, mas reafirma sua fé marxista no processo histórico, ao concluir que “se os paradigmas de ontem morreram, por não conseguirem reformular-se para os novos tempos – ou por serem equivocados, não permitiam reformulações –, então tudo está novamente em questão para ser descoberto e formulado.”

A era que sucedeu a modernidade consolidou definitivamente no ocidente a hegemonia  do capitalismo como regime econômico, a democracia como a mais eficiente forma de governo e a ciência como fonte de um processo contínuo e acelerado de evolução tecnológica. A expectativa média de vida do ser humano saltou espetacularmente de 56 anos, em meados do século 20, para 65 anos, a taxa de mortalidade infantil caiu de 104 para 56 por 1000 nascidos vivos. O Índice de Desenvolvimento Humano, ou IDH, adotado pela ONU em 1993 para avaliar a qualidade de vida de comunidades, aponta em sua última avaliação em 2007 que dos 177 países avaliados, 70 foram classificados como tendo IDH elevado, 85 como apresentando um índice médio e apenas 22 com um IDH baixo.

Estamos vivendo, segundo Adam Schaff – autor da obra A Sociedade Informática – As Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial, a terceira Revolução Industrial - que tem se caracterizado por uma acelerada transformação no campo tecnológico, com conseqüências não só no mercado de bens de serviço e de consumo como também, no modo de produção e na qualificação necessária dos novos trabalhadores e nas relações sociais. Essa fase é marcada, segundo Schaff; por uma tríade revolucionária:  a microeletrônica e a informática, a microbiologia e a energia nuclear, o que nos levará, segundo o autor, a um novo salto de desenvolvimento da humanidade. Entretanto, do ponto de vista espiritual, a filosofia humanista que orienta esta sociedade pós-moderna ainda não conseguiu oferecer ao ser humano um grau de satisfação aceitável, conforme suas metas. Embora tenha alcançado um nível considerável de satisfação material e cultural, o humanismo secular tem falhado miseravelmente em oferecer às pessoas um grau mínimo de realização espiritual.

O iluminismo, que inspirou os princípios liberais que hoje norteiam o humanismo secular, deixou sem dúvida uma herança irrevogável. Noções de tolerância religiosa, liberdade de expressão, segurança pessoal, eleições livres, governo constitucional, e progresso econômico são hoje característica de qualquer nação democrática. Entretanto, no Iluminismo, o individualismo, a liberdade e a transformação tomaram o lugar da comunidade, da autoridade e da tradição como valores centrais europeus. Embora Rousseau às vezes procurasse parecer mais religiosamente devoto, ele era quase tão cético quanto Voltaire: a fé minimalista que ambos compartilhavam era chamada deísmo e ela veio finalmente a transformar a religião européia e exercer poderosa influência em outros aspectos da sociedade. O Deus que subscreve o conceito de igualdade na Declaração de Independência norte-americana é o mesmo Deus deísta que Rousseau cultuava, não o aquele adorado nas igrejas tradicionais que ainda apoiavam e defendiam as monarquias em toda a Europa.

Os liberais tradicionais eram contrários em graus variados, a monopólios hereditários, especialmente aos privilégios de algumas famílias que possuíam grandes latifúndios. Eles desprezavam as condições de vassalagem e de servidão; aspirando universalizar a condição da independência individual. Abominavam também toda forma de tirania e de absolutismo. A autoridade legítima, afirmavam, é baseada no consenso popular, não no direito divino ou na sucessão dinástica. Entretanto, eram contrários também à autoridade militar e religiosa. As noções de direitos humanos que o liberalismo desenvolveu são hoje amplamente reivindicadas pelos povos e minorias sociais oprimidas em todo o mundo, que apelam para a mesma noção de lei natural que inspiraram Voltaire e Jefferson. Entretanto, eram e ainda são acusados de promover os ideais de uma classe econômica dominante, á custa das classes trabalhadoras. Os liberais, contudo, não viam a desigualdade de riqueza propriamente, à parte de problemas de dependência e pobreza, como um mal social inaceitável. Os críticos muitas vezes afirmam que a aquiescência liberal na desigualdade econômica se origina de uma crença profunda que os talentos superiores “merecem” recompensas superiores. Os liberais aceitavam a desigualdade de riqueza, de fato, porque eles a viam como um subproduto inevitável de uma economia de mercado livre, embora defendessem a necessidade da igualdade de oportunidade econômica para todos os níveis sociais. Eles admiravam a ciência ou a livre questionamento como um aprofundamento da compreensão humana, não simplesmente como um instrumento para o domínio da natureza.

O liberalismo humanista porém falhou, como as demais ideologias racionalistas, em cumprir as suas promessas de bem estar social, embora tenha sido bastante útil na promoção do bem estar individual de uma minoria. Em muitos lugares, a violência urbana ridiculariza a promessa de proteger cada cidadão do medo físico. Os sem teto são privados da segurança elementar que um regime liberal deve a todos. As escolas decadentes representam uma traição nacional das promessas do liberalismo para as gerações vindouras. O aumento constante de crianças que vivem na pobreza está em conflito gritante com o compromisso liberal de igualdade de oportunidades. Os preços crescentes de custas judiciais colocaram em dúvida o princípio do direito de acesso igual à lei. As despesas crescentes de campanhas políticas atuais sugerem que a desigualdade econômica esteja sendo convertida diretamente em desigualdade política, contra todas as normas liberais. O liberalismo, embora possua muitos pontos admiráveis e sua doutrina, falhou no momento em que resolveu deixar fora de seus fundamentos aquele que é a pedra fundamental de toda a existência humana: Deus. Ao substituir a autoridade divina pela autoridade humana, e o Deus verdadeiro por um falso deus, o liberalismo fracassou como ideologia; por abandonar o cristianismo e se apoiar apenas na razão, no bom senso e na tolerância humanas.  O rei Davi, já em seu tempo, afirmou sabiamente:

“O Senhor desfaz o conselho das nações, anula os intentos dos povos. O conselho do Senhor permanece para sempre, e os intentos do seu coração por todas as gerações. Bem aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que ele escolheu para sua herança.” Salmos 33.10-12

Os ideais de progresso e justiça social não podem ser realizados por nenhuma ideologia, mas apenas através da sabedoria divina e de sua obra regeneradora da alma humana. Os ideais iluministas foram abandonados, por que eram apenas isto: ideais. Não eram propósitos reais estabelecidos por Deus, mas apenas metas e planos enganosos estabelecidos pela sabedoria humana. Davi não dirigia a nação de Israel apenas segundo o seu julgamento e discernimento, mas confiava plenamente no senhorio e na sabedoria de Deus para o seu governo:

“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.” Salmos 127.1

Conforme reconhece o pensador francês e humanista secular Luc Ferry, “A sociedade atual não se inspira em ideais superiores em termos de civilização, como no Iluminismo. O que nos dá a sensação de progredir é comprar, comprar, comprar. Essa lógica apenas aumenta nossa insatisfação”. Autor de várias obras que oferecem um profundo conhecimento antropológico e filosófico em uma linguagem popular, Ferry lamenta ainda a infelicidade que marca a vida nas sociedades atuais, em uma entrevista à revista Veja:

“Há um descontentamento generalizado no mundo moderno. A sociedade se interessa mais pelos meios em si do que pelos fins. Um olhar sobre o Iluminismo ajuda a compreender esse novo mundo. As mentes mais brilhantes do século XVIII buscavam nas ciências e nas artes emancipar a humanidade do obscurantismo da Idade Média. Tudo era feito com o objetivo de, no fim, alcançar a liberdade e a felicidade.

Hoje, o movimento das sociedades não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. A sociedade se movimenta no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros.

A história não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição. O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros. Como dizia o filósofo romano Sêneca, enquanto esperamos viver, a vida passa rapidamente.”

Ferry defende que para se livrar deste mal estar e do vazio criados pela sociedade utilitarista e pragmática em que vivemos, é necessário não nos deixarmos dominar pelos nossos temores e encontrar novas formas de amar, através da ampliação de nossos horizontes de vida e da descoberta de propósitos significativos para nossas vidas. Isto seria equivalente aos ideais religiosos de transcendência, como os pregados pelo budismo e pelo cristianismo, estabelecidos entretanto segundo princípios humanistas e não religiosos. Esta não parece ser entretanto uma solução viável para o problema, conforme demonstra a comprovada falência dos ideais iluministas e marxistas; e a julgar pelo ideário do IHEU, conforme a Declaração de Amsterdã.

Homossexualismo e Feminismo – Parte 1 de 2

Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne. (Gênesis 2.24)

No passado, os estudos de Sigmund Freud influenciaram a psiquiatria, a antropologia, o serviço social, a criminalística, a educação e forneceram material praticamente sem limites para a arte. Freud criou “um clima de opiniões totalmente novo”; para o bem ou para o mal, ele mudou a face da sociedade. O vocabulário da psicanálise passou para a linguagem do dia-a-dia.

Freud postulou que a razão porque pensamos da maneira como pensamos é que no início da vida, do nascimento aos cinco anos, passamos pelo que ele chamou de fases psicossexuais de desenvolvimento. Freud ensinou que nossas experiências psicológicas na infância seriam então fundamentais para a nossa personalidade. De acordo com Freud, o que determina as nossas atitudes e o nosso comportamento como adultos, seria a estruturação psíquica que foi construída em nossa infância. Grande parte da responsabilidade pelos nossos atos se deveria assim a esta programação psicológica, adquirida da família e da sociedade, pela qual teríamos sido condicionados através das experiências iniciais de vida; de uma forma totalmente inconsciente.

Vários estudos na área da biologia têm demonstrado, ainda que a maioria delas de forma não totalmente conclusiva, a existência de uma correlação entre os aspectos genéticos e características fisiológicas do cérebro humano e a orientação sexual do indivíduo. Segundo estes estudos, a orientação sexual do indivíduo, como também a maior propensão para a criminalidade, poderiam ser determinadas por estas características biológicas. Também a zoologia tem identificado, entre animais, determinados comportamentos homossexuais, como mostra um artigo publicado recentemente pela revista Scientific American. Entretanto, como conclui o artigo, este comportamento é de natureza temporária e tem função exclusivamente adaptativa; constituindo uma forma de estratégia de convivência de algumas espécies em determinadas situações, como recurso para preservação da fecundidade e para proteção dos mais jovens.

Estes estudos e teorias muitas vezes são utilizados como uma justificativa científica para a aceitação da homossexualidade como uma característica normal da personalidade humana. Entretanto, a Bíblia afirma claramente que o homossexualismo, assim como o comportamento criminoso que leva o indivíduo a roubar, matar, e violentar são inaceitáveis para Deus. Sendo Deus onisciente, não poderia condenar atos humanos que estivessem naturalmente inculcados na própria natureza humana. Deus não considera o pecado como um comportamento natural humano, mas como uma conseqüência de sua queda espiritual, que causou a corrupção de nossa natureza original perfeita. A psicologia humana, seja ela freudiana ou não, considera entretanto que todas as inclinações humanas são naturais, pois são decorrentes da formação biológica e psíquica do indivíduo. A psicologia humana distingue apenas as inclinações patológicas das inclinações saudáveis, considerando como patológicos aqueles comportamentos que levam o indivíduo a se relacionar de forma insatisfatória com a realidade, causando com isto prejuízos para seu bem estar e sua realização pessoal, e/ou para a sociedade.

O chamado Relatório Kinsey, foi um conjunto de dois estudos da sexualidade da população masculina e feminina norte-americana publicados respectivamente em 1948 e 1953. Os resultados apresentados demonstravam um significativo envolvimento, que variava com o tempo, da população sobretudo masculina, com alguma forma de relacionamento homossexual. Kinsey adotou em sua pesquisa uma escala de orientação sexual que variava de 0, para um comportamento totalmente homossexual; até 6, para um comportamento totalmente homossexual. Um dos dados deste estudo foi que 11,6 % dos homens e 7% das mulheres solteiros entre 20 e 35 anos, se enquadravam no nível 3 da escala Kinsey; o estudo também afirmou que 10% dos homens entrevistados entre as idades de 16 a 55 anos; tiveram comportamento “mais ou menos homossexual por pelo menos três anos, enquadrando-se entre os níveis 5 e 6 da escala Kinsey.

Este relatório foi e ainda é equivocadamente utilizado, para demonstrar a “normalidade” do comportamento homossexual na sociedade moderna. O Relatório Kinsey foi amplamente desacreditado na época de sua publicação por suas falhas metodológicas, pela American Statiscal Association e por psicólogos renomados como Abraham Maslow. Embora os dados coletados tenham sido posteriormente estatisticamente corrigidos de forma a eliminar aqueles claramente não representativos, os resultados não se alteraram significativamente. Entretanto, uma pesquisa independente realizada pouco depois pelo Alan Guttmacher Institute, entre 3.321 homens norte-americanos entre 20 e 30 anos, em 1993, encontrou percentuais bastante inferiores de indivíduos com algum envolvimento homossexual, do que aqueles encontrados por Kinsey.

Além disso, outros críticos lembraram que o comportamento sexual do próprio Kinsey interferiu de certa forma em seu estudo. Na biografia de Kinsey publicada por James H.Jones’s , ele é descrito como bissexual e adepto de práticas masoquistas, sexo grupal e troca de casais. Além disso, Kinsey, embora segundo ele próprio não fosse declaradamente um pedófilo, tinha simpatia por este tipo de sexualidade e se relacionava com pedófilos como o filósofo francês René Guyon, que era pedófilo. Conforme lembra Júlio Severo em As Ilusões do Movimento Gay, “ele também era amigo do Dr. Harry Benjamin, inglês que apoiava a pedofilia. Guyon, que era jurista, propunha leis para defender o relacionamento sexual de adultos com crianças como necessidade tão normal quanto a alimentação e a respiração. No livro A Ética dos Atos Sexuais, de Guyon, há menções ao Relatório Kinsey e a introdução foi escrita pelo próprio Kinsey.” Estudos mais recentes, como os de Paul Cameron, de 1985 e de Thomas E. Schmidt, de 1995, demonstraram estatisticamente que a pedofilia é um problema maior entre os homossexuais que entre os heterossexuais.

Deus conhece o mais íntimo do nosso ser, pois é o nosso criador. Ele não nos pediria para obedecer princípios que ele soubesse que nos seria impossível praticar. O que Deus considera patológico em nossa psicologia é certamente diferente do que foi estabelecido pela psicologia humana, pois os referenciais humano e divino são absolutamente diversos. Além disso, Deus considera que através de nossa livre vontade e da fé; é possível superar o efeito patológico do pecado em nossas vidas, tenha ele causa biológica ou psicológica, por meio da graça que nos é concedida em Cristo. Qualquer criminoso ou indivíduo escravizado por algum tipo de vício pode se libertar e se reabilitar perante Deus e perante a sociedade, se verdadeiramente assim o desejar.

A Bíblia nunca submete a responsabilidade pessoal por nossos atos a condicionamentos genéticos ou sociais. Desde que tanto homossexuais quanto heterossexuais são pecadores, conforme ensina Romanos 3:23, ninguém pode ser considerado inculpável por seus pecados devido a estes condicionamentos. A orientação heterossexual também pode ser genética; especialmente se é aceito que a orientação homossexual é genética, mas isto não é uma justificativa válida para a prática do adultério e da promiscuidade sexual.

Devido ao aumento da liberalidade sexual, causada pelo desprezo aos valores cristãos em nossa sociedade; os grupos de orientação homossexual e seus simpatizantes têm se organizado de forma cada vez mais efetiva e se mobilizado, no sentido de exigir da sociedade a legitimação da homossexualidade. Esta mobilização se dá no sentido de buscar o reconhecimento legal do relacionamento homossexual e também o de eliminar o chamado “preconceito” cultural em relação à homossexualidade. Esta mobilização tem alcançado resultados significativos, tendo em vista a aceitação crescente, em vários países, da união homossexual estável do ponto de vista jurídico, como também da aceitação cultural da conduta homossexual.

A maior barreira enfrentada pelos defensores da homossexualidade é naturalmente o cristianismo; que afirma de forma clara e consistente, por todas as suas vertentes, ser a homossexualidade um crime perante Deus. Por esta razão, o movimento tem procurado encontrar meios de compatibilizar as Escrituras com a conduta homossexual, valendo-se para isto de expedientes de exegese bíblica que justificam até mesmo a criação de igrejas destinadas exclusivamente ao público homossexual. Como a igreja cristã tem reagido a isso?

Recentemente, grandes denominações cristãs como a Igreja Episcopal, a Igreja Presbiteriana e a Igreja Metodista nos EUA, têm sido forçadas a confrontar uma onda crescente de influência homossexual. Em 2003, a Igreja Episcopal anunciou a aceitação de seu primeiro bispo homossexual. Mesmo baluartes cristãos conservadores como a Convenção Batista do Sul, tiveram que lidar com este desconfortável tema, expulsando algumas igrejas de sua filiação, por haverem comprovadamente aceito homossexuais entre seus ministros. A controvérsia afetou também instituições governamentais e durante o governo do presidente Clinton, os EUA implementaram a política que ficou conhecida como “Não Pergunte, Não Conte” entre os seus militares. Esta política era na verdade um compromisso cínico de aceitação da conduta homossexual entre as suas fileiras, com a condição que esta preferência sexual não fosse tornada pública.

No Brasil, a Igreja Cristã Contemporânea se propõe a oferecer um refúgio a homossexuais em geral, embora não se restrinja a este público. Entretanto, a atitude cristã de não discriminar o pecador, mas repudiar o pecado é cumprida apenas em parte nesta denominação. Além disso, o pastor Marcos Gladstone demonstra, além da falta de conhecimento das Escrituras, não possuir também fé no poder salvífico de Jesus, como atesta seu depoimento, em seu site, na página sobre o assunto Homossexualidade::

“É normal e natural um indivíduo ser homossexual, como uma pessoa é destra ou canhota, como ter olhos verdes ou castanhos. Anormal é um indivíduo não ser o que é ou enganar as pessoas reprimindo sua orientação que nunca deixou de existir, como ocorre nos casos das terapias “ex-gay”. Eu não conheço nenhum “ex-gay” – ao contrário, sempre chegam até nós muitos “ex-ex-gay” que confirmam que o que fizeram foi só reprimir até um dia largarem tudo e deixarem a Deus.”

O que no passado era considerado tabu e algo vergonhoso, uma verdadeira doença mental, atualmente é aceito como razoável e respeitável. Esta mudança de consideração se deve a dois principais fatores, o primeiro deles relacionado à filosofia humanista que vem ganhando crescente influência na sociedade, desde o século 19 e a exclusão; pelos órgãos regulamentadores da prática da psicologia e psiquiatria em todo o mundo, da homossexualidade da lista das patologias psíquicas, a partir de 1973.

Os defensores do homossexualismo contam em suas fileiras até mesmo com teólogos dispostos a provar, através de uma estranha exegese bíblica, que Deus na verdade não condena esta opção sexual. Entre as passagens bíblicas que indicam claramente ser o a homossexualidade um comportamento abominável perante Deus, as seguintes são as mais polêmicas:

a) A destruição de Sodoma e Gomorra

“[...] Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens na cidade, tira-os para fora deste lugar; porque nós vamos destruir este lugar, porquanto o seu clamor se tem avolumado diante do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo. (Gênesis 19:12-13)

A exegese pró-homossexualismo afirma que estas cidades não foram destruídas por Deus por causa da homossexualidade, mas por causa de sua falta de hospitalidade para como os anjos enviados à casa de Ló. Embora não haja nenhuma afirmação explícita de que o homossexualismo era um dos pecados pelos quais Sodoma e Gomorra foram condenadas, uma leitura cuidadosa sobre o assunto revela que este era sem dúvida um dos pecados que caracterizavam o alto grau de depravação de costumes alcançado por aquelas cidades. (Juízes 7 e 2 Pedro 2:6, 13-14). Jeremias (23:14) e Ezequiel (16:49-50) citaram estas cidades como exemplo de depravação e pecado. O fato de a prática do homossexualismo não estar especificamente citada nas referidas passagens bíblicas, não significa portanto que ela não seja pecaminosa. Jesus nunca falou nada contra os homossexuais, mas também não condenou de forma específica os estupradores, os gulosos, os adivinhadores, os estelionatários, etc., o que não significa que ele aprovasse estas práticas.

b) As ordenanças de Levítico

“Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.” (Levítico 18.22)

“Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles.” (Levítico 20.13)

Os defensores do homossexualismo afirmam que os versículos acima fazem parte de um “código de santidade” de Israel, que incluía a proibição de ingerir determinados alimentos e manter afastados os leprosos. Este código teria como propósito, apenas manter os judeus livres da idolatria e preservar um modo de vida higiênico e sadio. Segundo este raciocínio, se a proibição do homossexualismo for mantida em nosso tempo, também deveriam ser as demais proibições, por uma questão de coerência. Afirmam ainda; que a condenação do homossexualismo nos tempos bíblicos era devida à sua relação simbólica então existente, com rituais pagãos e idólatras e dessa forma; assim como as demais proibições da lei mosaica foram abandonadas no período neo-testamentário, também a proibição da homossexualidade deveria ser desprezada.

As práticas proibidas em Levítico incluíam incesto, adultério, sacrifício de crianças, homossexualidade, bestialidade, espiritismo e lançamento de maldições sobre os pais. Apenas uma das práticas proibidas apresenta conotação cultual ou simbólica, que é a relação sexual durante o período menstrual. A homossexualidade, entretanto, é citada no mesmo contexto de outras práticas que nada têm de simbólicas. São portanto consideradas por Deus como pecados graves, em caráter absolutamente atemporal e supracultural; ou seja, independentemente de época ou cultura. Isto significa que considerar legítima a prática do homossexualismo nos dias atuais implicaria também em aceitar como legítimas, as demais práticas condenadas, uma vez que elas eram relativas ao contexto cultural da época.

A maioria dos cristãos concorda em que as leis morais enunciadas em Levítico 18 se aplicam de forma independente de seu contexto cultural, como evidenciado no Novo Testamento, em 1Coríntios 5, 6:9 e 10:7; Romanos 1:27 e 13:9 e Apocalipse 2:14.

c) A condenação de Paulo

“Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro.” (Romanos 1.26-27)

O movimento pró-homossexualidade argumenta que nestes versos, Paulo não condena os indivíduos que apresentam um comportamento homossexual inato, mas apenas aqueles que, sendo heterossexuais, abandonam sua orientação sexual natural e adotam práticas homossexuais. Boswell, um dos defensores desta interpretação, afirma que as traduções atuais utilizam indevidamente a expressão “contrário à natureza”, quando a tradução correta deveria ser “além do natural”; no sentido de “peculiar, extraordinário”, não havendo aí uma condenação implícita desta prática. Boswell afirma que não havia uma idéia clara do que era o comportamento sexual natural na época de Paulo.

O erro desta interpretação é se basear na premissa de que, para que Paulo condenasse o homossexualismo, ele deveria se basear em uma noção humana de comportamento sexual natural. Ao condenar esta prática, Paulo está se baseando, como na maioria de suas orientações às igrejas, unicamente nas Escrituras; ou seja, na vontade de Deus. Com relação à tradução da expressão grega “para physin“, Dunn nota que a palavra “natureza” mantém o significado estóico de viver em harmonia com a ordem natural. Mas afirma que “a noção de atos ‘contrários à natureza’ está também presente, com particular referência a relações sexuais como a pederastia”. No estudo de Koster sobre o termo “physin“, ele afirma que a expressão “para physin” refere-se a pederastia. Koster afirma ainda que “para physin” é utilizada também para descrever um casamento em que a mulher é na realidade um homem [...] Em particular, estas expressões são usadas em julgamentos éticos acima de tudo com referência a falhas de natureza sexual.

Na Grécia Antiga, as relações entre homens, que hoje chamamos de homossexualismo, eram quase sempre orientadas para finalidades específicas e ultrapassavam a simples busca do prazer sexual. A pederastia visava a formação do jovem, tanto em Esparta quanto em Atenas. Tão logo aparecesse no adolescente os primeiros sinais de virilidade; a primeira barba, que por volta dos 17 ou 18 anos já era evidente, deveria cessar esse relacionamento. Permanecer nessa relação após o advento da virilidade era reprovável. No exército espartano, o amor entre soldados era tido como elemento que promovia o fortalecimento moral da corporação. Em nenhum dos dois casos estava excluída a relação heterossexual. A homossexualidade viciosa entretanto, fora dos contextos acima, era não apenas reprovável, mas punível legalmente, exceto quando praticada como prostituição. Conforme afirma Platão no seu diálogo Leis:

“Quando o homem se une à mulher para procriação, o prazer experimentado se deve à natureza (kata physin), mas é contrário à natureza (para physin) quando o homem se une ao homem, ou a mulher à mulher, e aqueles culpados de tais perversidades são impelidos por sua escravidão ao prazer, tanto que ninguém deve se aventurar a tocar qualquer um dos nobres ou cidadãos livres salvo sua própria esposa casada, nem semear qualquer semente profana e bastarda na fornicação, ou qualquer semente não-natural e estéril na sodomia – ou então nós deveremos inteiramente abolir o amor por homens”.

Segundo Ésquino, um orador socrático ateniense, aos cidadãos adeptos da prática da sodomia eram impostas as seguintes restrições:

“Se qualquer [cidadão] ateniense houver se prostituído [com outro homem], não deverá ser permitido que ele se torne um dos nove arcontes, nem que ocupe o cargo de sacerdote, nem que aja como advogado do estado, nem que ocupe qualquer cargo que seja, no país ou fora dele, quer seja preenchido por designação ou eleição; não deverá ser enviado como arauto; não deverá participar de debates, nem estar presente em sacrifícios públicos; ele não deverá usar guirlandas entre outros cidadãos; e não deverá adentrar em recinto que houver sido purificado para assembléia popular. Se qualquer homem que tenha sido declarado culpado de prostituição agir contrariamente a estas proibições, deverá ser morto.”

Paulo condena ainda o homossexualismo em sua primeira carta aos Coríntios e em sua primeira carta a Timóteo:

“Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados [malakos], nem os sodomitas [arsenokoitai]” (1Coríntios 6.9)

“Para os devassos, os sodomitas [arsenokoitai], os roubadores de homens, os mentirosos, os perjuros, e para tudo que for contrário à sã doutrina” (1Timóteo 1.10)

Boswell argumenta aqui que as traduções usadas para sodomitas no grego são equivocadas. Segundo ele, malakos não era utilizada para se referir a homossexuais, mas a incontinência, imoralidade, lascívia; e que o termo tinha originalmente a conotação de “suave” e poderia estar se referindo a um jovem com características femininas. Mas como observa Gordon Fee, malakos também se tornou um epíteto pejorativo para homens que eram “suaves” ou efeminados, provavelmente referindo-se ao parceiro passivo da relação homossexual. Este não seria certamente o termo que Paulo utilizaria para descrever um comportamento de incontinência ou lascívia.

O termo arsenokoitai é a forma plural de arsenokoites, e é composto de dois outros, arsen-, que significa masculino e koite, que significa leito, poltrona ou relação sexual. A tradução literal seria “aquele que se deita com homens”. De qualquer forma, a discussão semântica isoladamente mascara o fato de que estes termos estão em um contexto do discurso de Paulo claramente voltado para a condenação de pecados de natureza sexual. Para entendermos a atitude de Paulo com relação à homossexualidade, basta notarmos a sua origem judaica, que abomina tal conduta, e também a forma como ele se refere a ela, em Romanos 1:26-27.

Entretanto, o que os defensores do homossexualismo não podem compreender é o fato de que Paulo não condena essa prática por uma aversão pessoal, mas por que ele é fiel às Escrituras, que também a condenam. Paulo via claramente que a degeneração sexual dos romanos e dos gregos de sua época era uma conseqüência do fato destes povos adorarem os seus ídolos pagãos e de não adorar e servir a Deus. Foi por haverem abandonado a sua verdadeira natureza espiritual que Deus permitiu que eles abandonassem também sua natureza sexual e se entregassem “a paixões infames”. Esta foi também a pedra de tropeço dos próprios judeus no período do Antigo Testamento, quando eram continuamente advertidos pelos profetas por se prostituírem espiritualmente, pela prática de adoração e de rituais de devoção aos deuses dos povos pagãos à sua volta. Não é esta também a pedra de tropeço de nossa sociedade hoje?

Homossexualismo e Feminismo – Parte 2 de 2

d) A amizade entre Jônatas e Davi

“A alma de Jonatas se ligou com a alma de David; e Jonatas o amou, como à sua própria alma” (I Samuel 18:1)

Este é um episódio bíblico normalmente citado pelos defensores do homossexualismo como uma comprovação de que a prática da sodomia era aceita entre os judeus como natural. Em outras duas passagens de 1 Samuel, 18:2 e 20:41 e em 2 Samuel 1:26, parece estar claro, segundo o nosso contexto cultural, que Davi e Jônatas viviam uma relação homossexual. Entretanto, essa percepção se deve unicamente pela forma extremamente diversa de amizade autêntica entre homens na sociedade judaica daquela época, em relação aos costumes atuais. Jônatas considerava Davi não apenas como amigo, ou um irmão, mas também como herói, e passou a amá-lo ainda mais ao perceber a inveja que seu pai Saul tinha por ele e a forma como o perseguia.

Não era apenas Jônatas que amava Davi, Saul também “o amou muito” (1 Samuel 16.21). Mical, a irmã de Jônatas, “amava a Davi” (1 Samuel 18.20). O mesmo livro bíblico afirma que “todo o Israel e Judá amavam a Davi” (1 Samuel 18.16). O jovem [Davi] “era benquisto de todo o povo, e até dos próprios servos de Saul” (1 Samuel 18.5). Quando Davi soube da morte de Saul e de Jônatas, lamentou da mesma forma a morte de ambos: “Saul e Jônatas, tão queridos e amáveis na sua vida [...]” (2 Samuel 1.23)

A amizade entre estes dois personagens era realmente singular, devido à sua espontaneidade e profundidade, o que não implica necessariamente em uma conotação homossexual. Os evangelhos falam de uma amizade semelhante, entre Jesus e o apóstolo João: “Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava.” (João 13.23). Poucos atentam ainda para o fato de que na primeira parte de 2 Samuel 1.26 , Davi se refere a Jônatas como um irmão: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras.” O fato de Davi e Jônatas se beijarem, como relata 1 Samuel 20:41; também não comprova este tipo de relacionamento, pois até os dias atuais é comum, entre alguns povos, a troca de beijos entre homens, com uma conotação exclusivamente cultural. O apóstolo Judas traiu ao próprio Jesus com um beijo (Mateus 26:49).

Na segunda parte de 2 Samuel 1.26, “Teu amor me era mais precioso que o amor das mulheres”, é importante observar ainda que a palavra hebraica ahavá, normalmente traduzida como “amor”, não possui apenas conotação conjugal e sexual, mas também sentido paternal como, em Gênesis 25.28; sentido de amizade, como em 1 Samuel 16.21; sentido de amor a Deus , como em Deuteronômio 6.5; e no sentido de amor ao próximo, como em Levítico 19.18. É portanto por razão lingüística, e não por falso pudor, que a tradução bíblica NVI traz 2 Samuel 1.26 como “Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres”.

Uma outra forma de interpretação dos textos bíblicos foi introduzida através do princípio hermenêutico que leva em consideração o contexto cultural das sociedades envolvidas. Este princípio, embora válido, tem sido indevidamente utilizado para introduzir princípios humanistas de interpretação dos mandamentos morais cristãos, com o objetivo precípuo de relativizar e tornar inadequada a sua aplicação nos nossos dias.

A chamada Teologia Feminista é um movimento recente que tem insurgido como uma reação a algumas tendências sociais atuais, não se caracterizando como um movimento teológico originário da doutrina cristã. Este movimento possui claras ligações com formas de espiritualismo neo-pagãs, como o culto a Gaia e a Wicca. Esta Teologia Feminista procura relativizar as orientações morais bíblicas, alegando estarem as mesmas relacionadas a um determinado contexto histórico e cultural, e que portanto devem ser interpretadas hoje levando em conta as mudanças culturais ocorridas em nossa sociedade. A aplicação de um princípio bíblico pode realmente variar entre culturas e contextos sociais ao longo do tempo, mas este princípio não pode ser invalidado por estas mudanças. Por exemplo o princípio da prática adotada por algumas igrejas do uso de chapéus pelas mulheres nos cultos, é baseada na recomendação de Paulo no passado para que as mulheres usassem véus, como um sinal de submissão a Deus. Ou seja, o princípio bíblico da submissão é obedecido por meio do uso de um elemento do vestuário moderno e não do elemento específico citado por Paulo.

Uma igreja mais moderada e conservadora pode interpretar a mesma passagem 1 Coríntios 11: 1-16 através de um exame da cultura grega antiga, e concluir que durante a época de Paulo, prostitutas e mulheres promíscuas freqüentavam a igreja sem véu, por não se importarem em expor a sua conduta sexual. Assim, mais que se tornar um símbolo de igualdade, a falta do véu promovia a tentação e a desatenção na igreja. Paulo então teria assim pedido às mulheres para usarem véu como um símbolo de humildade e integridade. Esta igreja conservadora poderia então tentar aplicar o mesmo princípio aconselhando as mulheres a não usar determinado tipo de roupas, embora não tornasse normativo o uso de chapéus.

Em ambos os casos, estas igrejas ao interpretar das Escrituras tentaram descobrir o princípio bíblico subjacente à norma comportamental encontrada em uma determinada situação. O objetivo de ambas foi o de aplicar o mesmo princípio ao contexto cultural atual, considerando sempre entretanto, que a intenção do autor e o princípio teológico em si presente naquela norma eram divinamente inspirados. Como tal, tanto a intenção do autor como o princípio teológico foram reconhecidos como sendo divinamente inspirados, tanto no sentido doutrinário como no sentido prático, pois conforme afirma Paulo a Timóteo, “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Timóteo 3.16)

A hermenêutica moderna liberal entretanto introduz um novo princípio, que relativiza a autoridade bíblica com respeito a quaisquer princípios ou normas que ela contenha, não reconhecendo o princípio básico da inspiração divina das Escrituras. Esta hermenêutica humanista considera que os autores dos textos bíblicos estavam necessariamente condicionados por sua cultura e limitados por seus valores pessoais e por suas próprias experiências de vida. Entretanto, o fato de Moisés não possuir o conhecimento científico necessário sobre o assunto, não torna o livro de Gênesis menos digo de credibilidade do ponto de vista moral e teológico de seus ensinamentos. Os intérpretes liberais afirmam ainda, por exemplo, que pelo fato de Paulo haver sido criado em uma cultura patriarcal, ele via a narrativa de Gênesis de criação do primeiro casal humano pelas lentes de sua cultura. Por isto ele teria ensinado que o homem é o cabeça do casal e pregado a submissão da mulher ao homem.

Esta hermenêutica retira do texto bíblico a autoridade que lhe é inerente; conferida pela inspiração divina, e a transfere assim para o intérprete; ao qual cabe agora a responsabilidade pelo discernimento das interferências culturais e pessoais dos seus autores, daquilo que seria verdadeiramente “o princípio fundamental” do texto. Este discernimento entretanto passa a ser feito segundo um novo parâmetro, que é determinado pela ideologia humanista da sociedade que está lendo aquele texto . No caso do movimento feminista atual, um destes novos princípios ideológicos é a “plena humanidade da mulher.”

Desta forma, este feminismo toma Gálatas 3:28, onde Paulo afirma que “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, como parâmetro canônico com relação aos papéis e relações entre os sexos masculino e feminino na Bíblia. As feministas atuais afirmam que este verso comprova que a revelação divina estabelece igualdade para os papéis a serem desempenhados pelo homem e pela mulher na sociedade. E também, com base no mesmo verso, afirmam que os outros ensinamentos bíblicos com relação a este assunto; que possuam uma conotação patriarcal, podem seguramente ser descartados como sendo destituídos de autoridade doutrinária . Entretanto, o erro hermenêutico aqui é o de utilizar uma passagem bíblica particular como padrão exegético para avaliação de outras passagens. Neste caso, não há uma confirmação crítica da validade de se tomar Gálatas 3:28 como um padrão crítico de avaliação deste assunto no restante da Bíblia, o que torna esse pressuposto subjetivo e portanto inválido.

Segundo a mesma hermenêutica falha, os ensinamentos de Paulo sobre homossexualismo e fornicação poderiam ser considerados reflexos de preconceitos de sua época. Dessa forma, hoje, em uma época supostamente mais esclarecida; com maior conhecimento científico, podemos constatar que o homossexualismo não é uma escolha moral, mas uma condição genética. A liberalidade sexual ,da mesma forma, não é mais um pecado; pois com o advento dos métodos contraceptivos modernos, foi eliminada a necessidade social de proteção da mulher grávida através do casamento. Outros argumentos similares poderiam ser levantados, de forma a justificar que as Escrituras não constituem mais um parâmetro comportamental para nossa sociedade. O erro que fundamenta este julgamento é novamente o pressuposto de que a intenção que caracteriza os textos bíblicos não é divinamente inspirada ou normativa. A relativização da moral cristã chegou ao ponto em que são utilizados princípios cristãos básicos que supostamente contradizem ensinamentos bíblicos específicos. A autoridade divina é assim diminuída, e a autoridade do intérprete é exaltada.

Não há dúvida de que as Escrituras refletem a cultura na qual elas foram escritas, e podem incluir certas práticas sociais que não são normativas de forma absoluta, como por exemplo, o uso de véu na igreja. Por isso, o conhecimento da cultura é uma exigência exegética para se estabelecer corretamente as equivalências culturais destas práticas sociais para os nossos dias, segundo os princípios bíblicos que as determinaram. Exemplos disto são as práticas que na Bíblia são normalmente toleradas por Deus, por causa da dureza do coração dos homens, mas que jamais foram normativamente aprovadas, como a escravidão, a poligamia e o divórcio motivado por razões aleatórias.

Quando Paulo, Pedro e Tito afirmam portanto, que a mulher deve ser submissa ao homem, eles estão se baseando não em sua cultura patriarcal, mas no texto bíblico que declara a ordem da criação (Gênesis 2:18-25) e a conseqüente relação de dependência natural da mulher em relação ao homem:

“Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem.” (1 Coríntios 11.7-9)

Entretanto, Paulo reconhece que, no sentido espiritual, a dependência entre homem e mulher é mútua, pois fomos todos criados por um mesmo Deus:

“Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus.” (1 Coríntios 11.11-12)

O que Gálatas 3:28 afirma portanto, é esta igualdade espiritual de todos perante Deus, o que não implica em legitimar uma igualdade dos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher. Esta diferenciação de papéis é tão fundamental que existe no próprio nível biológico, se considerarmos as funções de cada sexo no processo reprodutivo. A busca de igualdade social portanto, reflete um anseio por dignidade e valorização pessoal; causada sem dúvida por uma falha ancestral no tratamento que os homens sempre dispensaram às mulheres, ao longo de toda a história da civilização. Entretanto, mais que buscar um igualitarismo social totalmente estranho aos olhos de Deus, como compensação pelo fato de a sociedade não reconhecer a verdadeira igualdade espiritual de todos os seres perante Deus, é necessário que aqueles que foram de alguma forma; desprezados e oprimidos por uma ordem social injusta, se lembrem que Deus já os exaltou em seu Reino, por sua justiça, como frutos de sua glória.

Esta substituição do parâmetro moral cristão pelo parâmetro humanista foi consolidada pelo Estado, sob várias formas, inclusive na educação. No Brasil, o MEC orienta os professores escolares a combater toda forma de discriminação sexual entre os alunos. Como parte desta diretriz, sugere o emprego do conceito de “gênero” e não de “sexo” para designar homens e mulheres, pois “o uso desse conceito [gênero] permite abandonar a explicação da natureza como a responsável pela grande diferença existente entre os comportamentos e lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade.”

Em sua edição de janeiro de 2000, o jornal do Centro Feminista de Estudos e Assessoria de Brasília elogia o plano do governo para todas as escolas do Brasil com a manchete: “Plano Nacional de Educação Ganha Perspectiva de Gênero”. No mesmo jornal, a entidade afirma que “a legalização do aborto traria mais democracia” para o Brasil. Dessa forma, para combater a discriminação social, princípios feministas e homossexuais são indiretamente incutidos na educação básica de nossos filhos. Em nome da suposta necessidade de separação entre o Estado e a religião, princípios humanistas são ensinados como sendo superiores aos princípios cristãos. Conforme conclui Julio Severo, “o fato é que o movimento homossexual e o feminista estão tentando minimizar as diferenças entre os homens e as mulheres no trabalho, lazer e moda. A finalidade é demolir os padrões sexuais tradicionais e criar um ambiente favorável à homossexualização da sociedade.”

Não quero com isto dizer que devemos nos acomodar com toda a forma de discriminação, exploração e opressão social, seja ela por motivo de sexo, raça ou religião. O cristão pode e deve lutar contra este mal, tendo no entanto o cuidado de se lembrar que os princípios mais elevados pelos quais ele deve viver são os de Deus e não os dos homens. Os princípios humanistas podem criar a ilusão de uma sociedade mais igualitária e justa, porém são como aqueles que desprezam os recursos da justiça enquanto instituição social para fazer justiça com as próprias mãos. Os princípios humanistas, por mais nobres e legítimos que sejam, jamais serão superiores à justiça de Deus e não poderão portanto jamais substituí-la.

O autoritarismo, o desrespeito e a opressão são conseqüência da corrupção da natureza humana pelo pecado, mas a obra restauradora de Cristo não elimina a hierarquia, a liderança ou a autoridade seja na família, na igreja ou na sociedade. De fato, muitas passagens do Novo Testamento ensinam que a autoridade é um princípio legitimado por Deus, como em Romanos 13; Hebreus 13:17, 1 Pedro 2:13-18 e 5:5. Em parte, nossa resistência em nos submeter a qualquer autoridade que não a nossa própria; é um reflexo de nossa recusa tácita em aceitar o senhorio de Cristo, através do seu governo na igreja e em nossas próprias vidas.

Voltando ao tema da homossexualidade; como lembra Julio Severo, deveríamos nos lembrar antes de tudo que “a diferença inescapável entre o sexo normal e a conduta sexual dos homossexuais é a capacidade natural de gerar nova vida. Embora seja plenamente aberto ao prazer sexual, o homossexualismo é um comportamento totalmente fechado para a transmissão natural da vida. Só um homem e uma mulher casados têm chamado para cumprir o primeiro e mais importante mandamento de Deus para a sexualidade humana.”

Jesus ratificou de modo claro o ensinamento de Gênesis 1:27 e 2:24; quando citou o mandamento divino com relação à união sexual humana, referindo-se à sacralidade do casamento:

“Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne? (Mateus 19.4-5)

Pessoalmente, considero o homossexualismo como uma doença espiritual, como a prostituição, a dependência de drogas, a idolatria e o feminismo. O homossexualismo não é hoje visto, segundo os critérios médicos humanos, como doença psicológica, por não afetar o comportamento normal do indivíduo na sociedade. Também não se enquadra como crime segundo os critérios jurídicos, quando praticado de forma consentida entre pessoas adultas. Entretanto, perante a lei de Deus, ele é um pecado como outro qualquer. O homossexualismo e o feminismo estão entre tantas outras doenças da alma que infestam as nossas vidas, causadas pela progressiva degeneração espiritual da sociedade do nosso tempo.

Não vejo portanto motivo para discriminarmos os homossexuais em nossas igrejas ou em nossa vida social. Se assim devêssemos fazer, teríamos também que discriminar os idólatras, os heterossexuais viciados em sexo, os drogados, os adúlteros, para citar apenas algumas formas de pecado que são absolutamente toleradas em nossas igrejas. Na verdade, se fôssemos mais radicais em nosso princípio hipócrita de manter os pecadores fora da igreja, nossos templos estariam virtualmente vazios.

Entretanto, isto não justifica, por outro lado; que em nome da tolerância, passemos a considerar o homossexualismo como sendo uma manifestação normal da sexualidade e não mais como um pecado. O homossexualismo é um pecado e como todo pecado deve ser combatido, não apenas por aquele do qual ele é escravo, mas também pela igreja, que deve se unir em favor de todos aqueles que querem efetivamente se libertar, através da graça salvadora de Jesus Cristo.

A verdadeira tolerância que um cristão deve demonstrar em relação aos que estão em pecado é exatamente esta, a de ajudá-los a se arrepender sinceramente de seus erros, e de encontrar em Cristo o alívio, a paz e a salvação. As terapias médicas até hoje desenvolvidas para a reversão da homossexualidade são, em sua maioria, consideradas ineficazes; os métodos por elas utilizados controversos e passíveis de riscos de resultados adversos. Entretanto, a boa notícia é que Cristo; o maior de todos os médicos, pode sem dúvida curar não apenas os males do corpo, mas também os males da alma, se efetivamente aceitarmos o seu senhorio sobre as nossas vidas.

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Júlio Severo, As Ilusões do Movimento Gay, 2003

O que está acima não é como o que está abaixo

Neo-paganismo designa hoje as diversas formas de religiosidade que têm basicamente em comum a busca do divino através da natureza. Com base em um princípio atribuído ao filósofo egípcio Hermes Trimegisto, segundo o qual “o que está acima é como o que está abaixo e o que está abaixo é como o que está acima”. Seus adeptos acreditam que a natureza dos criadores seja a mesma de suas criaturas. A sua filosofia esotérica é conhecida como hermetismo ou sabedoria hermética e foi difundida por todos os países do Médio e Extremo Oriente e Mediterrâneo. O hermetismo influenciou a filosofia grega, o judaísmo místico, o gnosticismo, e possivelmente o budismo e o hinduísmo. Em todo o mundo, seus ensinamentos influenciaram a literatura, as ciências ocultas e as religiões primitivas.

Atualmente há uma preocupação crescente, principalmente entre os cristãos, com o acelerado desenvolvimento de seitas neo-pagãs no hemisfério Norte, que tem se espalhado pelos Estados Unidos e Canadá, abarcando toda a Europa Ocidental e penetrando na Europa Oriental, sobretudo através da Rússia. Na América do Sul, não considerando as religiões animistas provenientes da África trazidas pelos escravos, o neo-paganismo tem se propagado entre os jovens por um aumento de interesse e até mesmo adesão a ritos de bruxaria moderna, mais conhecida como Wicca, devido principalmente ao sucesso de filmes norte-americanos como o seriado Charmed e o filme Practical Magic (Da Magia à Sedução), de 1998 e mais recentemente a série Harry Potter, de 2001, e a livros como os de Paulo Coelho, nos quais a feitiçaria e a magia são tratados com simpatia.

Pode-se identificar nas manifestações do neo-paganismo ocidental, uma forma de forte oposição ao cristianismo, como também à civilização cristã que se desenvolveu na Europa e em todo o Ocidente. O neo-pagão é tipicamente um cristão que rejeitou sua herança espiritual e busca um caminho que ele julga mais adequado, segundo seu ponto de vista, à sociedade pós-moderna. Prova disso é o fato de que em geral, as seitas neo-pagãs demonstram uma grande tolerância a qualquer outra religião, inclusive adotando práticas e costumes de religiões orientais, apesar destas pouco terem em comum com os antigos ritos pagãos ocidentais.

A filosofia do neo-paganismo é naturalista e evolucionista, o que implica na defesa moral da liberdade individual, o que a torna bastante simpática à cultura popular encontrada hoje nas sociedades pós-modernas. A filosofia neopaganista na verdade reafirma o antigo impulso espiritual anticristão de anseio pela plenipotência humana. Ela ensina que é possível ao ser humano transcender a realidade material através do conhecimento mágico; o qual pode conferir ao indivíduo comum super-poderes, de forma a torná-lo capaz não apenas de transformar o seu próprio destino; mas também a realidade à sua volta, segundo a sua vontade. Este anseio ontológico tem origem nos primórdios da criação; no ideal satânico de liberdade e poder, que levou Lúcifer a se rebelar contra Deus e a arregimentar com ele uma multidão de anjos caídos. Por meio deles a humanidade ainda é tentada, como foi a primeira mulher:

“Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gênesis 3:4-5)

Outra característica fundamental do neo-paganismo é a individualização da religião. Apesar de normalmente praticarem seus cultos em grupos, seus membros são incentivados a fazê-lo muitas vezes individualmente. Um dos grandes atrativos oferecidos por estas seitas é exatamente o de tornar acessível ao indivíduo comum rituais e processos mágicos, com o objetivo de proporcionar algum benefício individual para seus praticantes. A busca de uma eventual felicidade terrena; ou a obtenção de bens puramente materiais através de atos mágicos, de forma a individualizar a religião, supera à necessidade de normalização e de um referencial moral para o convívio social. Daí também a extrema anarquia e liberalidade comum entre os praticantes de tais cultos.

Conforme afirma A.R. Kayayan, em Notes on Neopaganism:

“Em resposta à religião monoteísta, que concentra todos os valores positivos em Deus, deixando a humanidade numa posição submissa, os neo-pagãos assumem uma visão de mundo pagã que alega que os mitos são superiores; porque o politeísmo dá a seus aderentes uma grande independência, uma maior abrangência de escolha, uma consciência mais serena, a medida que eles servem a uma variedade de deuses com interesses relativos, ao invés de um Deus absoluto.”

As seitas neo-pagãs procuram desvincular sua imagem de qualquer associação com seitas satânicas. Isto ocorre principalmente entre aquelas que praticam algum tipo de magia; como as diversas formas de Wicca, Asatru e Druidismo, alegando que adoram arquétipos representativos da natureza. Contudo, é claro o fato de que os rituais praticados por estas seitas são fundamentados no culto a ídolos pagãos e ainda que não sejam exigidos por estes ídolos os sacrifícios de animais e mesmo humanos, como eram no passado e como ainda são em algumas seitas animistas e satânicas; este tipo de idolatria afasta os seus praticantes do verdadeiro e único Deus, fazendo com os seus praticantes retornem a um primitivismo religioso característico dos tempos de maior obscurantismo espiritual já experimentado pelo ser humano.

“Porque todos os deuses dos povos são ídolos; mas o Senhor fez os céus.” (Salmos 96:5)

Este obscurantismo espiritual ainda não foi completamente extinto. O neo-paganismo encontra suporte também em sociedades contemporâneas que se acham em fase de pré-desenvolvimento econômico e social, como em algumas regiões da África e da Ásia. Nestas sociedades, ainda é comum a prática de religiões pagãs animistas como o candomblé, a umbanda e o vodu; encontradas na África, na América Central e Latina. Ainda é comum também a prática do xamanismo, que é uma forma animista de curandeirismo e feitiçaria; que ocorre em algumas comunidades não-budistas na Sibéria e na Ásia, como também na América Latina e em algumas formas de hinduísmo.

O neo paganismo tem conseguido grande projeção e influência no mundo de hoje, principalmente por causa de suas características ecléticas e humanistas, o que o torna aderente à agenda política mundial, principalmente aquela defendida abertamente ou de maneira velada pela ONU, e de uma maneira mais abrangente, pelas sociedades secretas atualmente existentes.

É necessário distinguir duas formas de neo-paganismo: O europeu, que remonta às antigas religiões pré-cristãs, e o americano, oriundo de diversas formas de ocultismo, do século 19 e início do século 20. Entre estas formas de ocultismo foram principalmente influentes a sociedade Teosófica de Madame Blavatsky, a Sociedade secreta Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis, de Aleister Crowley. As práticas espiritualistas neo-pagãs estão entretanto embasadas em uma mesma filosofia; que por suas características hedonistas e antropocêntricas, pode ser sintetizada no humanismo.

A origem humanista da filosofia neo-pagã na verdade não é recente, mas remonta às idéias de Nietzsche, que defendia a total liberação do homem de quaisquer restrições morais religiosas; e que em Der Antichrist (O Anticristo), condenou abertamente o cristianismo, o qual ele julgou sobretudo através da corrupção que ele identificava na igreja romana da sua época: “Eu finalmente chego à conclusão e pronuncio o meu veredicto. Eu condeno o cristianismo, eu levanto contra a igreja cristã a mais terrível acusação jamais pronunciada.”

O verdadeiro pensamento neo-pagão nasceu na Europa e defende não um simples retorno ao politeísmo primitivo, mas acima de tudo a liberdade de cada povo escolher a sua própria religião. Crêem que existem vários caminhos que levam à realização espiritual, que Deus é imanente e que não existe uma verdade absoluta e portanto, uma moralidade absoluta como aquela pregada pelo cristianismo. A natureza amoral dos deuses pagãos permite ao neo-pagão viver livre das restrições morais e, a longo prazo, procurar não o aprimoramento moral; mas o das suas qualidades humanas intelectuais, psicológicas e biológicas.

Praticam entretanto, o culto aos antigos mitos pagãos europeus, como os normandos, os celtas e os germânicos, com grande interesse especialmente no druidismo e no odinismo. Adotam hoje as celebrações simbólicas e festividades comunitárias de adoração à natureza e à energia natural; como um desafio à supremacia religiosa judaico-cristã, a qual buscam substituir. Afirmam buscar não um retorno ao passado, mas uma nova abertura às suas raízes culturais. É necessário lembrar que este rancor cultural contra o cristianismo foi o mesmo que deu origem, em 1933, ao nazismo, que era uma forma de paganismo nacionalista; mesclado com idéias deturpadas de evolucionismo, o qual culminou na terrível política anti-semita, cujas conseqüências são ainda hoje execradas.

A Europa é hoje o continente onde houve maior abandono do cristianismo. O materialismo e o racionalismo cultural transformaram as igrejas cristãs em meros monumentos arquitetônicos, patrimônio cultural de um tempo que os europeus buscam esquecer. A secularização da sociedade pós-moderna deixa claro que não há lugar para a idéia de um único Deus, a cuja verdade soberana todos devem se submeter; e que anuncia através do Evangelho de Cristo que a verdadeira vida não está no mundo como o conhecemos, mas em seu Reino espiritual. A riqueza material e o culto ao individualismo das nações européias; fizeram com que os povos se sentissem independentes de um único Deus e até mesmo de quaisquer outros deuses.

O neo-paganismo que se difundiu nas Américas, entretanto, sobretudo nos Estados Unidos, tem um caráter menos filosófico e mais utilitário. As Américas não possuem uma herança cultural pagã tão forte quanto a Europa, tanto geográfica quanto historicamente. As antigas civilizações maia, inca e asteca quando não estavam bastante separadas no tempo, estavam muito separadas no espaço e assim não constituíram um legado cultural uniforme para os atuais povos das Américas, cuja história cultural tem origem na cultura de seus colonizadores europeus. Por este motivo, o neo-paganismo na América se desenvolveu mais em torno das religiões orientais, popularmente difundidas pelo movimento hippie da década de 1960.

O Esalen Institute foi fundado em 1962 na região de Big Sur, Califórnia, e logo se tornou conhecido por sua orientação filosófica que combinava doutrinas orientais e ocidentais. Inicialmente construído com o objetivo de ser um spa terapêutico no estilo europeu, foi adquirido pelos psicólogos Michael Murphy e Dick Price , que passaram a oferecer ali workshops experimentais e didáticos e promoviam um intenso fluxo de filósofos, psicólogos, artistas e religiosos liberais. O instituto foi freqüentado nesta época por muitos pensadores e artistas que viriam a se tornar a líderes do movimento conhecido como New Age, ou Nova Era: Aldous e Laura Huxley, Allan Watts, Fritz Perls, Fritjof Capra, Deepak Chopra e Timothy Leary entre outros. O movimento Nova Era é sem dúvida, a mais significativa expressão do neo-paganismo, sobretudo nas Américas.

Embora existam referências à expressão “Nova Era” em várias obras ocultistas e literárias desde o século 19, este movimento tomou forma no início dos anos 1900. Nesta época, o místico e teólogo norte-americano Edgar Cayce, alegando ser intermediário de “canalizações” espirituais, fundou o Association for Research and Enlightenment. Este movimento combinou posteriormente doutrinas espiritualistas como Teosofia, Espiritualismo (baseado na obra de Swedenborg), Novo Pensamento (fundado por William James), práticas de medicina alternativa e ensinamentos ocultistas tradicionais, como astrologia, magia, alquimia e cabala. O uso do termo no século 20 teve início em 1970, através do New Age Journal; um periódico mensal norte-americano, publicado por uma série de pequenas livrarias especializadas em assuntos metafísicos e místicos.

Em 1987, um evento esotérico e religioso ocorrido a nível mundial em vários locais do planeta considerados sagrados, ficou conhecido com o nome de Convergência Harmônica e foi proclamado por alguns de seus participantes, os quais se auto-denominavam “seres de luz”, como sendo o início de uma nova era espiritual para o planeta. A data do evento foi determinada com base no calendário maia e também em tradições astrológicas européias e asiáticas e foi caracterizado por um alinhamento astronômico específico de corpos celestes.

Locais como o Monte Shasta (EUA), Stonehenge (Inglaterra), Sedona (EUA), a ponte Golden Gate (EUA), Bolinas (EUA), Haleakala Crestone (EUA), Dunn Meadow (EUA) foram palco de encontros coletivos em que os participantes se envolviam em atividades tipicamente neo-pagãs de oração, cânticos, meditação, danças e rituais. A grande divulgação deste evento pela mídia popularizou o movimento Nova Era em todo o mundo, e contribuiu para tornar várias práticas esotéricas como o uso de cristais de quartzo para a cura e “energização” pessoal e de ambientes, a “canalização”, que é uma espécie de mediunidade espiritual e idéias sobre reencarnação e vida extra-terrestre; em componentes permanentes da cultura norte-americana e, por extensão, da cultura de outros países americanos.

A mídia cultural norte-americana começou a difundir a filosofia neo-pagã através dos chamados comic books, ou histórias em quadrinhos, a partir de 1938, com o lançamento nos Estados Unidos de Superman, o herói dotado de super-poderes que veio a se tornar o primeiro mito moderno. O conceito de dupla identidade, ou seja, um homem comum que possui uma segunda identidade dotada de super-poderes, veio estabelecer o mito do herói popular como uma alternativa neo-pagã à idéia de Deus. Depois de Superman, seguiram-se outros tantos super-heróis semelhantes, popularizados pela Marvel Comics, a partir de 1941, com a publicação de Captain America. Certamente era necessário que a cultura neo-pagã criasse um substituto para a idéia de Deus; pois conforme o próprio Nietzsche constata em 1882 em Die fröhliche Wissenschaft (A Gaia Ciência), para o novo mundo secularizado pelas idéias iluministas do século 18, Deus estava morto e os próprios homens o haviam matado.

A filosofia neo-pagã é hoje aberta ou sutilmente difundida através da arte, sobretudo na literatura e no cinema e atinge todos os públicos, desde o infantil; através de obras como Harry Potter, de 2001 e The Golden Compass (A Bússola de Ouro), de 2007; o público jovem, através de filmes como Fantastic Four (O Quarteto Fantástico), de 2005, Hellboy, de 2004 e seriados como Heroes, de 2006; até o público adulto, através de seriados ingênuos como Bewitched (A Feiticeira), de 1964, ou intrigantes, como Lost, de 2004 e de filmes de conteúdo mais profundo, como Matrix, de 1999. Alguns artistas mundialmente conhecidos e popularmente chamados superstars, têm contribuído significativamente para a divulgação das filosofias e práticas neo-pagãs, como a atriz Shirley MacLaine, através da série Out on a Limb, de 1987 e de suas várias obras literárias; o ator Tom Cruise, que dá seu aval pessoal à doutrina da Cientologia e a cantora Madonna, que divulga a Cabala.

Estas obras não induzem necessariamente as pessoas a se envolverem com religiões ou seitas neo-pagãs; mas reforçam sem dúvida os sentimentos anti-cristãos, incutem a dúvida intelectual entre os simpatizantes do cristianismo e de outras religiões e afrontam; às vezes abertamente, a igreja e os princípios cristãos. O resultado final da apologia cultural ao neo-paganismo é sem dúvida, o afastamento da sociedade pós-moderna do Deus único e verdadeiro e da verdadeira igreja de Cristo; que é o único caminho de salvação espiritual humana, e a única esperança de vida e bem-aventurança para a humanidade. Satanás ofereceu a Eva poder e a liberdade egoísta, mas o que ela e Adão obtiveram foi apenas a escravidão e a morte. Cristo hoje nos oferece a oportunidade de nos libertamos desta trágica herança do pecado e escolher a receber a vida eterna e a verdadeira liberdade, enquanto ainda há tempo.

Ocultismo – Parte 1/2

Quando me converti ao cristianismo, fui alvo de uma série de questionamentos, tanto de amigos quanto de visitantes de meu antigo site na internet. De um modo geral, as pessoas estranhavam o fato de eu haver abandonado o esoterismo, para abraçar uma religião; pois conforme a expressão de uma das pessoas que me escreveu, “a religião tem envenenado a humanidade com as manipulações e limites criados ao indivíduo”. Estas pessoas em geral julgavam que eu havia retrocedido em minha jornada espiritual, ao me interessar pela Bíblia e pelo cristianismo; pois isto limitava o que elas julgavam ser uma prerrogativa daqueles que realmente anseiam pela realização espiritual, a liberdade individual e a busca contínua pelo desconhecido.

Eu dizia a estas pessoas que não me julgava, de forma alguma; limitado ou restringido em minha liberdade espiritual, mas que havia encontrado em Cristo a verdadeira fonte de todo conhecimento e o único caminho real de libertação e de realização espiritual.

Pessoalmente, já acumulei em minha ambição pelo conhecimento, grande volume de informação espiritualista e isto me levou a uma grande queda. Lia em todas as fontes e me julgava capaz de lidar com toda essa informação; cada vez mais fascinado com o que descobria, cada vez mais envaidecido com o meu saber. Teosofia, budismo, cabala, astrologia, gnosticismo; a minha sede de conhecimento era insaciável e eu queria saber cada vez mais. Visitei e freqüentei várias escolas esotéricas e mosteiros budistas, por anos a fio. Entretanto, jamais experimentei, durante ou fora das minhas meditações, ou em minhas orações, a presença viva de Deus. Quanto mais o buscava, mais parecia que Ele se distanciava de mim. Foi apenas quando resolvi buscar a Deus verdadeiramente; com o coração, é que Ele veio ao meu encontro e me encheu de uma alegria, de uma paz e de uma segurança que eu jamais havia experimentado.

Este meu encontro com Deus se deu da forma mais simples possível, através de um meio que há séculos é acessível a todos os Homens e não apenas a uma minoria de iniciados: a Bíblia cristã, e por esta razão me dedico hoje ao cristianismo evangélico.

O conhecimento exerce uma grande atração sobre a mente das pessoas que possuem apetite intelectual. O fascínio do conhecimento espiritual foi o responsável pela queda do Homem, nos primórdios da criação e continua sendo uma pedra de tropeço na vida espiritual de muitos. Deus permitiu ao primeiro casal humano comer do fruto de todas as árvores do Éden; exceto daquela “do conhecimento do bem e do mal”, pois isto teria como conseqüência a morte. Por meio da sedução do conhecimento o pecado e a morte se enraizaram na natureza humana.

Entretanto, a busca do conhecimento é ainda o caminho apontado por todas as doutrinas e seitas ocultistas como o único capaz de conduzir o indivíduo à sua plena realização espiritual. As chamadas doutrinas ocultas, ou esotéricas, afirmam que o caminho a realização espiritual é para poucos e não pode ser abertamente revelado. O conhecimento que conduziria assim à realização espiritual do indivíduo somente estaria acessível àqueles que verdadeiramente se dispusessem a consagrar suas vidas à busca deste conhecimento e a se comprometer, sob juramento, a observar rigorosamente as condições sob as quais este conhecimento lhes é entregue. Embora existam muitas seitas ocultistas que decidiram ampliar hoje o acesso ao chamado conhecimento esotérico, como a Escola Rosacruz, a Escola Gnóstica moderna e alguns mestres de Cabala hebraica; existem ainda muitas outras como a maçonaria, que são ainda fiéis à sua política de iniciação aos seus mistérios. Mesmo entre as escolas que oferecem abertamente acesso às suas doutrinas, existem níveis de conhecimento os quais somente é possível alcançar mediante rituais de iniciação tradicionais.

A analogia que faço com o conhecimento é com o alimento. O intelecto, que o absorve, seria assim análogo ao corpo físico. Partindo-se deste modelo, pode-se fazer uma série de considerações, as quais se aplicam de uma forma genérica, a qualquer pessoa.

Quando um indivíduo ingere um alimento, o corpo físico digere este alimento e o transforma, através do metabolismo orgânico, em recursos químicos e energéticos que utilizará para sua manutenção, suas atividades e seu desenvolvimento. Se este indivíduo se alimenta em excesso, em relação ao seu dispêndio de energia, o metabolismo orgânico irá depositar os recursos excedentes na forma de gordura, de forma que se esta situação se tornar normal, este indivíduo irá começar a apresentar sinais de obesidade, que irão denotar este desequilíbrio.

De forma similar, pode-se dizer que se um indivíduo absorve conhecimento além de sua capacidade de utilizá-lo de forma prática – seja em seu benefício ou em benefício de terceiros – irá se formar um excedente intelectual, o qual será depositado de alguma em seu corpo intelectual, criando assim uma “obesidade mental”.

O ser humano possui em seu íntimo um impulso natural, que o leva a buscar de alguma forma, transcender os limites da realidade física a que está sujeito. Este impulso é um desejo normalmente inconsciente de superar as limitações impostas pelo corpo físico e pela realidade do mundo em que vive, de forma a se libertar de suas imposições e tribulações e de encontrar um sentido último para a sua existência. Este é talvez o mais ancestral dos impulsos humanos, nascido do âmago do seu espírito e pode ser canalizado de forma tanto positiva, através da busca de Deus; quanto negativa, através da busca inconseqüente de realização espiritual, através de caminhos equivocados; ou ainda através dos vícios, o que é ainda pior.

A mesma imaturidade existencial que leva um indivíduo, movido pelo impulso de transcendência, a buscar nas drogas e no sexo a libertação do jugo das leis materiais; pode levar aqueles mais escrupulosos a tentar encontrar, no conhecimento espiritual em si a libertação. Se estas pessoas entretanto, não tem em seu íntimo a maturidade e o anseio sincero de conhecer a Deus; o conhecimento espiritual, por si mesmo, terá nele o mesmo efeito de um entorpecente, isto é, irá se acumular em sua psique e causar a deterioração de seu caráter em um nível muito mais profundo.

Tais pessoas se tornam presa fácil de forças espirituais maléficas, que assim bloqueiam o seu crescimento espiritual, fazendo-as crer que são especiais; nobres buscadoras da verdade e assim um tipo de orgulho muito sutil se instala nelas, quando não a arrogância e a intolerância características dos que se julgam superiores aos seus semelhantes. Toda forma de conhecimento espiritual que não provém do Espírito Santo é perniciosa e não edifica o espírito humano, mas apenas o degrada e o desvia da verdadeira liberdade.

Os chamados esoteristas dirão que é essencial ao ser humano que deseja crescer espiritualmente, a busca do autoconhecimento. Isto é verdadeiro, uma vez que conhecendo nossos mecanismos psicológicos de forma profunda, torna-se muito mais fácil libertar-se dos automatismos e dos vícios, na busca maior da negação de si mesmo enquanto ego e na construção de uma vida santificada. Mas é muito difícil, para o homem comum, buscar o autoconhecimento fora dos limites explorados pela psicologia clássica, sem mergulhar num verdadeiro banquete intelectual esotérico. Somente o Espírito Santo de Deus, que é a fonte de todo conhecimento, pode fazer com que venhamos verdadeiramente a conhecer a nós mesmos e sobre a verdade essencial necessária à nossa redenção espiritual.

Ao ser questionado por seus alunos sobre a possibilidade da “reencarnação ou do “eterno retorno”, o espiritualista russo Gurdjieff respondeu: “Em que pode ser útil a um homem saber a verdade sobre o eterno retorno, se não é consciente disto e se ele próprio não muda?”

Ou seja, se o conhecimento não vier acompanhado da experiência, ele não se torna consciência e portanto, não induz a nenhuma transformação espiritual de vida. Gurdjieff ele próprio no entanto; embora dedicasse sua obra à busca do desenvolvimento nos seus alunos do auto-conhecimento, deixou um ensinamento teórico muito mais extenso que o necessário.

Krishnamurti, o pensador indiano, também dedicou sua vida a esta causa e condenava toda forma de conhecimento adquirida de terceiros; inclusive o religioso, por que este tipo de conhecimento não é oriundo da própria consciência e não poderia portanto ser utilizado de forma efetiva, libertadora. Mas nem Krishnamurti nem Gurdjieff podiam proporcionar real libertação espiritual aos seus seguidores, por que não eram libertadores, mas simplesmente portadores da ciência do auto-conhecimento.

Isso significa que não é possível utilizar o ensinamento destes mestres para se libertar espiritualmente; mas apenas para se auto-conhecer, ainda que de uma forma profunda. Tampouco foram libertadores outros mestres; como Budha ou Krishna, pois apenas apontavam um caminho para a evolução do ego e não eram uma porta de libertação em si mesmos.

O único libertador verdadeiro é o Cristo, por que Ele é a verdade e é a própria vida. Quando Cristo pede que creiamos nele e o sigamos, está nos pedindo apenas que creiamos no poder libertador de Deus, que está em seu Evangelho, em sua cruz e em seu sangue. Que outro mestre se apresentou de forma tão radical?

“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo.” (João 6:51)

E ainda:

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)

O ensinamento de Cristo é conhecimento verdadeiro e não religioso, no sentido comum; por que desperta em nós a consciência de nossa verdadeira identidade, desde que seja utilizado em nossa vida cotidiana. Dessa forma, ele torna-se real através de sua prática; e não apenas uma possibilidade proclamada no interior dos templos, ou apenas uma literatura folheada mecanicamente em nossos momentos de ociosidade. O conhecimento cristão verdadeiro, que nos chega através da Bíblia; pode tanto ser uma dieta intelectual realmente libertadora, e a mais adequada àqueles que iniciam a sua jornada de auto-realização espiritual; quanto se transformar apenas em mais uma fonte de gordas calorias intelectuais.

Depois que me converti ao cristianismo, acostumei-me a ver toda livraria como vejo um restaurante. É preciso vigiar para que a gula intelectual não nos transforme em obesos intelectuais, por excesso de conhecimento. É preciso adotar para isto a dieta libertadora do verdadeiro conhecimento, que é a dieta da palavra de Deus viva, que nutre profundamente o espírito, e transforma radicalmente aquele que a acolhe, e em cujo coração ela frutifica.

“Outra semente afinal, caiu em boa terra; cresceu e produziu a cento por um” Lucas 8:8.

Tenho sido consultado por várias pessoas sobre casos de pessoas que se envolvem com doutrinas ocultistas e que relatam haver sofrido danos psicológicos irreversíveis. Estas pessoas são vítimas do que eu chamo de ocultismo pop, ou seja, uma versão popular de doutrinas até bem pouco tempo restritas a uns poucos iniciados e que modernamente se tornaram populares. A popularização de doutrinas ocultistas e esotéricas é parte do fenômeno de neo-paganização da sociedade moderna e pós-moderna, que nega a existência do Deus cristão, uno e transcendente, para criar um novo panteão de divindades do qual podem fazer parte até mesmo os super-heróis como Superman e o Homem-Aranha, ou até mesmo pessoas comuns, como os mutantes de seriados de televisão como Heroes e 4400.

Isto ocorre por um lado por que as pessoas estão cada vez mais atraídas por um espiritualismo de consumo e pelo fascínio do elemento mágico e misterioso que estas doutrinas oferecem. Por outro lado, o mercado espiritualista está cada vez mais interessado em explorar este interesse popular pelo oculto, vendo nisto uma oportunidade de obter polpudos lucros.

As doutrinas ocultistas oferecem às pessoas a possibilidade tentadora de ter acesso a conhecimentos e poderes que a normalmente teríamos acesso apenas pela graça de Deus, após um renascimento espiritual. Buscar estes conhecimentos e lidar com energias altamente sofisticadas que compõem o corpo espiritual humano, é uma aventura no mínimo insensata. Esta democratização do conhecimento espiritual constitui uma grande armadilha para os ingênuos, apresentando o conhecimento espiritual como um bezerro de ouro e muitas vezes constituindo um meio pelo qual forças espirituais maléficas o utilizam para atrair os incautos.

Somente Deus sabe o momento certo de nos revelar os aspectos mais profundos da Verdade, ou seja, de um maior conhecimento das coisas espirituais. Com relação a adquirir poderes pessoais como os prometidos pela cabala popular, teosofia, gnosticismo e outras doutrinas ocultistas, é o mesmo que tentar obter um diploma de um curso superior sem ter nem ao menos concluído o primeiro grau. Cabe apenas a Deus através de seu Espírito, conceder a quem for julgado digno, quaisquer dons espirituais. Além disto, a maior parte dos ensinamentos ocultistas está em oposição ao que é ensinado por Deus através da Bíblia e são portanto falsos. Como então estabelecer qualquer nível de credibilidade com relação a estas doutrinas espiritualistas?

O ser humano, de um modo geral está nos primórdios de seu desenvolvimento espiritual, e por isto Deus deu ao mundo os ensinamentos de Cristo. Precisamos aprender a viver segundo os princípios básicos do evangelho de Jesus, com humildade e rendição a Deus, para que possamos almejar dar passos mais ousados em nossa jornada de realização espiritual.

Como exemplos deste ocultismo pop que prospera rapidamente no mundo pós-moderno, vale citar pelo menos três de suas formas: A Cabala, o Neo-Gnosticismo e a Meditação Transcendental.

Cabala

A cabala é uma doutrina mística de origem judaica, cuja forma original nada tem a ver com o que é ensinado nos vários cursos “práticos” que proliferam hoje em todo o mundo. A palavra Kabbalah é hebraica, e significa “aquilo que é recebido” e constitui uma doutrina pela qual seria possível alcançar um conhecimento profundo acerca de Deus e do Universo. Popularizados por pessoas influentes na mídia como Madonna, os atuais cursos de cabala adquiriram um formato bastante acessível, típico da espiritualidade da sociedade moderna. Pelo fato de serem muitas vezes ministrados por pessoas totalmente inaptas; que desconhecem ou negligenciam o grande perigo potencial daquilo com que estão lidando, estes cursos fazem um uso totalmente indevido desta doutrina, que originalmente visava unicamente o crescimento espiritual do indivíduo. Ainda que ministrado corretamente, o conhecimento da Cabala hebraica é apenas isto, conhecimento espiritual e como tal nenhuma eficácia tem para a salvação do espírito, a qual só pode ser encontrada em Cristo.

Além dos inúmeros cursos oferecidos, existem no mercado hoje dezenas de livros e softwares, que prometem utilizar os ensinamentos da cabala hebraica para determinar e controlar, através da numerologia, a influência dos números na vida de cada um. Alguns dos absurdos que podem ser encontrados no mercado de consumo espiritualista:

· Segundo o Kabbalah Centre, uma organização espiritual e educacional voltada para os estudos e divulgação do sistema ao redor do mundo, ela deve ser não apenas aprendida, mas posta em prática. “Assim, o indivíduo encontra ajuda para afastar todas as formas de caos, dor e sofrimento de suas vidas, trazendo clareza, compreensão e liberdade”.

· A Kabalah Científica afirma que “O mundo causal ou genético, que cria toda a fenomenologia Universal, é a santíssima trindade: Cor, Som e Tempo. E, o artífice de toda essa complexidade orgânica, dinâmica e conceitual e psíquica ou espiritual, habita dentro de nós e das coisas, e se chama: EU SOU um DEUS em formação; gérmen de infinito; o UM imanente e transcendente de Pitágoras.”

· A Cabala Pessoal ou “Angelologia Cabalística” proclama poder ajudar as pessoas a superar seus problemas de relacionamentos, profissionais, saúde e determinação. Um anúncio de promoção de uma obra sobre Cabala de Tradição em quatro volumes, dos quais dois são oferecidos gratuitamente, afirma: “Se você pensa que é difícil aprender Cabala é porque recebeu informações erradas, você deve ter tentado ler aqueles livros difíceis, escritos em hebraico, Ou então seu mestre em Cabala mandou você recitar aqueles longos e cansativos Mantras, ou fez você decorar os 72 nomes de Deus. Nada disso é necessário; a Cabala é simples de aprender.”

Ocultismo – Parte 2/2

Neo-Gnosticismo

O fundamento do gnosticismo primitivo era o conhecimento: o acesso de determinados ensinamentos que tornariam possível unir a alma com Deus. O fim do conhecimento era, dessa maneira, a salvação, a qual incluiria na concepção dos gnósticos, purificação e imortalidade. O movimento surgiu a partir das filosofias pagãs anteriores ao cristianismo, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia (Macedônia). Ao combinar filosofia pagã, alguns elementos da astrologia e mistérios das religiões gregas com as doutrinas apostólicas do cristianismo, o gnosticismo tornou-se uma forte influência na Igreja primitiva.

A premissa básica do gnosticismo é uma cosmogonia dualista. O Supremo Ser ou o Uno emanava do mundo espiritual sucessivos seres finitos chamados éons, e um deles, chamado Sofia, involuntariamente deu origem ao Demiurgo, um deus criador imperfeito, que teria criado o mundo material e a natureza, inclusive o ser humano, de forma também imperfeita. O Uno emana então o éon Cristo que desce ao mundo material com o objetivo de transmitir a Gnosis ou conhecimento às Almas espirituais, para que elas tenham consciência de sua parcela divina e partam para o Pleroma, libertando-se do jugo do Demiurgo.

O gnosticismo afirmava a total separação entre Deus e a matéria. A matéria era considerada, conforme o dogma grego, como inerentemente má; e a redenção humana se dava por intermédio de seres intermediários. A alma do homem que podia ser salvo, na idéia gnóstica, era uma fagulha da divindade aprisionada no corpo: a redenção, pois, consistia para eles da libertação da alma de sua contaminação corporal e de sua reabsorção por sua Fonte.

O neo-gnosticismo moderno é uma escola de ensinamentos místicos, voltada para a divulgação do ocultismo de forma ampla e generalizada, da qual fui membro por quase três anos. Oferece acesso através de cursos gratuitos abertos ao público. Surgiu da multiplicação de vários grupos a nível mundial, em torno da doutrina criada pelo místico colombiano Victor Manuel Gomez Rodriguez, falecido em 1977. Embora seja mais popular na América Latina, existem instituições deste movimento também na Europa e Estados Unidos, como o Gnostic Institute of Anthropology. Apesar de não existir uma biografia confiável de Rodriguez, acredita-se que ele era membro da Fraternitas Rosicruciana Antiqua (FRA) na Colômbia, onde teria sido ordenado bispo por Arnold Krumm Heller, um dos fundadores desta sociedade. Os ensinamentos neo-gnósticos mesclam os ensinamentos de Rodriguez, conhecido pelo nome místico de Samael Aun Weor; com várias doutrinas ocultistas das antigas religiões das civilizações mesopotâmicas, americanas e asiáticas e os antigos mistérios egípcios. Nos níveis mais avançados ou esotéricos, conhecidos como “câmaras”, estas escolas ensinam práticas de magia e celebram rituais místicos. Segundo o site Samael Aun Weor, a seu próprio respeito, afirmou Rodriguez:

“Muitos crêem que Samael é apenas um pseudônimo. Não! De fato, eu sou Samael! Vocês leram que na Cabala Samael é classificado como o anjo regente de Marte. Na Bíblia, Samael é classificado como um demônio. Não importa! O fato é que eu sou Samael! […]

“Samael Aun Weor é o meu verdadeiro nome como um Boddhisattwa. Samael é o nome de minha mônada! Estou perfeitamente consciente da aurora da vida neste sistema solar! Eu vi a aurora da criação! Estou aqui com esta humanidade, desde o primeiro momento, desde que o coração deste sistema solar começou a palpitar depois da longa Noite Cósmica. Eu vim aqui (para este planeta) por que meu deus interno, meu Pai que está dentro de mim, me enviou! Meu único propósito é servir e ajudar esta humanidade! Por isso eu sirvo os meus semelhantes. Por isso estou trabalhando pelo bem desta humanidade! [...]”

Os malefícios da filiação a este tipo de escola espiritualista são tanto psicológicos; decorrentes de uma busca absurda de “eliminação do eu psicológico” por meio de práticas místicas, quanto espirituais; pelo envolvimento irresponsável dos alunos com entidades, práticas e energias as mais diversas. Na internet, o fórum Cult Education Forum registra vários depoimentos que expõem os perigos e os danos causados por este culto.

Meditação Transcendental

Esta é uma técnica de meditação, que segundo os seus instrutores nada tem a ver com religião e é assim descrita no site Meditação Transcendental:

“A técnica da MT é um procedimento muito simples, natural e sem esforço, praticada duas vezes ao dia, de 15 a 20 minutos sentado confortavelmente e de olhos fechados. A MT permite que a mente se assente automaticamente alcançando um estado perfeitamente calmo, ordenado, integrado e alerta. Ao mesmo tempo o corpo desfruta de um repouso duas vezes mais profundo que o do sono. Durante a prática nossa mente consciente é levada a experimentar seu estado mais fundamental – o estado de menor excitação da consciência, a Consciência Transcendental.

“Experimentar a Consciência Transcendental significa desenvolver nosso potencial criativo latente enquanto que todo stress e cansaço acumulados são dissolvidos através do repouso profundo adquirido durante a prática.

“A técnica da MT é cientificamente validada, por esta razão ela não requer crenças específicas nem adoção de um estilo de vida particular. A prática não envolve nenhum esforço ou concentração. É fácil de aprender e não requer nenhuma habilidade especial. Pessoas de todas as idades (a partir de quatro anos), de diferentes níveis educacionais, culturais e religiosos em mais de 160 países praticam regularmente a técnica e desfrutam da grande gama de seus benefícios.”

A técnica da MT foi introduzida no ocidente pelo guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, com o aval dos Beatles. Maharishi tem hoje mais de 83 anos e é um homem rico, famoso e poderoso. A revista Carta Capital publicou em 1999 uma matéria sobre este guru, onde afirmava:

“Esse velho ícone da Nova Era é hoje um dos homens mais ricos e poderosos do mundo, controlando um império empresarial que já em 1993 era estimado em US$ 2 bilhões, incluindo vastas propriedades imobiliárias na Índia, hotéis na Europa, editoras nos EUA, universidades Maharishi em três continentes, clínicas holísticas, lojas de alimentos naturais, parques temáticos espirituais e até um partido político (Natural Law Party) presente nos EUA, em várias países da Europa Ocidental e Oriental e na Índia (onde leva o nome de Ajeya Bharat e deixa mais claro seu ideário fundamentalista hindu).

“Seus adeptos pagam bem caro pelos cursos introdutórios e avançados de Meditação Transcendental (MT) e fazem doações regulares; os mais fanáticos dedicam-se de corpo e alma a engrandecer o império Maharishi; os mais ricos pagam pequenas fortunas para conseguir seus mantras secretos e pessoais. E estes não são poucos: a MT surgiu como mais uma mania da contra-cultura dos anos 60, mas hoje é extremamente popular entre altos executivos, militares e políticos, incluindo, por exemplo, o líder do Partido Conservador britânico, William Hague.”

Também em 1999 o jornal Folha de São Paulo anunciou que o próprio Maharishi iria bancar a construção bilionária (US$ 1,65 bilhão) do edifício mais alto do mundo, o São Paulo Tower, na cidade de São Paulo, obedecendo os ditames da arquitetura védica da religião hindu. O projeto entretanto ainda não saiu do papel, por motivos desconhecidos.

A MT é um tipo de yoga mântrica. A palavra “mantra”, em sânscrito, significa “libertação da mente”. São expressões originárias do hinduísmo, utilizadas também no budismo. Para alguns praticantes desinformados, os mantras são apenas “sons” sem significado aparente; mas, na verdade, são nomes de deidades hindus ou budistas, cuja repetição mental pode trazer conseqüências inusitadas.

Dave Hunt publicou em sua obra Occult Invasion: The Subtle Seduction of The World and Church os testemunhos de dois ex-instrutores de MT, relatados no livro que revelam o lado sombrio desta aparentemente benéfica terapia:

“JOAN: A iniciação que cada um tem de passar é uma cerimônia de louvor hindu em honra a deuses hindus e mestres ascendidos, incluindo o próprio guru já falecido de Maharishi, chamado Dev. Como professora de MT, fui instruída a mentir; dizendo-lhes [aos iniciantes] que o mantra que nós tínhamos dado a eles era um som sem significado, a repetição do mantra os ajudaria a relaxar – no entanto, na verdade, era o nome de uma deidade hindu com poderes ocultos tremendos. Para aqueles que realmente se envolveram com isso, a MT era como ter tomado uma espaçonave para outro estado de consciência. Eles eventualmente acreditariam que eles poderiam se tornar Deus”.

“CRAIG: Eu estava profundamente envolvido em MT por vários anos antes de começar a reconhecer que tinha me associado a uma seita hindu. Àquela altura, no entanto, já estava muito comprometido para retroceder.

“Centenas de pessoas, de várias partes do mundo, estudaram por um mês com Maharishi na Europa para se tornarem professores de MT, e o efeito que isso teve foi às vezes muito tenebroso. Alguns viram espíritos grotescos sentados junto deles enquanto meditavam. Alguns foram atacados pelos espíritos. Outros [foram] tomados por uma fúria cega, até com impulso para cometer assassinato. Maharishi explicou que carmas ruins de vidas passadas estavam sendo trabalhados – uma parte necessária da nossa jornada para uma ‘consciência mais elevada’.

“Finalmente eu alcancei a Consciência da Unidade. No entanto, o sentimento eufórico inicial de que eu ‘tinha conseguido’, em breve deu lugar ao pânico. Eu tinha perdido a habilidade de decidir o que era ‘real’ e o que não era. Maharishi me disse para parar de meditar. Gradualmente retornei à aparência de normalidade – mas sofria de lapsos freqüentes de retorno à Consciência da Unidade, muito parecidos com um lampejo de LSD. Depois de retornar para os Estados Unidos, trabalhei na Universidade Internacional de Maharishi. Meu companheiro de quarto cometeu suicídio e eu fui confinado a uma instituição psiquiátrica”.

Fui casado durante dez anos com uma instrutora de Meditação Transcendental e pratiquei a técnica por cerca de dois anos. Neste período de minha vida, não havia me convertido ainda ao cristianismo e estava profundamente envolvido com esoterismo. Nos primeiros meses, sentia realmente que os exercícios me relaxavam, mas este era o único benefício que conseguia notar. Não posso afirmar com segurança se fui de alguma forma influenciado negativamente por esta prática, mas abandonei os exercícios por constatar que não estavam me trazendo mais nenhum benefício. O envolvimento da MT com o hinduísmo não é explícito, mas indiretamente, os praticantes são colocados em profundo contato com a cultura indiana; com vários rituais e práticas do hinduísmo e com outras técnicas como as da yoga; e por extensão, com a filosofia politeísta na qual elas se baseiam.