A Ousadia de Cristo

“Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho do Deus. Repondeu-lhe Jesus: É como disseste; contudo vos digo que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu.Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que agora acabais de ouvir a sua blasfêmia.”

Mateus 26:63-65

Quando Jesus afirmou que ele é o “caminho, a verdade e a vida” (João 14:6) e que ninguém chega até Deus a não ser através dele, ele estava conscientemente dando início a uma luta sem tréguas no mundo.

Embora Jesus, também chamado de Príncipe da Paz,  tenha afirmado que veio ao mundo para que tenhamos vida e, ao partir para junto do Pai tenha deixado com os seus seguidores a sua paz (João 14:27) , ele deixou claro, em Mateus 10:35-37, que para que haja paz e vida verdadeiras no mundo, é necessário antes que seja feita a distinção entre os filhos de Deus e os filhos do mundo:

“Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa.Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.”

Obviamente Jesus não estava com isto autorizando que seus seguidores declarassem guerras santas contra os infiéis, nem qualquer tipo de perseguição aos seus opositores. Ele apenas afirmou que essa distinção seria feita naturalmente, através da livre escolha de cada um, pois quem não toma a sua cruz e não o segue não é digno dele (Mateus 10:38).

Como é possível entretanto, em um mundo com tamanha diversidade cultural, que uma única religião se imponha de modo absolutamente hegemônico como a única verdadeira? Se dentro de uma mesma nação já é difícil conceber essa hegemonia, como esperar que povos com histórias e culturas tão essencialmente diversas da história e da cultura judaicas venham a reconhecer em Cristo o único e verdadeiro Messias, o redentor do mundo? Como aceitar o fato de que Deus tenha escolhido uma nação historicamente insignificante, nascida a partir de longas pelejas contra os povos inimigos que a cercavam, para ser o berço da redenção espiritual de todo o mundo?

A idéia de estar diante de uma única escolha possível é assustadora e inquietante para a maioria das pessoas em nosso tempo, marcado por uma cultura cuja característica principal é a multiplicidade de escolhas. Entretanto, Deus se revelou ao homem uma única vez, através de Israel e por isso o cristianismo é única expressão verdadeira desta revelação. O cristianismo é a primeira e única doutrina verdadeiramente revelada por Deus ao mundo. Deus falou ao mundo através de homens, que registraram a sua mensagem redendora pela inspiração do seu Espírito, e não por inspiração filosófica ou de quaisquer seres espirituais, como ocorreu com as religiões do mundo.

Existem dois tipos de fé: a fé humana, instável, estéril e subjetiva; e a fé genuína, que produz salvação e conversão de vida, concedida livremente por Deus aos que sinceramente o buscam. Esta fé verdadeira está ao alcance de todos os que se humilham diante de Deus, reconhecendo a sua soberania e a sua perfeita vontade, bem como a sua total dependência em relação a Ele:

Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte.(1Pedro 5:6)

O cristianismo conseguiu ao longo dos séculos, realizar a façanha de se tornar uma religião universal,sendo professada não apenas nos países do ocidente, mas em vários países do oriente. Muitos se apressam em atribuir esta hegemonia inicialmente à imposição política do cristianismo como religião oficial do império romano por Constantino e depois pela igreja católica romana, no auge de seu poder. Embora isto seja em parte uma verdade, sendo inegável o fato de que várias “conversões” ao cristianismo se deram por motivos puramente políticos (como no caso do próprio Constantino) ou de caráter social, como ainda ocorre hoje, também é inegável que ocorreram e ocorrem muitas e significativas conversões motivadas por uma autêntica manifestação de fé.

A maior parte das pessoas se lembra apenas da época negra da Igreja Católica Romana, mas não dos benefícios legados pelo cristianismo para a civilização ocidental. Thomas E. Woods, doutor em História pela Universidade de Colúmbia, resgata em sua obra  How the Catholic Church Built Western Civilization (Regnery, 2005) esta memória. Woods lembra que o cristianismo foi o responsável pela maior parte dos fundamentos éticos que formaram a civilização ocidental, como também pelos primeiros passos dados pela ciência e pelo ensino acadêmico, pelos principios fundamentais do Direito e pela criação das primeiras instituições assistenciais. O mérito pela hegemonia alcançada pelo cristianismo ao longo da história, se deve entretanto não aos esforços da igreja instituída, cujos métodos foram quase sempre questionáveis, mas à força da verdade inerente à própria doutrina cristã.

A maioria das pessoas discute religião como discute filosofia,ou seja, com base em um conhecimento apenas superficial. Poucos são os que se dão ao trabalho de aprofundar o conhecimento das diversas religiões e da história do cristianismo. A ignorância espiritual do homem o leva instintivamente a repudiar a idéia da hegemonia cristã. Independentemente do conflito ideológico causado pelo evangelho cristão, que aponta as tendências naturais humanas, produzidas pelo egocentrismo e pelo hedonismo como frontalmente contrárias à salvação espiritual, o homem sempre julgou absurda a noção da existência de uma verdade absoluta. Assim, a hegemonia cristã, inerente à sua própria doutrina, é sempre vista com antipatia pelos adeptos de outras religiões e também por aqueles que afirmam não professar religião alguma.

Entretanto, essa antipatia é em grande parte equivocada, pois em nenhum momento um cristão verdadeiro afirma ser o “dono da verdade”, mas apenas que o evangelho de Cristo e todas as Escrituras são a expressão da verdade absoluta acerca da vida espiritual, revelada por Deus aos seus profetas. A compreensão desta verdade é um processo de iluminação que todo cristão experimenta em sua caminhada espiritual. Ao anunciar o Evangelho, o cristão não está sendo tacanho, arrogante ou intolerante, está apenas cumprindo a chamada “grande comissão”, deixada por Cristo aos seus discípulos, registrada nos evangelhos de Mateus (28:19), Lucas (24:47) e Marcos (16:15): “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” O que se pode questionar, portanto, é a maneira como é praticado o evangelismo, mas não o mérito do evangelismo em si.

Como se não bastassem estes motivos, o homem, ainda em sua imaturidade espiritual, é incapaz de compreender o Deus bíblico, que do ponto de vista humanista e materialista, parece um Deus injusto, arrogante, contraditório, discriminador e cruel. Afinal, como poderia um Deus que afirma amar o mundo destruir a sua própria criação, condenar pessoas ao sofrimento eterno e negar a salvação àqueles que não ouviram falar de Cristo? Até mesmo a idéia de um Deus pessoal soa tacanha para a maioria dos indivíduos cultos, que preferem a complexa concepção de Deus presente nas religiões orientais, como um Ser abstrato, absolutamente inacessível à razão humana, uma espécie de energia subjacente a toda a criação.

Segundo estas religiões, Cristo foi apenas mais um entre os grandes mestres espirituais que vieram ao mundo ensinar aos homens um único caminho de realização espiritual. Isso não é verdade. O caminho que Jesus mostrou aos homens é essencialmente diferente de todos os outros caminhos espirituais ensinados pelos mentores espirituais das religiões do mundo. Na verdade, Jesus não ensina um caminho espiritual, mas ele disse que ele próprio era o caminho e que nenhum homem poderia chegar a Deus a menos que fosse levado por ele (João 14:6). Isto significa que mesmo que um dos grandes mestres espirituais do mundo houvesse ensinado exatamente a mesma mensagem de Jesus, ainda assim este ensinamento não poderia salvar um único de seus discípulos. Somente Jesus tem o poder não só para ensinar, para curar e para libertar da escravidão do mal, mas acima de tudo, tem o poder para perdoar os pecados e para salvar os quebrantados, porque só ele é o Salvador.

O egocentrismo e o orgulho humano impedem os que abominam o único Deus verdadeiro, revelado ao homem através de Israel; de reconhecer que é por causa da dureza de seu coração que se tornaram incapazes de compreender a natureza de Deus e a sua verdade, manifesta ao homem através das Escrituras. O orgulho humano, que impediu que os judeus reconhecessem em Cristo o Messias, sempre foi ; depois do pecado, a maior barreira entre o homem e Deus. Como afirmou Paulo:

“Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, é naqueles que se perdem que está encoberto,nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.” 2 Coríntios 4:3-4

A maioria das pessoas vê o cristianismo pela fachada de suas igrejas, e o julga pelo que vêm nelas. Entretanto, as milhares de denominações cristãs existentes não são a verdadeira expressão do cristianismo. A verdadeira igreja de Cristo na Terra é formada pelos seus discípulos aprovados, que se encontram espalhados por estas denominações, em meio a falsos cristãos. Ainda que uma determinada igreja fosse composta apenas por discípulos autênticos de Cristo, ela não seria perfeita. Ela teria ainda muitas falhas, pelo simples fato de que seria ainda composta por seres humanos.

O cristão não é santificado em um único dia. Da mesma forma que a compreensão da mensagem de Deus nas Escrituras é um aprendizado contínuo; e por isso nenhuma denominação cristã em particular pode reivindicar haver alcançado a plena compreensão da Verdade, a santificação de cada cristão é também um processo contínuo; e somente vai se completar no mundo espiritual, quando será possível alcançar a plena estatura de Cristo.

O cristianismo é um caminho totalmente diverso em sua essência, dos demais caminhos espirituais apontados pelas religiões do mundo. Existem três conceitos básicos no cristianismo, entre outros, que o tornam uma doutrina absolutamente única e distinta de todas as outras doutrinas espiritualistas: o princípio da queda espiritual do homem; o princípio do pecado e o princípio de uma única existência para cada indivíduo. Estes princípios fundamentais contrariam essencialmente os ensinamentos das demais religiões, para as quais os homens não estão irremediavelmente condenados à morte espiritual por causa do pecado, mas apenas separados do Todo ou da Unidade, ao qual devem se unir novamente. O cristianismo afirma ainda, na contramão das demais doutrinas, que cada homem vive uma única vida, após a qual virá o julgamento de seus atos e a sua ressurreição e não um ciclo indeterminado de existências, ao longo do qual evolui espiritualmente até a perfeição.

Cristo afirma que apenas aquele que crê nele pode ser salvo. Isto significa que não podemos, por nossos próprios atos, conquistar a nossa realização espiritual; mas que apenas pela graça de Deus, através do sacríficio vicário de Jesus, podemos receber a salvação e nos realizarmos espiritualmente. Este é um conceito totalmente estranho a todas as outras religiões; que afirmam que o indivíduo deve construir, através de suas obras e da devoção a seus deuses, o caminho de sua própria realização espiritual. Fica claro portanto que a idéia de que todos os caminhos levam a Deus é absurda. Ou é Cristo que reconcilia o homem com o Criador ou são as religiões do mundo que conduzem o homem a Deus. Esta é uma conclusão que produz uma grande tensão existencial, cultural e até mesmo política e por isso a ideologia humanista que rege o mundo prefere ignorá-la, insistindo na isonomia das doutrinas religiosas.

Esta atitude conciliadora, ecumênica e universalista entretanto não subsistirá por muito tempo. Cristo demanda de cada homem uma decisão, um posicionamento com relação à sua vida espiritual. Não existem posições de meio termo, a escolha é clara: com Cristo ou contra Cristo, como ele afirmou: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” (Mateus 12:30).

Crer que Jesus é o único caminho para Deus implica crer na Bíblia, de forma integral. Não se pode crer em algumas coisas que estão escritas nela e não em outras. Não se pode mutilar o Evangelho como fazem várias doutrinas espiritualistas e ecumênicas. Ou cremos que Deus é poderoso o bastante para preservar a integridade de sua mensagem ao longo dos séculos, apesar da interferência humana, ou vamos nos tornar ateus, agnósticos ou o que é pior,buscar falsos caminhos espirituais ou ainda, como fazem muitos, inventar o nosso próprio Deus e a nossa própria religião.

O Reino de Deus já chegou ao mundo e no fim dos tempos o anjo do Senhor fará a colheita e a separação entre o joio e o trigo. Os cidadãos do Reino de Deus reinarão com Cristo, mas os cidadãos do mundo perecerão, por sua própria escolha, com o Príncipe deste mundo.

Tempo de Despertar

“Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.Portanto, vede diligentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus.”
Efésios 5:14-16

Estive lendo recentemente a série de livros de Daniel e Isabela Mastral, em que ele narra sua história como membro de uma seita satânica e de como se libertou e tornou-se um servo de Deus. Muitas das coisas que foram ditas a ele por seus instrutores, quando era membro desta seita, com relação à igreja cristã, são sem dúvida verdadeiras.

Se por um lado as nossas igrejas autenticamente cristãs são alvos constantes de ataques do inimigo, por outro lado, um grande número ou talvez a maior parte das igrejas ditas cristãs não despertam nem mesmo a atenção das potestades das trevas. Elas mesmas criaram as condições para a sua inutilidade ou mesmo para a sua própria destruição. Conforme disse o próprio Daniel, em uma recente entrevista:

“Não é mais necessário ‘infiltrar’ um satanista na Igreja, pois o mal já se alojou. É como a picada de uma serpente. O veneno já foi inoculado. O corpo está contaminado. Não precisa de novas picadas. Hoje há mais problemas nas igrejas com falsos irmãos do que com satanistas.”

O mesmo pode ser dito infelizmente para a vida de muitos cristãos. Um dos instrutores de Daniel, um membro de alto escalão da seita da qual ele fez parte, disse a ele, com muita propriedade, que há uma batalha espiritual em curso no mundo e ela é travada entre os os servos de Satanás e os servos de Deus. Aqueles que não são nem uma coisa nem outra não participam desta luta, pois já foram derrotados. O seu destino já está selado, pois condenaram a si mesmos ao julgar que podiam ser independentes, viver uma vida espiritualmente neutra, tentando assim enganar a Deus e a si próprios. Aqueles que não assumem uma posição nesta batalha, ou que assumem apenas parcialmente uma posição, adotando uma atitude ambígua, ora servindo a Deus ora ao Diabo, são os que Satanás chama de órfãos e aqueles a quem Deus chama de mornos, ou homens de ânimo dobre.

Nossas igrejas estão cheias de falsos cristãos e de cristãos mornos, ou seja, aqueles cristãos cuja fé é meramente nominal ou religiosa, em cuja vida não se manifesta a glória de Deus e que por isso envergonham a igreja de Cristo. Os falsos cristãos são aqueles que pretendem aparentar uma vida de piedade, com o fim de se tornar bem vistos pela sociedade ou por alguma pessoa ou grupo de pessoas específicos. Os cristãos nominais são aqueles que simpatizam sinceramente com a doutrina cristã e seus valores, fazendo publicamente apologia deles, mas que não manifestam em sua própria vida os frutos destes valores, por que não os praticam. Os cristãos religiosos, do mesmo modo, são aqueles que se agradam da comunhão da igreja, dos cultos e dos louvores, sendo quase sempre assíduos frequentadores de suas igrejas, estudiosos da Palavra, mas que também não apresentam em suas vidas o fruto do Espírito.

Todos estes são cristãos carnais, que andam segundo a vontade da carne e não segundo a vontade de Deus. São pessoas que não entregaram totalmente suas vidas a Deus, seja por que não vieram realmente a conhecê-lo e portanto não aprenderam a amá-lo e a confiar nele; seja por que hesitaram em abrir mão da sua autonomia sobre determinadas áreas de suas vidas. Estes cristãos vivem uma vida deplorável, constantemente oprimidos pelo inimigo, pois criaram em sua vida espiritual brechas, pelas quais o Inimigo, astuta e impiedosamente, penetra e lança suas armadilhas e encantamentos. Por não perceberem a necessidade absoluta de viver uma vida de santidade e obediência diante de Deus, para que venham a conquistar a autoridade que lhes foi dada por Cristo sobre o maligno, estas pessoas estão sempre vulneráveis aos mais diversos ataques espirituais contra suas vidas e as vidas de seus entes queridos.

O pior desta trágica situação é que estas pessoas tentam racionalizar seu comportamento, transferindo a responsabilidade pelo seu fracasso espiritual para Satanás. Este é um engano fatal, de cujas consequências muitas vezes somente tardiamente estas pessoas se darão conta. O Pastor Ubirajara Crespo, em um artigo sobre este assunto, afirma sobre esta triste atitude:

“Encobrir nossas transgressões e sair pela tangente é uma velha tática que já fez muito estrago em nossas vidas e continuará fazendo se insistirmos nisto. É mais fácil gritar: ‘Tá amarrado!’, do que mudar de comportamento.”

Enquanto não assumirem uma posição definida, enquanto não se voltarem inteiramente para Deus e se decidirem obedecer fielmente a sua direção para suas vidas, abandonando seus vícios e consagrando a Ele as suas vidas em santidade, os cristãos mornos continuarão espiritualmente mortos e estarão matando também as igrejas em que congregam.

Existem ainda muitos cristãos que são crianças espirituais. São normalmente aqueles recém convertidos, mas entre eles se encontram também muitos que se recusam a crescer espiritualmente e estes também estão órfãos, pois ainda não assumiram realmente o seu compromisso com Cristo. É preciso que despertem e cresçam, e deixem de ser eternas crianças espirituais. O autor de Hebreus escreveu que “qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal.” (5:13-14)

Vivemos um tempo de decisão. Não há mais lugar para hesitações. Deus disse que os tímidos não entrarão no Reino dos Céus. Quem deseja encontrar a verdadeira vida deve buscar a Deus com todo o seu ser, enquanto se pode encontrá-lo, pois quando soarem as trombetas os céus se fecharão e Ele executará seu juízo sobre a Terra. Deve se prostrar diante do altar de Deus em seu coração e deixar ali a sua vida, a sua vontade, os seus sonhos. Este lugar é um lugar de renúncia, um lugar de rendição, um lugar em que tomamos a nossa cruz e decidimos com firmeza seguir a Cristo.

Aqueles cristãos que ainda não passaram por esse altar não se converteram realmente a Cristo e em vão creem que estão salvos. Não é possível herdar o Reino dos Céus sem entregarmos verdadeiramente nossas vidas no altar de Deus, e termos nosso nome inscrito no Livro da Vida. Aqueles que têm Deus como Pai são antes de tudo servos dos seus semelhantes, guerreiros espirituais, guerreiros de Cristo, em cuja testa ele coloca o seu selo. Por serem fiéis e verdadeiros servos, os guerreiros de Cristo tem autoridade sobre o Inferno e estarão um dia entre os que julgarão este mundo.

Triunfalismo: Poder ou Arrogância?

Como filhos de Deus nós temos autoridade sobre o mal, pregam sempre os triunfalistas. Os triunfalistas são aqueles que associam o fato de os cristãos serem filhos de Deus a uma vida próspera e livre de tribulações. A sua postura espiritual lembra muito aqueles famosos “filhinhos de papai” ou “mauricinhos”, cuja arrogância e egocentrismo os leva a se sentirem como donos do mundo. Jesus, sendo Ele o Filho Unigênito de Deus e Rei dos Reis, veio ao mundo como servo, mas muitos de nós, sendo apenas filhos adotivos de Deus queremos ser reis, mas não sacerdotes. Queremos reinar mas não queremos servir.

Se vivemos uma vida de obediência à Palavra de Deus, e somos retos de coração, o Inimigo realmente não tem autoridade sobre as nossas vidas. Mas nem todas as nossas lutas e tribulações são obra do Inimigo. Jesus disse que no mundo teríamos sempre tribulações, por que elas são inerentes à ordem corrompida em que vivemos. Deus usa muitas vezes estas tribulações para a nossa edificação, pois é através das lutas pessoais que crescemos como cristãos e fortalecemos a nossa confiança em Deus. (Romanos 5:3-5)

“Aproximou-se dele, então, a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, ajoelhando-se e fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe Jesus: Que queres? Ela lhe respondeu: Concede que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino. Jesus, porém, replicou: Não sabeis o que pedis; podeis beber o cálice que eu estou para beber? Responderam lhe: Podemos.

Então lhes disse: O meu cálice certamente haveis de beber; mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda, não me pertence concedê-lo; mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai.

E ouvindo isso os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles.

Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva;e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mateus 20:20-28)

Não devemos nunca nos esquecer da verdadeira humildade, que é a de lembrar que o direito que nos foi dado sobre o mal não foi conquistado por merecimento nosso, mas provém exclusivamente da graça de Deus, que nos resgatou do caminho da morte espiritual.

Devemos ter o cuidado também de não nos justificarmos a nós mesmos, e reclamar de forma legalista nossos direitos perante Deus, pois se é verdade que fomos justificados por Cristo por nossos pecados passados, precisamos ainda ser perdoados a cada dia pelos pecados que ainda cometemos e portanto ainda dependemos diariamente da misericórdia e da graça de Deus para que não percamos a nossa herança.

O perigo do legalismo é que quando o utilizamos para reivindicar de Deus os nossos direitos, com base naquilo que fazemos, nos sujeitamos a sermos julgados por Deus também de forma legalista, como servos inúteis, que fazem apenas aquilo que o seu senhor lhes ordena.

Por fim, é verdade que somos filhos de Deus e não vermes rastejantes sobre a terra, mas precisamos também nos lembrar, como fez Paulo, que somos filhos por adoção, isto é, filhos da misericórdia de Deus, que nos amou de tal maneira que nos enxertou como oliveira selvagem, no tronco santo da oliveira de Cristo, para que não perecêssemos com o mundo.

Por tudo isto, antes de nos arrogarmos o direito de exercer o poder que nos foi dado por Deus em Cristo para vencer o mundo, devemos nos lembrar que é exclusivamente pelo amor de Deus que temos esse direito, e antes de profetizar as suas bênçãos sobre as nossas vidas, rogar a Ele que nunca venhamos a decair de sua graça e que venhamos a sermos considerados dignos de ser chamados discípulos de Jesus, servos bons e fiéis, dignos da coroa de justiça que ele tem preparada para os que perseveram com Ele até o fim.

Devemos sim, como filhos do Altíssimo, profetizar sobre nossas vidas a prosperidade e a cura de nossas enfermidades, mas devemos sobretudo procurar conhecer qual seja a sábia e soberana vontade de Deus para as nossas vidas, pois se somos realmente discípulos de Cristo, estamos no mundo não para servimos a nós mesmos mas antes para servimos ao nosso Senhor e ao nosso semelhante, como a nós mesmos.

Jesus levou sobre si na cruz realmente as nossas dores e enfermidades, mas nos fez também com Ele co-herdeiros do seu Reino, e como tal recebemos a missão de construir com a sua Igreja este Reino aqui e agora, até que seja chegado tempo da restauração deste mundo, e possamos então gozar das verdadeiras riquezas que ele reservou os seus servos.

Jesus em tudo foi obediente ao Pai e assim como ele precisou sofrer e aceitar a sua cruz para fazer a vontade do Pai, também temos que tomar a nossa cruz se quisermos segui-lo, e isto muitas vezes implica sofrer humilhações, perseguições e a viver uma vida modesta. A alguns de seus servos Deus concedeu uma vida materialmente próspera, mas a muitos outros requereu aceitar uma vida austera, marcada por muitas lutas, como foi o caso dos profetas pré-cristãos e dos apóstolos de Jesus.

Jesus veio ao mundo em pobreza, não por que a pobreza seja uma virtude, mas por que para servir a Deus muitas vezes é necessário se contentar com o pouco. O apóstolo Paulo deu nesse sentido, o melhor exemplo de maturidade espiritual do verdadeiro cristão com relação à vida material quando afirmou: “Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece.” (Filipenses 4:12-13)

Salomão demonstrou também sua sabedoria com relação a este assunto, pois descreveu claramente a postura equilibrada do homem que ama a Deus com relação às coisas materiais, em sua proverbial petição “Alonga de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me só o pão que me é necessário; para que eu de farto não te negue, e diga: Quem é o Senhor? ou, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus.” (Provérbios 30:8-9)

Cristo venceu o mundo, mas a meta de sua vida não era vencer o mundo, mas a de entregar a sua própria vida para realizar a obra redentora do Pai. Do mesmo modo, o alvo principal do cristão enquanto neste mundo portanto, não é o de vencer o mundo, mas o de realizar as obras que Deus espera que ele realize, como filho e como cidadão do Reino de Deus, ou seja produzir em sua vida os frutos da boa árvore, os frutos que produzem os galhos que estão verdadeiramente na árvore que é Cristo.

A Cabana

É incrível a facilidade com que muitos cristãos se deleitam com produtos da cultura mundana, sem se dar conta do risco a que se expõem. Não são apenas os alimentos físicos que podem conter impurezas ou substâncias nocivas à saúde.

A cultura de massa, através dos meios de comunicação e da arte, produz diariamente uma avalanche de produtos destinados ao consumo popular, e todos eles possuem um conteúdo ideológico, seja ele religioso ou filosófico, político ou econômico. Estes conteúdos são como alimentos mentais e podem ser saudáveis ou não, para a saúde espiritual.

O conteúdo destes produtos culturais pode estar implícito ou explícito e é tanto mais perigoso quanto menos explícito for. A maioria das pessoas acredita, inclusive cristãos, que é possível separar o conteúdo ideológico destes produtos de sua forma exterior, sem prejuízo para a mente ou o espírito. Segundo esta crença, seria possível assim a um cristão praticar Ioga ou Tai-chi-chuan; utilizar os preceitos do Feng-shui na vida diária; assim como assistir O Senhor dos Anéis e Matrix, ou ler Harry Potter ou Crepúsculo, sem se deixar contaminar por nenhuma ideia ou filosofia em que essas práticas ou obras artísticas possam estar baseadas.

Não digo que isto não seja possível a um cristão maduro, com senso crítico apurado, bom nível cultural e bom conhecimento bíblico. Entretanto, a maioria dos cristãos não se enquadra neste perfil e portanto, sem se dar conta, o indivíduo assimila de forma inconsciente muito do conteúdo destes produtos; o que pode trazer como resultado futuro uma formação espiritual confusa e inconsistente, que é na verdade o resultado desta promiscuidade cultural a que se expôs.

Em certos casos, a separação entre a forma e o conteúdo é impossível até mesmo para um cristão maduro e atento, como no caso das práticas orientais da Ioga, de algumas lutas marciais, do Feng-shui e outras, cujo conteúdo é indissociável da sua prática exterior.

Não me espantei portanto, ao ouvir de uma irmã em minha igreja copiosos elogios à obra A Cabana, de William P. Young que ela acabara de ler e recomendava às suas amigas. Trata-se de uma obra de ficção de bom nível de qualidade literária, com fundamento aparentemente cristão, e que já chegou a ser comparada a clássicos da literatura cristã como O Peregrino de John Bunyan. A obra já vendeu mais de um milhão de exemplares, tendo recebido inúmeros elogios da crítica especializada e deve ser provavelmente levada para o cinema. Young se sentiu frustrado com o que aprendeu em seu seminário teológico, e resolveu criar sua própria teologia, a partir de uma “conversa” que teve com Deus e de outras conversas com seus familiares e amigos.

Qual a razão de tamanha aceitação desta obra? Além de seu bem elaborado conteúdo literário, A Cabana chama a atenção por tratar de um tema bastante comum, mas que poucas pessoas, inclusive cristãos, parece compreender satisfatoriamente, que é a questão da relação entre Deus e o mal existente no mundo. Muitos se recusam a crer na existência de Deus e muitos cristãos sentem sua fé se abalar, após passarem por tragédias pessoais dolorosas; como a perda de um ente querido, como é o caso do episódio central desta obra. Young usa este tema como pano de fundo para expor uma teologia que em momento algum é explicita, mas que contraria em vários aspectos os fundamentos básicos do cristianismo. Adepto do chamado Universalismo Cristão, doutrina professada pela igreja Unitariana-Universalista, Young apresenta a todos um Deus que nada mais é que fruto de um romantismo espiritual desbragado. O Deus de Young pouco ou nada tem a ver com o verdadeiro Deus bíblico, sendo concebido como um ser permissivo, totalmente destituído de qualquer senso de justiça, movido por um amor absoluto. Um Deus que reconhece a todos os homens como seus verdadeiros filhos, que não gosta da igreja nem da Bíblia e que receberá a todos no céu independentemente de sua conduta ou da sua fé.

Deus declarou por meio de Oséias que “o meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento.” Este conhecimento a que Deus se referia não era o conhecimento científico, mas o conhecimento da sua lei. Ao desprezar a verdade, o cristão despreza o próprio Deus e assim pois condena a si mesmo, pois conforme diz ainda o Senhor pela boca de Oséias, “visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.”

Relaciono a seguir alguns dos diálogos em A Cabana que contradizem frontalmente a Palavra de Deus:

1) Deus Pai foi crucificado com Jesus. (pg. 53-54).

- “Papai não respondeu, apenas olhou para as mãos dos dois. O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como as que agora presumia que Jesus também tinha nos dele.

- “Jamais pense que o que meu filho optou por fazer não nos custou caro. O amor sempre deixa uma marca significativa – ela declarou, baixinho e gentilmente. – Nós estávamos lá, juntos.
Mack ficou surpreso.

- “Na cruz?”

A manifestação de Deus através dos personagens Papai (o Pai); Jesus (o Filho) e Sarayu (o Espírito Santo) revela uma noção modalista da Trindade cristã. O modalismo (ou sabelianismo), é uma antiga heresia que a igreja combateu no século três. Basicamente, esta ideia confunde as três pessoas da Trindade em uma só pessoa que age em modos diferentes em diferentes tempos. Algumas vezes Ele age como o Pai, às vezes o Filho, e às vezes como o Espírito Santo.

Embora Young tente demonstrar, através de seus personagens, que compartilha a mesma visão ortodoxa da trindade cristã “— Não somos três deuses e não estamos falando de um deus com três atitudes, como um homem que é marido, pai e trabalhador. Sou um só Deus e sou três pessoas, e cada uma das três é total e inteiramente o um.” (p.100); o que sua representação da trindade denota na verdade é que a unidade de Deus em sua obra não provém de uma mesma essência ou natureza, como afirma a concepção ortodoxa cristã, mas de uma união social ou de um relacionamento de três pessoas separadas. A Trindade divina não é composta por três pessoas separadas, mas por três pessoas distintas, que compartilham a mesma natureza divina, como os três vértices de um triângulo.

Além disso, ao subverter o caráter masculino de Deus Pai, quando o representa através de uma mulher (Young deixa claro em sua obra que prefere a autoridade feminina à masculina), ele está na verdade não protestando contra um suposto ranço histórico de autoritarismo machista, mas subvertendo mais um princípio bíblico. O principio da primordialidade e da soberania divinas é expresso na realidade física através do principio da masculinidade.

Ao concluir a Criação, Deus criou o ser humano e deu a ele prevalência e domínio sobre todo o restante da criação, através da Adão (Gênesis 2:15). A sexualidade de Adão foi assim uma manifestação biológica de um princípio espiritual, cujos atributos permaneceram inalterados mesmo após a criação de Eva, que foi criada de forma a complementar a sexualidade humana (Gênesis 2:18).

2) Existe em A Cabana uma subjugação da justiça de Deus ao seu amor – um princípio central ao Universalismo.

O credo universalista de 1899 afirmava que “existe um Deus cuja natureza é o amor”. Young diz que Deus “não pode agir independentemente do amor” (p. 102), e que “Deus tem sempre o propósito de expressar Seu amor em tudo o que faz” (p. 191). O credo de 1878 afirma que o atributo da justiça de Deus “nasce do amor e é limitado pelo amor”. Young afirma que Deus escolheu “o caminho da cruz onde a misericórdia triunfa sobre a justiça por causa do amor”, e que esta maneira é melhor do que se Deus tivesse que exercer justiça (pp. 164-65).

Na verdade, Deus sempre exerce plenamente o seu amor, mas também exerce plenamente a sua justiça. O sacrifício de Cristo na cruz não foi uma vitória do amor sobre a justiça. Conforme Romanos 5:8-9; através de Jesus, Deus revelou ao mundo o seu amor; mas cumpriu através de sua morte o seu juízo sobre o pecado, pois pelo seu sangue fomos justificados.

3) Não existe punição eterna para o pecado. O credo de 1899 novamente afirma que Deus “finalmente restaurará toda a família humana à santidade e à alegria”. Semelhantemente, Young nega que Deus “derrame ira e lance as pessoas” no inferno. Deus não pune por causa do pecado; é a alegria dele “curar o pecado” (p. 120). Papai “redime” o julgamento final (p. 127). Deus não “condenará a maioria a uma eternidade de tormento, distante de Sua presença e separada de Seu amor” (p. 162).

Tomemos a seguinte parábola: Um jovem tem uma forte desavença com o pai, por se recusar a obedecê-lo. O pai deste jovem não tem outra alternativa a não ser expulsá-lo de casa. O jovem rouba todo o dinheiro que ele tem guardado e foge de casa para um país distante. Seu pai no entanto decide perdoá-lo e envia um advogado para encontrá-lo, pois sabe que o país para onde ele fugiu está em guerra e o seu filho corre grande perigo. Ao encontrar o fugitivo, o advogado lhe diz que o seu pai o perdoou e que está disposto a aceitá-lo de volta. Entretanto, o jovem diz ao advogado que não acredita que o seu pai realmente o perdoou e que portanto não voltará para casa. O advogado comunica então este fato ao pai do jovem o que ouviu dele, mas ele ordena ao advogado que volte a procurar o jovem. Neste segundo encontro, o jovem afirma, numa explosão de raiva, que não precisa da piedade de seu pai. Dias depois, o jovem é capturado por uma das facções em luta naquele país e feito prisioneiro, passando o resto de seus dias em cativeiro.

Esta história, bastante simples, ilustra bem entretanto o princípio cristão da salvação espiritual. Creio que é bastante fácil nesta história identificar o pai como sendo Deus, o filho desobediente como sendo o homem e o advogado como sendo o Espírito Santo, enviado por Deus ao mundo para convencer o homem do pecado. Neste caso, como podia este pai salvar o seu filho, se ele se recusar a crer em seu perdão ou se ele recusa até mesmo a misericórdia do seu pai? Quem condena a quem a uma vida de tormentos senão o próprio filho, ao recusar a mão que seu pai amorosamente lhe estende? Deus deseja realmente resgatar o homem da sua própria condenação, mas não pode obrigá-lo a aceitar a sua salvação.

4) Há uma representação incompleta da enormidade do pecado e do mal. Satanás, como o grande enganador e instigador da tentação ao pecado, deixa de ser mencionado na discussão de Young sobre a queda (pp. 134-137).

“Mas — continuou Mack, insatisfeito — então por que tantas coisas ‘boas’ ficaram ‘ruins’?

“Agora Sarayu parou antes de responder.

“Vocês, humanos, são verdadeiramente cegos em relação ao seu lugar na Criação. Escolheram o caminho devastado da independência e não compreendem que estão arrastando toda a Criação com vocês.”

5) Existe um erro grave na maneira como Young retrata a Trindade. Ele afirma que toda a Trindade encarnou como o Filho de Deus, e que a Trindade toda foi crucificada (p. 99). Ambos, Jesus e Papai (Deus) levam as marcas da crucificação em suas mãos (contrariamente a Isaías 53.4-10).

O erro de Young leva, como já foi dito, ao modalismo, ou seja, que Deus é único e às vezes assume as diferentes modalidades de Pai, Filho e Espírito Santo, uma heresia condenada pela igreja primitiva. Como se não bastasse, sugere uma concepção panteísta de Deus (p.112):

“Deus, que é a base de todo o ser, mora dentro, em volta e através de todas as coisas, e emerge em última instância como o real.”

E afirma ainda que Jesus vive fisicamente no mundo (p.99):

“Ainda que por natureza Jesus seja totalmente Deus, ele é totalmente humano e vive como tal.Ainda que jamais tenha perdido sua capacidade inata de voar, ele opta, momento a momento, por ficar no chão.”

A Bíblia afirma que Jesus ressuscitou e subiu aos céus (Lucas 24:51; Atos 1:9), onde está assentado à direita do Pai (Mateus 26:64). Quem está no mundo é o Espírito de Deus enviado por Jesus para nos consolar (João 14:16-18) e através dele Jesus está espiritualmente entre nós.

6) A reconciliação é efetiva para todos sem necessidade de exercerem a fé. Papai afirma que ele está reconciliado com o mundo todo, não apenas com aqueles que creem (p. 192). Os credos do Universalismo, tanto o de 1878 quanto o de 1899, nunca mencionaram a necessidade da fé ou do arrependimento como condição para a salvação.

- “Em Jesus eu perdoei todos os humanos por seus pecados contra mim, mas só alguns escolheram relacionar-se comigo (…) Quando você perdoa alguém, certamente liberta essa pessoa do julgamento, mas, se não houver uma verdadeira mudança, não pode ser estabelecido nenhum relacionamento verdadeiro”. (página 135).

Na verdade, a reconciliação entre o homem e Deus é realmente uma via de mão dupla, como afirma Young, e por isso mesmo, requer antes de tudo o arrependimento do homem, que é a manifestação de sua decisão de conversão de vida (Lucas 13:3; 2Pedro 3:9). Jesus afirma claramente que o perdão requer o arrependimento: “se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe.” (Lucas 17:3) No início de seu ministério, Pedro exortava: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados” (Atos 2:38); e também “arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados” (Atos 3:19). Se não há conversão de vida, não apenas “não pode ser estabelecido nenhum relacionamento verdadeiro” como diz Young. Mais que isto, não pode haver salvação.

O evangelho de João afirma em 3:16 que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Paulo também afirma em Romanos 5:1 que “tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”.

7) Não existe um julgamento futuro. Deus nunca imporá Sua vontade sobre as pessoas, mesmo em Sua capacidade de julgar, pois isso seria contrário ao amor (p. 145). Deus se submete aos humanos e os humanos se submetem a Deus em um “círculo de relacionamentos”.

Moisés afirma em Gênesis: “Não agirá com justiça o juiz de toda a terra? (18:25) ” O autor de Hebreus fala de “Deus, juiz de todos os homens” (12:23) Deus é o juiz supremo de sua criação e julgará a cada um conforme as suas obras (Romanos 2:6), pois ele não pode agir fora de sua justiça. Se Deus não discernisse o bem e o mal, não seria perfeito e sua criação seria também imperfeita. Mas quando Deus conclui a obra da criação e a contempla, vê que tudo “era muito bom” (Gênesis 1:31).É Paulo que afirma ainda:

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;
Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.
Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus;
Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3:23-26)

8) Todos são igualmente filhos de Deus e igualmente amados por ele (pp. 155-56). Numa futura revolução de “amor e bondade”, todas as pessoas, por causa do amor, confessarão a Jesus como Senhor (p. 248):

“— Os que me amam estão em todos os sistemas que existem. São budistas ou mórmons, batistas ou muçulmanos, democratas, republicanos e muitos que não votam nem fazem parte de qualquer instituição religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipócritas. Há banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos, judeus e palestinos..”

A salvação é oferecida por Deus a todos os homens, sem acepção de pessoas. Entretanto, Young não deixa claro em sua obra que existe apenas um caminho que conduz a esta salvação, que é Cristo, segundo as suas próprias palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”(João 14:6).

9) A instituição da Igreja é rejeitada como sendo perniciosa. Jesus afirma que Ele “nunca criou e nunca criará” instituições (p. 178).

A igreja de Cristo, enquanto entidade espiritual, ou o corpo de Cristo no mundo é, na prática, inseparável da instituição humana da igreja. A igreja de Cristo no mundo não está imune às fraquezas e vicissitudes humanas, conforme demonstra a sua história, mas como afirmou Jesus, as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Apesar de existirem várias instituições cristãs que não são dignas de serem chamadas de cristãs, Deus realiza eficazmente a sua obra através de sua verdadeira igreja no mundo; aquela que apesar de todas as perseguições e influências nefastas humanas, permanece fiel à sua missão original e não perdeu a sua identidade.

Paulo afirmou acerca da igreja:

“E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:11-12)

O autor de Hebreus também admoestou a comunidade cristã acerca da igreja:

“Consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras, não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns.” (Hebreus 10:24-25)

10) Estruturas hierárquicas; estejam na igreja ou no governo, são ruins. (p. 122):

— “Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.
— “Mas qualquer instituição humana, desde as políticas até as empresariais, até mesmo o casamento, é governada por esse tipo de pensamento. É a trama do nosso tecido social — declarou Mack.
— “Que desperdício! — disse Papai, pegando o prato vazio e indo para a cozinha.
— “Esse é um dos motivos pelos quais é tão difícil para vocês experimentar o verdadeiro relacionamento — acrescentou Jesus. — Assim que montam uma hierarquia, vocês precisam de regras para protegê-la e administrá-la, e então precisam de leis e da aplicação das leis, e acabam criando algum tipo de cadeia de comando que destrói o relacionamento, em vez de promovê-lo.”

Esta posição subverte novamente o conceito da trindade cristã, segundo o qual existe uma hierarquia inerente, pela qual o Pai exerce sua vontade soberana e o Filho e o Espírito obedecem ao Pai (Mateus 26:39; João 14:16). Os apóstolos também nos ensinam que devemos sujeitar-nos a toda autoridade instituída (1Pedro 2:13-14;18), seja ela constituída por governantes, patrões ou mesmo no lar, os filhos aos pais e a esposa a seu marido (1Pedro 3:1; Colossenses 3:18-22). Mesmo do ponto de vista humano, seria impossível conceber a sociedade sem alguma forma de organização hierárquica ou institucional.

11) A Cabana subverte também o papel básico da Bíblia, para “ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Timóteo 3:16):

— “Mackenzie! — Seu tom era de censura, as palavras voando com afeto. — A Bíblia não lhe diz para seguir regras. Ela é uma imagem de Jesus. Ainda que as palavras possam lhe dizer como Deus é e o que Ele pode querer de você, é impossível fazer isso sozinho. A vida está Nele e em mais ninguém. Minha nossa, será possível que você se ache capaz de viver a retidão de Deus sozinho?
— “Bom, acho que sim, mais ou menos… — disse ele sem graça. — Mas você tem de admitir que as regras e os princípios são mais simples do que os relacionamentos.
“É verdade que os relacionamentos são muito mais complicados do que as regras, mas as regras nunca vão lhe dar as respostas para as questões profundas do coração. E nunca irão amar você.”

Embora seja verdade que a Bíblia não se reduz a um punhado de regras ou preceitos, é necessário sabedoria para notar que é unicamente através dos princípios espirituais que ela ensina que somos edificados para que possamos estabelecer um relacionamento real com Deus. Isto não quer dizer que Deus não possa falar diretamente ao nosso coração por meio do seu Espírito, mas quando o faz, ele reitera sempre aqueles princípios fundamentais que nos ensinou através de sua Palavra. Ou, nas palavras de Paulo:

“Porquanto, tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela constância e pela consolação provenientes das Escrituras, tenhamos esperança.” (Romanos 15:4)

Os princípios bíblicos são eternos e abrangentes, transmitem a Verdade, revelam a natureza de Deus e orientam quanto ao verdadeiro sentido da vida. A Bíblia não é uma obra construída apenas de palavras ou narrativas; mas possui uma profundidade que vai muito além do aspecto literário.

A Bíblia não é porém um livro mágico ou milagroso, cuja posse ou leitura por si só possua algum poder sobrenatural. Ela aponta, do início ao fim, para o Cristo Jesus e sua missão redentora e reveladora de Deus e da eternidade da vida espiritual, demonstrada por sua ressurreição. Foi para ele que ela foi escrita, e é somente quando encontramos o Senhor Jesus através da Bíblia, é que podemos ser espiritualmente transformados e receber a herança da vida eterna.

William Young trocou a igreja e a Bíblia que está em seu altar por uma cabana onde há três mestres espirituais que ensinam o seu próprio caminho para Deus. Na igreja de Cristo sabemos que encontraremos realmente a Deus, mas na cabana de Young há apenas um pouco da vã e presunçosa sabedoria humana.

O Caminho do Equilíbrio

Os antigos gregos ensinavam a temperança, a prudência, o bom senso, a moderação e a modéstia como virtudes típicas de um estado de espírito harmonioso e saudável (Sophrosyne). Estas eram virtudes opostas à Hybris que significava o contrário: excesso, orgulho, insolência, impetuosidade, descontrole, desrespeito, desespero e violência. Segundo eles, a sabedoria estava basicamente em evitar os excessos. Entretanto, a busca filosófica do equilíbrio, normalmente conduz à mediocridade, à indecisão e ao descompromisso.

A realidade em que vivemos parece ser determinada por dois princípios opostos, o que é conhecido como dualidade. Estes princípios opostos entretanto não são todos neutros e complementares ou duas faces de uma unidade, como afirma a filosofia chinesa. Existem na verdade duas classes de dualidades. Na primeira delas os opostos são físicos, ou naturais. Na segunda classe, os opostos são abstratos, decorrentes da psicologia humana, como as emoções e os princípios morais. A dualidade física ou natural é inerente à criação, mas a dualidade abstrata se originou do separação entre o homem e Deus. Os primeiros seres humanos criados não possuíam quaisquer conflitos psicológicos, pois viviam em comunhão com Deus e eram plenamente felizes. Somente depois de pecar o ser humano veio a conhecer o bem e o mal, o amor e ódio, a paz e a guerra. A solução para o conflito dos opostos não é o equilíbrio socrático ou o Caminho do Meio budista e tampouco a “Não Ação” taoísta.

O desconhecimento da queda do homem, que levou à corrupção da natureza, fez com que as mais diversas culturas formassem idéias filosóficas que tratavam da mesma forma toda dualidade, como se ela fosse apenas as duas faces moralmente neutras de um todo, e que afirmavam que a atitude mais sábia seria não escolher um dos polos, mas o equilíbrio entre ambos. Entretanto, o que as religiões e filosofias do mundo que adotam este caminho desconhecem é que não existe tal posição. Na verdade, escolhemos sempre um dos polos, embora tenhamos a ilusão de que vivemos em sábio equilíbrio. Assim, quem escolhe a posição filosófica do equilíbrio dos opostos escolhe na realidade a posição contrária à verdade, que conduz no mundo a uma vida medíocre e no plano metafísico, à morte espiritual. Jesus disse a seus discípulos: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” (Mateus 12:30) A ausência de referenciais cristãos atrela toda a iniciativa humana à sua própria sabedoria. Esta sabedoria entretanto nada mais faz do que conformar o ser humano à realidade material e a buscar superar suas próprias fraquezas e limitações através de suas próprias forças.

Um dos melhores exemplos da mediocridade das soluções de meio termo são os estilos de exercício da autoridade. As melhores teorias de administração afirmam que entre a autocracia e o liberalismo, o melhor caminho é o da democracia. Este é realmente o caminho que tem produzido historicamente os melhores resultados, tanto empresarialmente quanto socialmente. Entretanto, isso não se deve a uma suposta virtude desta forma de exercício do poder, mas à falta de virtudes suficientes daqueles que exercem a autoridade para exercê-la de forma sábia e justa. A democracia é assim uma solução de meio termo entre os desmandos de um tirano e a ineficácia de um liberal permissivo e como toda solução mediana, é medíocre em seus resultados. Na verdade, contrariamente à sabedoria popular, a voz do povo não é a voz de Deus. Deus não se coloca a favor da maioria, mas a favor dos humildes e oprimidos, por um lado, e dos justos, dos valentes e dos perseverantes, por outro lado. Infelizmente, Deus sabe que a maioria dos homens não herdará o seu Reino, pois embora todos sejam chamados, poucos são os que são fiéis a seu chamado e perseveram até o fim no caminho da justiça.

Tomemos por exemplo os opostos extremos avareza e perdularismo. O equilíbrio não está em se gastar conforme o que se ganha, mas em se gastar segundo o que é realmente necessário, segundo uma ordem de prioridades. O homem realmente sábio gasta normalmente muito menos que sua renda, mas eventualmente gastará muito mais, por que é realmente necessário. Um outro exemplo é o da honestidade e da desonestidade, em que o equilíbrio consiste não em ser honesto em coisas importantes, e se permitir ser desonesto em coisas secundárias. O equilíbrio neste caso está em ser totalmente honesto, sem no entanto impor um juízo moralista sobre o outro, exigindo dele a mesma atitude. Este é também o caso entre mentir ou dizer a verdade. Não existe um meio termo, o indivíduo que é íntegro sempre dirá a verdade, mas fará isto com amor, sem a intenção de ferir ou condenar.

Nos estudos de administração de conflitos, existem quase sempre três atitudes gerenciais básicas. Aqueles que se envolvem plenamente no conflito, aqueles que fogem dele e aqueles que tentam contemporizar, sob pretexto do equilíbrio, o que é justamente a posição mais medíocre. O contemporizador, diante do conflito, sugere rapidamente uma decisão pelo voto, mas a vontade da maioria quase nunca é a melhor solução, apesar de ser a mais indolor e a mais rápida. A atitude mais produtiva diante do conflito não é permitir a disputa indiscriminada entre lados conflitantes até a vitória do mais forte, e tampouco o falso equilíbrio da contemporização, mas aquela que produz o verdadeiro equilíbrio, isto é, a busca racional e objetiva da melhor solução.

A maioria das pessoas hoje evita formar opiniões definidas sobre o que quer que seja, preferindo ficar “em cima do muro”, sob o pretexto de que as situações envolvidas são muito complexas. Esta posição de descompromisso ou de constante mudança de posições, se deve na verdade ao fato de que perdemos nossos referenciais morais positivos, e vivemos um relativismo moral em que é considerada tacanha e até mesmo inaceitável a defesa do que é justo e do que é bom. Substituímos esses ideais por ideais humanistas, “equilibrados”, ou “politicamente corretos”, que buscam acomodar todas as tendências, todos os desejos humanos, todas as expressões culturais e religiosas como sendo equivalentes, debaixo do guarda-chuva confortável da conciliação, e defender apenas os direitos humanos básicos, como se isto bastasse para nossa realização existencial plena.

Evidentemente, nenhum de nós é completamente bom ou completamente mau, mas isso não significa que devemos aceitar essa ambigüidade como natural. Todos nós fazemos coisas boas e coisas más, mas a atitude equilibrada não é se conformar com isto, mas buscar incessantemente fazer o bem. Todos nós temos consciência da inevitabilidade da escolha entre fazer o bem e fazer o mal, embora a maioria das pessoas negue a existência de referenciais morais para isto. As pessoas se tornam efetivamente boas ou más, na medida em que prevalece nelas a atitude para o bem ou para o mal, ainda que elas não tenham consciência disto. Nossa atitude cínica e ambígua diante da moralidade revela na verdade que desistimos de tentar sermos bons, por acharmos que não vale a pena, pois hoje vemos o mundo não mais pelas lentes dos princípios morais que foram introduzidos pelo cristianismo, princípios estes que abandonamos por achar são apenas uma das muitas formas de ver o mundo e sem dúvida, a mais incômoda delas.

Jesus afirmou que quem não estivesse a favor dele estaria forçosamente contra ele. Ele não ofereceu uma terceira opção, ou um caminho do meio, de neutralidade. Ele afirma em sua mensagem dirigida a uma das igrejas primitivas : “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15-16) Isto não significa entretanto que temos que escolher uma posição extremista. Ou só trabalho ou só inatividade. Ou a extroversão total ou a introversão total. Ou o amor total ou o ódio total. Ou completo otimismo ou completo pessimismo. O que o cristianismo ensina é que é necessário tomar uma posição, sem no entanto deixar de reconhecer que devido a nossa imperfeição, vamos eventualmente permitir que o lado contrário desta atitude se manifeste, ou por necessidade de nossa natureza biológica, por razões práticas ou ainda por uma falha emocional ou de caráter.

Assim , não podemos apenas trabalhar, eventualmente temos também que descansar, por uma exigência fisiológica. A extroversão é melhor atitude, mas às vezes precisamos nos voltar para dentro, para nos prepararmos para nosso relacionamento com o mundo. O amor é uma virtude, mas às vezes somos dominados pela ira. O otimismo é essencial, mas às vezes é necessário considerar as possibilidades contrárias, devido à sua real probabilidade de ocorrer.

Certa vez, estando na Judéia, Jesus entrou em uma aldeia e foi recebido na casa de Lázaro, por suas irmãs Marta e Maria. Enquanto Marta, preocupada com a casa, se dedicava a seus afazeres e se indignou com o fato de Maria não ajudá-la, mas dedicar toda a sua atenção a Jesus. Jesus disse então a Marta: “Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.” (Lucas 10:41-42). Jesus ensina aqui o princípio do verdadeiro equilíbrio entre a vida material e a vida espiritual, ao mostrar que a sabedoria está em se dedicar o mínimo possível à vida material e o máximo possível à vida espiritual, pois esta é a que realmente importa.

O equilíbrio verdadeiro, portanto, não está em permitir que os opostos assumam aleatoriamente ou moderadamente o domínio de nosso corpo, de nossas emoções e de nossos princípios, como se fossem equivalentes, mas em saber que existe apenas um polo que está vinculado à vida e à verdade e que seu oposto necessariamente conduz ao engano e à morte.

No caso das coisas materiais, o equilíbrio não está na moderação, mas na maximização daquilo que é necessário e na minimização daquilo que é prejudicial. Toda atividade deve ser maximizada ou minimizada em quantidade e qualidade necessárias. Todo e qualquer vício, deve ser obviamente eliminado ou minimizado, dado seu caráter prejudicial, conforme a capacidade de cada um.

No caso das coisas não materiais, o equilíbrio não está em um esotérico Caminho do Meio, acima do bem e do mal, mas na maximização do bem, ou daquilo que é bom, e na eliminação ou minimização do mal, ou daquilo que é prejudicial, conforme os mandamentos de Deus.

Saber encontrar o equilíbrio verdadeiro é portanto uma virtude que advém da sabedoria. Esta sabedoria entretanto não consiste da sabedoria humana, como criam os filósofos pagãos, mas na sabedoria de Deus. A prudência, o bom senso e a modéstia são sem dúvida virtudes a serem cultivadas, mas não segundo um referencial filosófico humano apenas, que é falho e transitório, mas segundo o referencial absoluto da Palavra de Deus.

Devemos sempre buscar fazer o bem, fazer o melhor e vencer, embora saibamos que nem sempre estas atitudes positivas vão prevalecer em nossas vidas e aceitar isto sem se culpar ou se condenar, mas confessando sempre diante de Deus nossas eventuais falhas, para que nossa consciência esteja sempre limpa segundo sua justiça e a sua graça. Não nos conformemos com o caminho do meio, com a mediocridade do mundo, mas reconheçamos que fomos chamados para sermos filhos de Deus, herdar toda a sua riqueza e plenitude e conhecer a sua glória e bem-aventurança eternas!

Ioga: O Ninho da Serpente

Para alguns, o Ioga é um meio de relaxamento e de alívio da tensão, para outros é um exercício que promove a saúde e o bem-estar em forma e, para uma minoria, é um meio para a cura de doenças. Na mente do leigo, há muita confusão, pois o Ioga, segundo é promovido entre os ocidentais, não é exclusivamente nem uma disciplina relacionada com a saúde, nem uma disciplina espiritual, mas umas vezes é uma coisa, outras vezes é a outra e, freqüentemente, uma mistura das duas.

Os componentes que mais atraem os ocidentais às práticas orientais como a yoga, são antes de tudo o fato de serem apresentadas como “doutrinas milenares” e, em segundo lugar, o seu caráter exótico e misterioso, o que aos olhos ocidentais forma uma combinação bastante sedutora. Esta características, aliadas a uma promessa de benefícios físicos e psicológicos tornam estas práticas facilmente assimiláveis à cultura ocidental.

Brasileiros, sobretudo os pertencentes à classe média, cristãos sem grandes vínculos institucionais com a religião, vão aos supermercados e compram livros do Dalai Lama; nas feiras de artesanato, adquirem incenso fabricado em Bangalore e estatuetas de duendes de fabricação doméstica; meditam, praticam Yoga, Tai-Chi-Chuan e fazem uso de florais de Bach; relaxam montando arranjos de ikebana. Em outras palavras: incorporam tais práticas sem imaginar que elas podem trazer, em si, fragmentos minúsculos de religiões orientais ou de ideários religiosos não-cristãos.

A este respeito, um cristão sincero deveria informar-se sobre a compatibilidade destas práticas orientais com a espiritualidade cristã e sobre a conveniência de incorporar as suas técnicas e elementos em sua vida diária. O apóstolo Paulo alerta aos cristãos:

“Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos; pois que sociedade tem a justiça com a injustiça? ou que comunhão tem a luz com as trevas? Que harmonia há entre Cristo e Belial? ou que parte tem o crente com o incrédulo? E que consenso tem o santuário de Deus com ídolos? Pois nós somos santuário de Deus vivo, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.” (2 Coríntios 6:14)

A palavra Ioga significa “união”, o objeto do Ioga é unir o “eu” transitório (temporal), “Jiva”, com o (eu eterno) infinito “Brahman”, o conceito hindu de Deus. Este Deus, segundo o hinduísmo, não é, como muitos supõem, o mesmo Deus bíblico pessoal, mas “a realidade imutável, infinita, imanente e transcendente, que é forma o substrato divino de toda a matéria, energia, tempo, espaço, ser e tudo neste universo.” (Brodd, Jefferey (2003) – World Religions)

O Ioga tem as suas raízes nos Upanishads hindus que são anteriores ao ano 1000 aC., e é dito que essa doutrina espiritual “une a luz dentro de ti com a luz de Brahman”. No Bhagavad Gita, uma das mais importantes escrituras hindus, o senhor Krishna descreve o Jiva como “a minha própria parte eterna”, e afirma que “a alegria do Ioga chega ao iogue que é um com Brahman”.

Aqui é interessante observar que as posturas e os exercícios de respiração, que freqüentemente são considerados no Ocidente como sendo o Ioga, são apenas dois dos oito passos para a união com Brahman. O Ioga não é só um sistema elaborado de posturas e de exercícios físicos, é uma disciplina espiritual que se propõe levar a alma ao samadhi, à união total com o ser divino. O samadhi seria o estado em que o natural e o divino se convertem em um, o homem e o ser supremo chegam a ser uma unidade sem nenhuma distinção.

Este enfoque do Ioga é radicalmente contrário ao Cristianismo, onde claramente há uma distinção entre Criador e criatura, entre Deus e homem. No Cristianismo, Deus é transcendente e totalmente distinto de sua criação e o único sentido em que Ele é imanente à ela, decorre do seu ato criador, isto é, da sua concepção e materialização das coisas e seres por Ele criadas, assim com o estilo e a engenhosidade de um arquiteto está presente em suas edificações.

Um editorial do “Yoga Journal” declara a premissa básica da filosofia hindu de que a divindade, o homem, e toda a criação, em última análise, são uma única realidade:

“Estamos todos conscientes de que Ioga significa “união” e que a prática de Ioga une corpo, respiração, e mente, centros energéticos superiores e inferiores e, em última análise, o eu e Deus, ou Eu Superior. Mas, mais amplamente, Ioga dirige a nossa atenção para a unicidade ou unidade em que assenta a nossas fragmentadas experiências de vida e nosso igualmente fragmentado mundo. Família, amigos, a guerrilha no Líbano, a grande baleia migrando para o norte – todos partilhamos a mesma natureza [divina] essencial.” (Editorial, Yoga Journal, May/June 1984)

É triste que alguns promotores do Ioga, Reiki ou de outras disciplinas ou meditações distorçam algumas citações da Bíblia ao citá-las isoladas para corroborar os seus argumentos sem entender o contexto nem o significado destas palavras da Bíblia. Muitos deles consideram que Jesus tenha sido um iogue, como atualmente podemos ver em imagens de Jesus alguns conventos, capelas e presbitérios em que Ele está representado em posturas de Ioga! Dizer que Jesus é “um iogue” é negar a sua divindade, santidade e perfeição intrínseca e insinuar que Ele tinha uma natureza imperfeita sujeita à ignorância e à ilusão material (maya), e que necessitou de ser libertado da sua condição humana mediante a prática e a disciplina do Ioga.

O Ioga é incompatível com a espiritualidade cristã porque é panteísta (ao dizer “Deus é tudo e tudo é Deus”) ou panenteísta, pois considera que embora Deus e o universo sejam uma só coisa, afirma que Deus transcende o universo. Sustenta que existe uma realidade única e tudo o resto é ilusão ou maya. O universo como o conhecemos foi criado por Deus e portanto é real. O centro da fé cristã é a fé na Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas em um só Deus, o modelo perfeito de relação amorosa. No Hinduísmo, o bem e o mal, tal como a dor e o prazer são irreais (maya). Vivekananda, o ícone mais respeitado do Hinduísmo moderno, dizia: “o bem e o mal são uma só coisa”.

O cristianismo afirma que o pecado é uma ofensa contra a santidade de Deus e a razão pela qual necessitamos de um Salvador. Por isso, um cristão não pode em nenhum caso aceitar naturalmente a prática do Ioga, já que o Cristianismo e o Ioga são duas doutrinas incompatíveis. O Cristianismo vê o pecado como o principal problema do homem, considera-o como um abismo que o impede de se unir a um Deus absolutamente perfeito. O homem está distanciado de Deus e necessita da reconciliação.

O único caminho para Deus é Jesus Cristo, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Pela morte de Jesus na cruz, Deus reconciliou consigo o mundo. É unicamente através dele que podemos conhecer a Deus, pois Ele afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6); como também: “E Ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mateus 11:27) Ele cobriu com seu sangue a nossa culpa ancestral pelo pecado diante de Deus, e justifica a todo aquele que nele crê perante Deus, tornando assim possível a comunhão humana com o Criador. Ao contrário do Ioga, o Cristianismo vê a redenção como uma dádiva gratuita de Deus que só pode ser recebida e nunca conquistada ou alcançada através do próprio esforço ou de boas obras.

O Hatha Ioga, que está amplamente difundido na Europa e na América e praticado principalmente para saúde mental, física e vitalidade, é um dos seis sistemas reconhecidos do Hinduísmo ortodoxo, que na sua origem é religioso e místico, e é a forma mais perigosa de Ioga (cf. Dave Hunt, The seduction of Christianity). O Yoga Journal afirma que os “Centros de Ioga que alcançaram maior popularidade nos Estados Unidos usualmente ensinam um dos muitos tipos de Hatha Yoga, uma disciplina física baseada sobretudo em asanas ou posturas e exercícios respiratórios, destinados a preparar o corpo para propósitos espirituais. Inicialmente, o único propósito da prática da Ioga era o de experimentar a iluminação espiritual.” (Not All Yoga Is Created Equal – Jennifer Cook)
Há, no entanto, entre muitos ocidentais, um consenso muito difundido de que a prática dos exercícios físicos da Ioga pode ser totalmente dissociada de seu contexto filosófico e espiritual. Esta idéia é totalmente enganosa e a razão pela qual muitos incautos se expõem aos riscos de uma prática que afeta profundamente os aspectos psíquicos e espirituais humanos, na maioria das vezes de forma inconsciente.

Uma tentativa pioneira de contato amistoso entre o Cristianismo e os valores da velha prática hindu pode ser vista em 1960, com a publicação de “La Voie du Silence” (“A Via do Silêncio”), do monge beneditino belga J. M. Déchanet. No Brasil a obra foi publicada em 1962, com um título mais radical: “Ioga para Cristãos”. Déchanet teria sido iniciado no Yoga por Phillipe de Méric, discípulo do indiano Shri Mahesh Gatradyal. Gatradyal chegou à França em 1947 e é apontado como um dos pioneiros na divulgação do Hatha-Yoga naquele país.

Em sua página de apresentação, o autor indica uma intersecção possível entre sua religião e a prática indiana: “Cristianizar a Ioga, uma determinada Ioga? Não! Colocar ao serviço da vida cristã certas disciplinas ióguicas”. Não é possível, porém, fazer uso religioso de uma ferramenta de tal natureza sem dela adquirir alguma coisa, por sutil que seja, sem mudar a própria visão de mundo. Essa mudança torna-se especialmente clara quando, a certa altura do livro, o autor, ao invés de se referir a “cristãos praticantes de Ioga”, lança mão da expressão “Iogue Cristão”

Esta não foi certamente a única tentativa de incorporar doutrinas e práticas orientais ao catolicismo no Brasil. Em 2003, em Florianópolis, a convite da superiora de uma ordem religiosa católica, esse profissional ministrou aulas de Tai-Chi-Chuan para freiras idosas. Segundo o entrevistado, as religiosas (principalmente as mais velhas) se divertiam muito repetindo movimentos que, de acordo com a tradição chinesa, brotaram do Taoísmo.
Entre os contemporâneos do padre belga na relação de “cristãos com um pé no Oriente”, aparecem figuras como o jesuíta alemão Hugo Enomiya-Lassalle (1898 – 1990), autor do livro “Meditação Zen para Cristãos” (de 1958). Outros adeptos notáveis são o monge cisterciense/trapista Thomas Merton (1915 – 1968), autor de obras como “O Zen e as Aves de Rapina” e Allan Watts (1915 – 1973), um cristão episcopal que mergulhou profundamente no Zen e que, atualmente, é uma espécie de “referência filosófica” para os aficionados pelo Oriente.

No Brasil, o pioneiro na divulgação das técnicas de Hatha Yoga foi o escritor e professor José Hermógenes de Andrade Filho, mais conhecido como Professor Hermógenes, fundador da Academia Hermógenes de Yoga. Foi um dos primeiros a trazer a mensagem do guru indiano Sathya Sai Baba para o Brasil. O primeiro centro foi inaugurado em 1987 e denominado Centro Bhagavan Sri Sathya Sai Baba do Rio de Janeiro. Ficou informalmente conhecido como Centro Sathya Sai de Vila Isabel, devido ao bairro de sua localização. Hermógenes traduziu obras de Satya Sai Baba para o português como “O Fluir da Canção do Senhor (Gita Vahini) e “SADHANA, o caminho interior”. Hermógenes é autor de diversas obras como Yoga : Autoperfeição com Hatha Yoga, Ioga para Nervosos, Caminho para Deus, Dê uma chance a Deus e Deus investe em você. Hermógenes está certamente entre aqueles que vêm na Yoga o complemento ideal para a espiritualidade cristã.

A Ioga física e a filosofia oriental são, entretanto mutuamente interdependentes, e, em última análise, não se pode ter uma sem a outra. David Fetcho, um investigador com uma extensa experiência em filosofia e prática de Ioga, afirma:

“A Ioga física, segundo a sua definição clássica é, inerente e funcionalmente, impossível de ser separada da metafísica religiosa oriental. O praticante ocidental que tenta fazê-lo está agindo de forma ignorante e temerária, tanto do ponto de vista yogi, quanto do ponto de vista cristão.” (Dave Fetcho, “Yoga,” Berkeley, CA:Spiritual Counterfeits Project).

As autoridades em Ioga Feuerstein e Miller afirmam que as posturas (asanas), do Ioga e suas técnicas respiratórias (Pranayama) são muito mais do que apenas exercícios físicos:

“Mais uma vez, vemos que o controle da energia vital (Prana), através da respiração, como também asana, não é apenas um exercício físico, mas é acompanhado de certos fenômenos psicomentais. Em outras palavras, todas as técnicas semelhantes a asana e Pranayama como, por exemplo, os mudras e bandhas [posições físicas ou gestos corporais simbólicos utilizando Pranayama e concentração mental com objetivos físicos ou espirituais] da Hatha Ioga, são exercícios psicossomáticos. Esta questão, infelizmente, é pouco compreendida pelos praticantes ocidentais …” (George Feuerstein, Jeanine Miller, Yoga and Beyond: Essays in Indian Philosophy)

O objetivo do Pranayama é também o de despertar o uma forma de energia chamada Kundalini. Kundalini, termo sânscrito, significa literalmente “enrolada”. Em Ioga, é uma espécie de “energia corporal”, uma força inconsciente, instintiva ou libidinal, imaginada em geral como uma deusa ou como uma serpente enrolada adormecida na base da coluna, à qual muitos se referem como “o poder da serpente”. Vivekananda assim se refere ao poder desta força mística:

“Então toda a natureza vai começar a mudar e as portas do conhecimentos [oculto] será aberta. Nunca mais você precisará consultar os livros para obter conhecimento, sua mente irá se tornar o seu livro, contendo o conhecimento infinito.” (Swami Nikhilananda, Vivekananda, the Yogas and Other Works)

Estas práticas são altamente perigosas e existem numerosos depoimentos de pessoas que tiveram suas vidas totalmente desestabilizadas depois de se envolverem com este tipo de Ioga, havendo mesmo casos de indivíduos que chegaram a estados de completa insanidade mental.

São inegáveis evidentemente os benefícios físicos da prática da Ioga quando orientada por profissionais sérios e competentes. Estes benefícios são a diminuição do estresse e da ansiedade, aumento da flexibilidade e da força dos músculos, melhoria a postura, diminuindo dores nas costas, estimulo da circulação sanguínea, aumento da concentração e do equilíbrio emocional, melhoria da capacidade imunológica, melhoria dos quadros de insônia e depressão e da coordenação motora. Entretanto, muitos destes benefícios podem ser obtidos através de outras modalidades de exercício físico, até mesmo através de uma simples caminhada. Em um estudo recente intitulado “Efeito da Caminhada e do Hatha Yoga Sobre a Intensidade da Dor de Mulheres com Síndrome da Fibromialgia”; publicado na Revista Digital – Buenos Aires – Año 14 – Nº 134 – Julio de 2009 realizado por uma equipe de médicos, professores e fisioterapeutas, foram formados dois grupos de acompanhamento, um deles adotando a prática da Hatha Ioga e o outro realizando apenas caminhadas regulares. A conclusão do estudo foi a de que “em apenas 10 sessões, ambas as práticas promoveram diminuição da intensidade da dor, porém sem apresentar diferença significativa. Embora não apresentando diferença significativa, os resultados deste estudo indicam que a prática de caminhada e de hatha yoga podem promover diminuição na intensidade da dor se praticadas habitualmente.”

A Ioga normalmente é definida como sendo não uma religião ou uma terapia, mas uma técnica que visa “criar no indivíduo a consciência do próprio corpo e de que a sua saúde depende apenas dele mesmo e não dos outros”. O cristão não precisa entretanto recorrer a nenhuma doutrina ou prática pagã para obter o quer que seja. A fé cristã oferece um caminho incomparavelmente superior a qualquer técnica oriental de equilíbrio psíquico e de autoconhecimento. Além de oferecer ao cristão o único caminho seguro para a sua realização espiritual, a fé em Cristo garante a paz interior, o equilíbrio físico e emocional e saúde o corpo e da alma. Jesus é o maior dos médicos e testemunhas atuais de suas curas são encontradas entre a maioria dos cristãos.

Embora esta afirmação seja vista por muitos como fanatismo ou exagero, o fato é que a vacuidade mental e a devoção ao ego são sem dúvida alguma portas para o ingresso de forças demoníacas: Jesus afirmou que um demônio, após ter saído de um certo homem, retornou para o mesmo homem, algum tempo depois porque este continuava espiritualmente vazio. (Mateus 12.43 a 45).” A devoção cristã é a via mais eficaz para viver uma comunhão plena com Deus e encontrar paz, equilíbrio e cura para o corpo e a alma. A oração cristã é um diálogo espiritual. Nesse diálogo, não são necessárias posturas, rituais respiratórios, mantras ou perfumes especiais. Através da oração, o cristão contempla a Deus e se deixa contemplar por Ele, fala com Ele e o escuta silenciosamente.

Quem Escreveu a Bíblia – Parte 1/2

A mídia cientificista tradicionalmente procura apresentar motivos pelos quais a Bíblia não deveria ser considerada uma obra sagrada e muito menos levada a sério. Atentando apenas para os aspectos históricos em que foram produzidas as Sagradas Escrituras, a mídia pós-moderna aponta uma série de alterações e erros de cópia e tradução ocorridos ao longo da história, que atestariam de forma indiscutível que a Bíblia, embora constituindo uma obra notável, não passa de uma compilação literária inteiramente humana.

A fé cristã afirma entretanto que apesar de ter sido escrita por mãos humanas, a Bíblia foi uma obra inspirada por Deus. A Bíblia não foi ditada por Deus a homens, como muitos afirmam hoje haver recebido mensagens espirituais divinas, mas Deus utilizou homens comuns, com suas idiossincrasias, suas culturas e sua diversidade intelectual, para transmitir à toda a humanidade a sua Palavra. Embora distantes entre si geográfica e historicamente, os seus cerca de quarenta autores conseguiram, sob a inspiração divina, elaborar ao longo de aproximadamente 1.600 anos uma obra que ainda transmite hoje uma mesma mensagem original. O cristianismo crê na inspiração divina das Sagradas Escrituras não por que julga ingenuamente que a Bíblia que hoje temos nas mãos é cópia fiel de seus manuscritos originais, ou mesmo das cópias mais fiéis destes manuscritos.

A igreja cristã tem plena consciência das falhas ocorridas ao longo do tempo, no processo de cópia e tradução dos manuscritos dos textos bíblicos, manuscritos estes cujo número é da ordem dos milhares. Entretanto, a evidência da inspiração divina da Bíblia é demonstrada menos por sua coerência e suas referências internas do que pelo fato de ela haver conseguido, ao longo dos séculos, manter intocada a sua mensagem original, que anuncia ao mundo o advento da plenitude do Reino de Deus e a redenção espiritual humana através de Jesus Cristo, o filho unigênito de Deus.

A cristandade crê na inspiração divina das Sagradas Escrituras exatamente pelo fato de, a despeito de todas as falhas humanas ocorridas ao longo do processo transformar a mensagem bíblica de sua forma original, escrita em simples peles e papiros, em hebraico, grego e aramaico, em livros impressos traduzidos na maioria das línguas humanas atuais; ela preserva de forma assombrosa a sua integridade essencial e o seu poder de transformar vidas e de resgatar almas.

Um artigo recente publicado recentemente em Superinteressante, uma revista voltada ao público jovem e adolescente interessado em ciência e tecnologia, aborda mais uma vez a questão da legitimidade e da confiabilidade do texto bíblico. Este artigo, denominado Quem Escreveu a Bíblia (Edição Dezembro 2008), baseado na obra de Richard E. Friedman, Who Wrote the Bible, não foge à política editorial da mídia racionalista, que relega o sobrenatural à categoria de mera crendice popular. Como na mídia em geral, onde os assuntos religiosos são abordados quase sempre de forma tendenciosa, superficial e reducionista, este artigo não foge à regra. Anteriormente, a revista Galileu, do mesmo gênero, havia também publicado um artigo semelhante, abordando a obra de Bart Ehrman “O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?” (Edição Outubro 2006). Este artigo não seria portanto digno de nota, a não ser pelo fato de apresentar a chamada Teoria Documentária, que afirma a existência histórica de pelo menos quatro fontes principais que teriam sido utilizadas para a elaboração do Antigo Testamento, como se fosse uma unanimidade no meio acadêmico.

Escolhi a seguir alguns temas mais relevantes abordados no artigo, por serem comuns às críticas sobre a confiabilidade e legitimidade da Bíblia, embora não pretenda aqui discuti-los com a devida profundidade:

1. Os dois relatos de Gênesis

O fato de Moisés utilizar dois nomes para referir-se a Deus, Elohim em Gênesis 1 e Javé em Gênesis 2, é tomado aqui como uma comprovação de que ele não foi o autor deste livro e que os dois relatos da criação são originários de fontes diversas. Entretanto, este equívoco chega a ser absurdo, pois os dois primeiros capítulos de Gênesis não são, de forma alguma, relatos “bastante diferentes” da criação, como alega o autor.

Gênesis 1 constitui um relato temporal e lógico da criação do mundo , e Moisés utiliza aqui o termo Elohim (Deus) para referir-se à onipotência criadora de Deus. Gênesis 2 é um relato genérico e poético da criação do Éden e de como os elementos da criação foram ali introduzidos, sob domínio e à disposição do primeiro casal humano. Moisés utiliza aqui o termo Javé (Senhor Deus)para referir-se a Deus por que enfatiza neste capítulo o relacionamento entre Deus o Homem.

As narrativas são portanto complementares e nada indica que sejam originárias de autores diferentes. Além disso, vale notar que na época em que foi escrito Gênesis, todos os vizinhos de Israel tradicionalmente referiam-se a cada um de seus deuses por pelo menos dois nomes diferentes, chegando em alguns casos a atribuir três ou quatro nomes a um mesmo deus.

2. A autoria mosaica do Pentateuco

Muito se tem discutido sobre a autoria dos cinco livros chamados da Lei, Pentateuco ou Torah, no Antigo Testamento hebraico.Existem entretanto evidências tanto referências internas à Bíblia quanto externas, de natureza arqueológica e documental que demonstram que de fato Moisés foi o autor dos cinco livros. Os círculos liberais e neo-ortodoxos de estudo bíblico são os que negam esta autoria, baseados na chamada Hipótese Documentária, que afirma que Israel não possuía escrita antes da monarquia e que estes livros somente foram escritos após meados do século IX a.C.. Tais estudiosos se baseiam sobretudo no pressuposto de que não existem fatos sobrenaturais e que portanto as profecias bíblicas são meras referências a fatos históricos já ocorridos na época em que foram escritas.

Supostos anacronismos, como a referência à Ur como sendo uma cidade caldéia em Genesis 11:28 e 15:7; a referência à cidade de Dã em Gênesis 14:14, que só recebeu este nome depois da era mosaica ou a referência a Gerar, em Gênesis 20:1 como sendo uma cidade filistéia, quando supostamente os filisteus somente teriam começado a colonizar esta região após o século VII a.C.; parecem confirmar esta tese. Um estudo mais aprofundado da história dos textos bíblicos no entanto demonstra que os nomes de lugares que aparecem nos textos atuais às vezes não correspondem aos nomes originais dos textos copiados, por uma razão meramente cultural. Muitos escribas preferiam utilizar os nomes correntemente em uso, na sua época, do que os nomes originais, por uma simples questão de atualização. Quanto às referências à existência dos filisteus na Palestina antes de 2.050 a.C., no tempo de Abraão, não há evidências históricas que comprovem a impossibilidade deste fato. O fato de não existirem relatos históricos anteriores ao de Ramesés III, em 1190 a.C. sobre a presença dos filisteus naquela região não constitui prova de que jamais houve imigrantes filisteus de Creta na região da Palestina em época anterior a esta.

As objeções mais comuns como a citada no artigo, de que Moisés não poderia escrever, em Deuteronômio 34, o seu próprio obituário; são facilmente explicáveis pelo fato de que é comum, até os dias de hoje, a inclusão de obituários em obras de autores famosos. Este adendo geralmente aparece no final da obra e é assinado por seu autor. A diferença aqui é que o autor do obituário de Moisés não destacou o mesmo na obra e não se identificou, o que não invalida porém a autoria da obra.

Gênesis 36:31-43 é uma passagem bastante de explicação bastante controvertida. Enquanto alguns estudiosos sustentam que foi divinamente inspirada, outros aceitam a possibilidade de que tenha sido uma adição posterior, correspondente a 1 Crônicas 43:54.

O fato de alguns relatos de Gênesis serem semelhantes a outros relatos míticos anteriores, como o do dilúvio universal, presente em grande parte da mitologia antiga de outros povos, não significa que tenham sido incorporados no Antigo Testamento. O fato de o relato bíblico aludir a lendas e mitos mais antigos apenas atesta que estas lendas e mitos eram baseadas em fatos reais. O relato bíblico entretanto, é seguramente o único histórico e confiável, pois é amparado na inspiração divina.

Uma outra objeção comum, a de que às vezes a narrativa nestes livros é feita na terceira pessoa, referindo-se a Moisés, como em Êxodo e Números; também pode ser naturalmente explicada como uma convenção literária comum em autobiografias, do autor referir-se a si mesmo na terceira pessoa. Isto ocorre, por exemplo, na obra de Júlio César, Guerra Civil (A Guerra Alexandrina 75), em que ele expressa sua surpresa com o ataque inesperado das tropas de Pharnaces no Ponto, dizendo: “César ficou espantado diante desta incrível temeridade”. Os numerosos registros históricos sobre os reis egípcios e seus feitos eram normalmente escritos na terceira pessoa, exceto nos casos em que eram citadas pronunciamentos do próprio faraó.

A distinção feita Gênesis 7:2 entre animais puros e impuros, também é comumente citada como exemplo de comprovação de uma data mais tardia para a elaboração do livro, uma vez que esta distinção somente é estabelecida posteriormente, em Deuteronômio e Levítico. Este é também um argumento racionalista, pois o fato de tal distinção entre os animais não haver ainda sido estabelecida formalmente na época em que Gênesis foi escrito, não significa que Moisés não soubesse de sua existência, uma vez que era inspirado por Deus.

Finalmente, existe ainda a objeção quanto a uma repetição dos termos da Lei, recebidos de Deus por Moisés em Êxodo 20:1-17; 34:1-28 e novamente mencionados em Deuteronômio 5:6-21. Novamente aqui, uma leitura imparcial do texto revela que a Lei foi pela primeira e única vez outorgada a Moisés em suas ordenanças principais conforme 20:1:17 e nas demais ordenanças, conforme capítulos subseqüentes até o 24, durante um período total de quarenta dias e quarenta noites. Tendo Moisés entretanto se enfurecido com a infidelidade do povo, que durante a sua ausência festejou e adorou a um bezerro de ouro, destruiu em sua ira as tábuas da Lei que havia recebido de Deus (32:19). O capítulo 34 narra então novo retiro de Moisés ao Monte Sinai, onde Deus repetiu a ele as mesmas ordenanças, durante novos quarenta dias e quarenta noites, ao fim dos quais Moisés escreveu novamente as tábuas da Lei. Já em Deuteronômio 5, Moisés está diante de uma nova geração do seu povo, que não estava presente quando ele recebeu de Deus as ordenanças da Lei. Assim Moisés repete a esta nova geração essencialmente os mesmos termos da Lei, embora utilize para isto seu próprio discurso.

A chamada Hipótese Documentária foi uma teoria desenvolvida por Julius Wellhausen em 1895, e surgiu com o estímulo do lançamento da Teologia Bíblica (Biblische Theologie), por Wilhelm Vatke, discípulo de Hegel, em 1835. Wellhausen reformulou uma hipótese já existente do teólogo Karl H. Graf, que ficou conhecida como Hipótese Graf-Wellhausen e se tornou a base da crítica bíblica histórica na Europa e nos Estados Unidos. Segundo Wellhausen, o Pentateuco não é de autoria mosaica, mas a reunião de diversos documentos escritos por diversos autores, escritos em épocas distintas. Wellhausen afirma que o Pentateuco foi compilado a partir de quatro fontes históricas documentais básicas, que ele denominou J (Código Javista) e E (Código Eloísta), baseados em tradições orais; D (Código Deuteronômico), originário do período do reinado de Josias e P (Código Sacerdotal), originário do período pós-exílico.

A Hipótese Documentária, evidentemente, caso fosse verdadeira, destruiria não apenas a integridade da Bíblia como uma obra inspirada por Deus, mas também toda a base doutrinária do cristianismo, uma vez que lançaria em descrédito o testemunho evangélico de Jesus, no Novo Testamento, reconhecendo a autoria mosaica do Pentateuco. A Hipótese Documentária já foi contestada em seu próprio berço, a Europa. Muitas obras foram escritas condenando não apenas os conceitos, as sutilezas, mas também os seus fundamentos teóricos. Entretanto, os teólogos liberais e neo-ortodoxos indiscutivelmente a têm adotado como base de seu cristianismo humanista, no qual está claro não haver lugar para um Deus vivo e verdadeiro. Crer neste Deus não é fundamentalismo, mas uma questão de coerência com uma visão das Escrituras não restrita apenas às suas dimensões literária e histórica; mas focada essencialmente em sua dimensão espiritual, que é aquela em que Deus verdadeiramente se relaciona com o ser humano e através da qual ele realiza sua obra redentora.

3 – A violência de Deus

Não só os que não são cristãos, como também muitos cristãos, se sentem perplexos diante das narrativas bíblicas do Antigo Testamento, em que Deus ordena a Israel combater e eliminar muitos dos povos inimigos de sua nação. Como é possível, afirmam estes, que o Deus bom e compassivo do Novo Testamento seja o mesmo Deus irascível, cruel e vingativo do Antigo Testamento? Esta perplexidade demonstrada pelos incrédulos me causa no mínimo estranheza, pois os que a expressam parecem não compartilhar uma natureza física e biológica onde a violência é uma característica natural. A violência se tornou natural não por que seja inerente à natureza original da criação, mas devido à corrupção da criação divina, que perdeu o seu equilíbrio e a sua ordem originais.

Sendo Deus absolutamente justo e perfeito, o uso que Ele faz da violência é da mesma forma justo e portanto nada tem em si de condenável. A aparente contradição que muitos enxergam entre a mensagem de amor ao próximo e compaixão pregada por Jesus e a violência demonstrada por Deus no Antigo Testamento é fruto de uma lógica humanista que, por desconhecer esse Deus e a sua obra redentora, é incapaz de compreender a sua absoluta sabedoria e justiça.

Deus criou o ser humano com uma natureza justa e pura, à sua semelhança, mas o dotou de livre arbítrio desde a sua criação. Através do uso deste livre arbítrio entretanto, o ser humano decidiu se separar de Deus e viver segundo sua própria vontade e julgamento e com isto corrompeu a sua natureza original perfeita, afastando-se do amor de Deus, de sua sabedoria e da verdadeira justiça.

Deus entretanto não abandonou a sua criação à sua própria sorte, como crêem os deístas, mas desde então busca reconciliar consigo a humanidade, de forma a redimi-la de seus erros e reconduzi-la ao seu Reino, onde reencontraremos enfim a verdadeira vida e a bem-aventurança eternas.

Para isto, Deus adotou diferentes estratégias, conforme a resposta da natureza humana ao longo de sua história, aos seus apelos. No início desta história, a natureza humana se achava tão corrompida que foi necessário que Deus destruísse completamente a espécie humana sobre a terra, através de um dilúvio, para novamente permitir o seu renascimento e reprodução a partir do núcleo de uma única família, considerada por Deus digna de tal feito.

Mais tarde, no início da história do povo judeu, nação escolhida por Deus para iniciar o seu plano de redenção espiritual de toda a humanidade, a natureza humana era ainda bastante corrompida e Deus buscou educar aquele povo nos princípios básicos de disciplina, justiça e fidelidade espiritual. Deus introduz no meio daquele povo os seus mandamentos fundamentais e exorta Israel a obedecê-los, como requisito essencial para o estabelecimento de uma verdadeira comunhão com Ele. Os princípios de justiça ensinados por Deus nesta época ao ser humano ainda não são porém os princípios perfeitos pregados mais tarde por Jesus, mas princípios rudimentares, condizentes com a dureza do coração humano naquele tempo.

O primeiro e mais importante destes princípios fundamentais estabelecidos por Deus foi o da fidelidade espiritual a Ele. Naquele tempo, não só Israel, como também todos os demais povos à sua volta viviam em uma profunda promiscuidade espiritual, adorando e cultuando a vários deuses e entidades espirituais, cuja influência sobre aqueles povos era absolutamente perniciosa, escravizando-os à ignorância, ao egoísmo e à sensualidade, além de mantê-los em um estado de absoluta brutalidade e injustiça. Deus se manifestou a Israel como o único Deus, o verdadeiro Criador de todas as coisas, o Deus amoroso e compassivo, que para concretizar sua obra de redenção espiritual humana, requeria do seu povo apenas a sua fidelidade, no sentido de se afastar dos falsos deuses e das influências espirituais nefastas, obedecendo à sua Lei.

Israel relutava porém em responder ao chamado de Deus e abrir mão de suas inclinações politeístas, de seu orgulho individual, de suas paixões carnais e de seu egoísmo. Deus precisou assim demonstrar ao seu povo a gravidade daquela promiscuidade espiritual, que constituía o maior obstáculo para que Israel e o ser humano em geral pudesse se converter dos seus erros e tomar o caminho da santidade de da justiça, que conduz à salvação espiritual. Para ensinar a Israel a fidelidade espiritual, Deus afirmou ser necessário que o seu povo se mantivesse distante de qualquer comunhão espiritual com os povos politeístas à sua volta, evitando qualquer contato íntimo ou cultural com eles, tamanho era o mal causado pela influência deste politeísmo.

A violência utilizada por Deus ao ordenar o massacre de alguns destes povos, foi um recurso portanto absolutamente necessário para que Israel pudesse assimilar os princípios básicos espirituais de santidade e de fidelidade espiritual. Deus poderia simplesmente ter transformado a natureza espiritual do seu povo, de forma a torná-lo fiel a Ele, mas estaria desta forma violentando o livre arbítrio humano e transformando a sua criação em meras marionetes sem vontade própria. Esta violência foi portanto um recurso extremo utilizado por Deus, perfeitamente justo e condizente com seus propósitos soberanos, e que constituía naquele tempo a única forma pela qual o ser humano poderia aprender o princípio fundamental da fidelidade espiritual.

A violência utilizada por Deus no início de sua obra redentora de modo algum autorizou, contudo o ser humano a recorrer, em seu nome, depois da nova aliança firmada através de Cristo, a qualquer forma de violência; para impor quaisquer princípios espirituais a outros povos ou indivíduos, como supôs a igreja em seus primórdios, pelo autoritarismo que caracterizou a queda espiritual várias de suas lideranças.

A linguagem utilizada por Deus no Antigo Testamento, que nos transmite hoje a impressão de um Deus de caráter belicoso, vingativo e ciumento, é apenas reflexo da natureza humana, através da qual Deus se expressou ao revelar ao mundo a sua mensagem, por meio do povo judeu. Deus escolheu, desde o início de sua obra redentora, se relacionar com o ser humano de uma forma humana e pessoal, de modo a que pudesse ser facilmente compreendido por todos os seres humanos, com suas vicissitudes e limitações, características de uma natureza tornada imperfeita e limitada pelo pecado.

O Deus cristão não é o deus idealizado pelas religiões em geral, que se mantém acima de à sua criação, imponderável e imperturbável diante do universo, mas um Deus que anseia pela redenção espiritual desta criação e que, ao mesmo tempo que demonstra este anseio; ao exortar a humanidade a se converter de seus maus caminhos e buscar a santidade e a justiça, se inclina até esta humanidade e se revela a ela de forma pessoal e amorosa. Este amor de Deus pela sua criação é revelado mais tarde em sua plenitude através de Jesus, o seu filho unigênito, que manifesta a expressão humana de Deus em sua mais perfeita forma.

Quem Escreveu a Bíblia – Parte 2/2

4 – O cânon bíblico

Uma das noções expressas pelo autor do artigo de Superintessante, a de que o estabelecimento do cânon bíblico, ou seja a relação dos livros que viriam a compor a Bíblia, teria sido uma imposição arbitrária da igreja católica romana, é também uma crítica bastante comum entre os adversários do cristianismo mas é também superficial e totalmente infundada.

Embora o Cânon Hebraico de 39 livros do Antigo Testamento, só tenha sido realmente fixado no Concílio judaico de Jamnia em 90 d.C. já por volta de 400 a.C. ele estava praticamente completo. Havia duas seções principais: a lei e os profetas. Quase todos os livros distribuídos entre as duas seções são referidos no Novo Testamento como as Sagradas Escrituras. A igreja católica romana estabeleceu no século IV o seu cânon, baseado no chamado cânon alexandrino, que incorporava ao tradicional cânon hebraico mais sete livros, chamados deuterocanônicos. A Reforma Protestante entretanto, decidiu manter o cânon hebraico de 39 livros instituído no Concílio de Jamnia.

A formação do cânon do Novo Testamento foi iniciada pela igreja primitiva, no primeiro século da era cristã e somente veio a se concretizar no século IV, quando já havia um consenso geral a respeito do mesmo. No início da era cristã, havia uma multiplicidade de textos e doutrinas cristãs, muitas delas contraditórias. A igreja necessitava portanto de identificar, entre todos os textos religiosos em circulação, aqueles que eram verdadeiramente fiéis aos ensinamentos de Jesus e dos seus apóstolos, tanto pelo motivo doutrinário quanto por razões políticas, sobretudo depois que o imperador Diocleciano, em 303, ordenou que fossem destruídas todas as Escrituras.

A formação do cânon do Novo Testamento iniciou-se no primeiro século da era cristã, como demonstram as práticas vigentes na época de copiar e distribuir as cartas apostólicas. Conforme afirma Norman Geisler:

“Já havia nos tempos do Novo Testamento algo parecido com uma declaração de cânon das Sagradas Escrituras, aprovada tacitamente, circulando pelas igrejas. De início nenhuma igreja detinha todas as cartas apostólicas, mas a coleção foi crescendo à medida que se faziam cópias autenticadas pela assinatura dos apóstolos ou de seus emissários. Não há dúvidas de que as primeiras cópias das Escrituras surgiram dessa prática de fazer que circulassem. À medida que as igrejas foram crescendo, a necessidade de novas cópias foi-se tornando cada vez maior, pois mais e mais congregações desejavam ter sua compilação para as leituras regulares e para os estudos, ao lado das Escrituras do Antigo Testamento.”

[...]

“As primeiras igrejas foram exortadas a selecionar apenas os escritos apostólicos fidedignos. Desde que determinado livro fosse examinado e dado por autêntico, fosse pela assinatura, fosse pelo emissário apostólico, era lido na igreja e depois circulava entre os crentes de outras igrejas.

“As coletâneas desses escritos apostólicos começaram a tomar forma nos tempos dos apóstolos. Pelo final do século I, todos os 27 livros do Novo Testamento haviam sido recebidos e reconhecidos pelas igrejas cristãs. O cânon estava completo, e todos os livros haviam sido reconhecidos pelos crentes de outros lugares. Por causa da multiplicidade dos falsos escritos e da falta de acesso imediato às condições relacionadas ao recebimento inicial de um livro, o debate a respeito do cânon prosseguiu durante vários séculos, até que a igreja universal finalmente reconheceu a canonicidade dos 27 livros do Novo Testamento.”

Desta forma, fica claro que a igreja não criou um cânon arbitrário segundo os seus próprios critérios de ortodoxia doutrinária, mas utilizou como parâmetros para formação deste cânon os princípios doutrinários e os textos considerados legítimos e autênticos pelos próprios judeus, no caso do Antigo Testamento, e pelos próprios apóstolos, nos primórdios da era cristã, no caso do Novo Testamento.

5 – Alterações textuais e conflitos doutrinários

Se Deus dependesse apenas do engenho e da diligência humanas para divulgar a sua Palavra, ela provavelmente já teria sido sepultada pelo tempo, em meio aos incontáveis massacres e invasões sofridos por Israel, e das inúmeras interferências políticas e ideológicas que marcam a história da humanidade.

A mensagem de Deus para a humanidade teria também se perdido, desde o ato inicial de sua inspiração a seus primeiros escritores, até as inúmeras traduções de que dispomos nos dias atuais, a ponto da sua completa descaracterização; devido às falhas e interferências humanas sem dúvida ocorridas no processo de sua reprodução, ao longo de mais de dois milênios. Entretanto, o fato de dispormos hoje da Palavra de Deus em uma forma que mantém de um modo espantoso no Textus Receptus o seu mesmo conteúdo original dos manuscritos mais confiáveis, é uma prova de que o processo histórico que caracterizou a elaboração deste texto e suas traduções para nossos idiomas atuais não foi um processo meramente natural de crítica e estudos lingüísticos, mas antes de tudo uma obra sobrenatural, dirigida por Deus.

Deus permitiu e permite a ocorrência de alterações e erros nos processos de cópia e tradução de sua Palavra, por que a transmissão de sua mensagem à humanidade foi e sempre será feita através de seres humanos; mas também por que ela foi e será sempre preservada por Ele, não por meio do talento e da fidelidade dos homens que a escreveram e que a manuseiam, mas apesar de todas as deficiências e interferências humanas.

As alterações de texto encontradas nos manuscritos do Antigo Testamento são relativamente raras, pelo fato de que em sua época havia uma única tradição de elaboração destes manuscritos, os quais eram produzidos segundo regras rigorosas de exatidão.

As alterações encontradas nos manuscritos do Novo Testamento são mais numerosas, devido ao maior número de cópias não oficiais que foram produzidas. A crítica textual reconhece basicamente dois tipos de erros, os intencionais e os não-intencionais. As variantes do segundo tipo são mais comuns, causadas por falhas na divisão de palavras, uma vez que nos manuscritos as palavras não eram separadas umas das outras. Omissões, inversões ou repetições de letras e palavras, são também padrões de erros comuns encontrados. Além destes, haviam erros decorrentes de má audição, no caso de textos copiados por ditado oral e os erros de memória, quando o escriba se esquecia de uma palavra e a substituía por um sinônimo. Haviam ainda erros simples de grafia, causados por um estilo imperfeito de escrita ou acidentes durante o processo, devido a más condições ambientes e cansaço. Todos estes erros entretanto são pouco significativos e facilmente identificáveis através de exame crítico.

Os erros intencionais , embora sendo geralmente eram motivados por boa fé são mais graves, pois alteram o conteúdo original dos textos, adicionando ou suprimindo às vezes passagens inteiras. Um tipo de variante comum deste tipo eram as adaptações feitas pelos copistas de estilos lingüísticos, conforme a tradição escritural da época. As alterações litúrgicas são típicas dos lecionários, como o resumo de um texto para uso exclusivo no culto, que no entanto passava a incorporar o próprio texto, como foi o caso da chamada “doxologia” na oração dominical em Mateus 6:13. Eram comuns ainda as alterações para harmonização, quando o escriba tentava harmonizar uma passagem em um texto com a passagem correspondente em outro documento, como Atos 9:5-6, que foi alterado para concordar de forma mais direta com Atos 26:14-15. As alterações históricas ou temporais eram introduzidas com o fim de ajustar nomes, datas e horários conforme o escriba julgava ser a forma mais correta, como João 19:14, que foi alterado em alguns manuscritos onde se lê hora “terceira”, ao invés de hora “sexta”.

As alterações doutrinárias, enfim, eram introduzidas em sua maior parte para ajustar o texto à versão ortodoxa, como a referência à Trindade, em 1 João 5:7-8. Outros exemplos deste tipo de alterações são o acréscimo da palavra “jejum” à palavra “oração” em Marcos 9:29, o chamado final mais longo de Marcos 16:9-20 e a chamada perícope da mulher adúltera, em João 7:53 a 8:1-11 que alguns consideram tenha sido posteriormente interpolada ao evangelho de João. Embora não conste da maior parte dos manuscritos principais, ao traduzir a Bíblia para o latim, Jerônimo a incluiu por tê-la encontrado na maioria dos manuscritos de que dispunha para o exercício da tradução.

A alegação de que o suposto “caráter machista” apontado pelos críticos modernos nas cartas do apóstolo Paulo, onde ele afirma a condição de submissão da mulher à autoridade masculina tanto na igreja quanto na família teria sido introduzido no texto bíblico por algum escriba, é totalmente infundada.

A mesma posição é encontrada na primeira carta de Pedro aos cristãos da Ásia Menor. Antes de mais nada, os apóstolos não estão aqui criando nenhuma nova doutrina, mas apenas aplicando os princípios já estabelecidos por Deus em Gênesis. Quando Paulo e Pedro afirmam unanimemente que a mulher deve ser submissa ao homem, eles estão se baseando não em sua cultura patriarcal, mas no texto bíblico que declara a ordem da criação (Gênesis 2:18-25) e a conseqüente relação de dependência natural da mulher em relação ao homem:

“Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem.” 1 Coríntios 11.7-9

Não está implícito, contudo nas recomendações dos apóstolos nenhuma medida discriminatória das mulheres, como sendo inferiores aos homens. O próprio Paulo reconhece que, no sentido espiritual, a dependência entre homem e mulher é mútua, pois fomos todos criados por um mesmo Deus:

“Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus.” 1 Coríntios 11.11-12

Recomendo a todos que desejem se aprofundar no conhecimento da história bíblica, as obras de Norman Geisler, Introdução Bíblica, o seu Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” Bíblicas, e a excelente Enciclopédia de Temas Bíblicos de Gleason Archer. É necessário notar, como ressalta Geisler, que nenhuma doutrina cristã se baseia em algum texto sob objeção e que apesar de todas as alterações feitas aos manuscritos originais ou autógrafos, ao longo do tempo, a mensagem de Deus expressa através da Bíblia permanece intacta em sua essência e eficaz em seu propósito original. Geisler faz um paralelo admirável entre o Novo Testamento e as obras clássicas da literatura universal:

“Quando se comparam os textos chamados variantes, do Novo Testamento, com outros textos de outros livros que sobreviveram desde a antiguidade, as conclusões são maravilhosas; pouco falta para que as consideremos espantosas. Por exemplo, embora haja cerca de 200 000 “erros” nos manuscritos do Novo Testamento, eles só aparecem em cerca de 10 000 trechos, e apenas cerca de uma sexagésima parte deles ergue-se acima do nível das trivialidades. Westcott e Hort, Ezra Abbot, Philip Schaff e A. T. Robertson avaliaram com o máximo cuidado as evidências e che¬garam à conclusão de que o texto do Novo Testamento tem pureza superior a 99%. À luz do fato de haver mais de 5.000 manuscrítos gregos, cerca de 9.000 versões e traduções, as evidências da integridade do Novo Testamento estão fora de questão.

“Isso é válido, sobretudo, quando consideramos que alguns dos maiores textos da antiguidade sobreviveram em apenas um punhado de manuscritos. Quando se compara a natureza, ou a qualidade, desses escritos com os manuscritos bíblicos, estes ficam em posição audaciosamente saliente no que concerne à integridade. Bruce M. Metzger fez um excelente estudo da Ilíada, de Homero, e da Mahãbhãrata da índia, em sua obra Chapters in the history of New Testament textual criticism [Capítulos da história da crítica textual do Novo Testamento]. Em seu estudo, o autor demonstra que a corrupção textual desses livros ditos “sagrados” é muito maior do que a que acometeu o Novo Testamento. A Ilíada é particularmente cabível para esse estudo, por ter tanta coisa em comum com o Novo Testamento. Depois do Novo Testamento, a Ilíada é a obra que tem o maior número de manuscritos disponíveis hoje, mais que qualquer outra obra (453 papiros, 2 unciais e 188 minúsculos, ou seja, 643 no total). À semelhança da Bíblia, essa obra foi considerada sagrada, sofrendo mudanças textuais, e seus manuscritos em grego também passaram pela crítica textual. Enquanto o Novo Testamento apresenta cerca de 20 000 linhas, a Ilíada tem cerca de 15 000. Apenas 40 linhas (cerca de 400 palavras) do Novo Testamento inspiram dúvidas, mas 764 linhas da Ilíada estão sob questionamento. Portanto, 5% da Ilíada sofreram corrupção, contra menos de 1% do Novo Testamento. O poema épico nacional da índia, Mahabharata, sofreu um processo mais grave ainda de corrupção. É cerca de oito vezes maior que a Ilíada e a Odisséia juntas, com cerca de 250 000 linhas. Dessas, cerca de 26 000 linhas estão corrompidas textualmente, i.e., pouco mais de 10%.

“Assim é que o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior de manuscritos, mais que qualquer outro livro da antiguidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não. Até mesmo o Alcorão, que não é livro antigo, pois originou-se no século VII d.C., sofreu o processo de aparecimento de grande número de variantes que precisaram da revisão de Orthman. De fato, ainda existem sete modos de ler o texto (vocalização e pontuação), todas baseadas na revisão de Orthman, que se fez cerca de vinte anos após a morte do próprio Maomé.”

Sabedoria e Humildade

“Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra.”  Oséias 6:3

O ser humano possui uma característica intelectual que revela, de forma emblemática, a sua natureza egocêntrica e a sua mais absoluta falta de sabedoria. As pessoas em geral tendem a formar opiniões acerca de uma determinada questão com base apenas em algumas informações, às quais agregam os seus valores pessoais já formados. É lamentável e assustador perceber entretanto a dedicação com que se aferram  a estas opiniões preconcebidas, como se fossem para elas a verdade absoluta.

Quando desafiados, tendemos a buscar mais informações que venham a confirmar o nosso ponto de vista já estabelecido, de forma a demonstrar o erro de nosso opositor. Raramente nos damos ao trabalho de estudar, de forma imparcial e isenta, os diversos lados da questão, de forma a buscar evidências realmente honestas da solução mais provável para uma determinada questão. Um escritor de quem já não me lembro, certa vez propôs uma estratégia para conduzir uma discussão honesta sobre qualquer assunto. A estratégia consistia em provar que o opositor estava correto, isto é, ao invés de se apegar ao seu próprio ponto de vista, cada participante de uma discussão deveria tentar provar que o ponto de vista de seu opositor estava correto, e não o seu. Partindo desta suposição, ambos deveriam então testar esta hipótese com base em considerações do tipo “se…então”;  até chegar assim à verdade.

A questão da parcialidade e da superficialidade são a base dos preconceitos e a maior barreira para o entendimento humano, em quaisquer questões. O orgulho, a vaidade e a ignorância continuarão sempre dividindo os seres humanos segundo suas crenças e opiniões. Estas divisões não se limitam entretanto apenas aos incultos, mas caracteriza até mesmo os círculos acadêmicos da ciência e da filosofia. O ritmo de vida frenético da sociedade ocidental, sobretudo após a era moderna, tem contribuído sem dúvida para agravar esta situação, pois se por um lado se disponibiliza um volume cada maior de informações para um maior número de pessoas, paradoxalmente se reduz o tempo disponível destas pessoas para acessar estas informações, e ainda mais o tempo disponível para criticá-las e refletir sobre elas.

Torna-se assim mais prático escolher uma posição, com relação a qualquer questão; com base em valores pessoais, na opinião geral e em algumas informações ao acaso, do que se dar ao trabalho de estudar e investigar a fundo o assunto. Isto porém pode ter consequências imprevisíveis, pois muitas pessoas somente se dão conta tardiamente em suas vidas, de que a opinião a que tanto se apegaram por tanto tempo a respeito de um determinado assunto estava equivocada e que por este motivo cometeram vários erros.

Evidentemente, não dispomos de tempo suficiente para nos dedicarmos a estudar muitas questões acerca de assuntos políticos, econômicos, artísticos, culturais e científicos. Os assuntos de ordem prática que envolvem a nossa vida em sociedade já requerem uma grande dedicação. Quando muito nos debruçamos um dia ou outro sobre alguma questão acerca de saúde, alimentação e legislação, de modo a obter um conhecimento mais profundo acerca de problemas que nos afetam de forma urgente e direta no cotidiano. Quanto aos demais assuntos, geralmente adotamos as opiniões divulgadas pela mídia, que é um porta-voz da ciência e da ideologia das classes dominantes de nossa sociedade.

O perigo desta atitude no entanto, é que ela nos leva normalmente a relegar como secundários determinados assuntos que são na verdade essenciais, e nos faz crer que são irrelevantes ou que não são de nossa alçada questões que na verdade são vitais. Isto ocorre por exemplo com a banalização, pela mídia, da violência social e política, da miséria, da ignorância e da sexualidade humanas. Esta banalização nos leva a negligenciar assuntos de grande importância, como fossem naturais, como se não nos dissessem respeito ou como se fôssemos impotentes para fazer qualquer diferença em relação aos mesmos.

O maior destes equívocos entretanto acontece quando negligenciamos a religião como algo sem importância, ou como um assunto sobre o qual seria impossível chegar a qualquer consenso, considerando portanto legítima qualquer posição que se venha adotar. Formam-se assim os velhos chavões sobre o tema, como “todos os caminhos levam a Deus”; “Jesus te ama”; “ninguém é dono da verdade”; “futebol e religião não se discute” e outros . A maioria das opiniões expressas normalmente pelas pessoas com relação à religião são superficiais e baseadas e informações errôneas e infundadas.  Não deveria causar surpresa portanto o fato de as discussões sobre religião frequentemente terminarem em desavenças, agressões, insultos e servirem para classificar pessoas como sendo “ignorantes”; “hipócritas”; “moralistas”; “depravadas”;  e “infiéis”; quando não acabarem simplesmente em brincadeiras e piadas.

Entretanto, nenhum outro assunto é mais relevante ou urgente para o ser humano do que as questões relativas à espiritualidade. A falta de reconhecimento pela ciência da existência de uma dimensão espiritual da realidade não deveria servir como desculpa para negligenciar este assunto. Tampouco a diversidade de religiões e crenças existentes no mundo deveria desestimular o nosso interesse pela busca da autêntica espiritualidade. A nossa atitude com relação à espiritualidade é tão fundamental que determina todas as nossas demais atitudes com relação à vida, tanto neste mundo quanto após a morte. A realidade espiritual está no cerne das mais pungentes questões acerca da origem, da essência  e do destino final de nossa existência.

O cristianismo afirma, há mais de dois milênios; que existe apenas um caminho que conduz a Deus e à vida espiritual plena e bem-aventurada e que este caminho é Jesus Cristo, Deus feito homem, que veio ao mundo tornar possível a nossa definitiva e verdadeira redenção espiritual. O cristianismo afirma também que existe uma única verdade espiritual absoluta, e não apenas noções relativas e subjetivas da verdade; que esta verdade absoluta foi revelada aos seres humanos primeiramente através do povo judeu e é proclamada ao mundo deste os tempos de Cristo, através das Escrituras. O cristianismo afirma ainda que houve apenas uma única revelação da verdade absoluta à humanidade e que nenhuma revelação de caráter universal ocorreu antes ou depois dela. Por seu caráter único e exclusivo, o cristianismo tem sido taxado pelos descrentes como intolerante e questionado quanto à sua alegação de ser o único caminho para Deus.

O cristianismo tem sido atacado desde sua origem, de muitas formas, por aqueles que se recusam a aceitar a existência de uma única religião verdadeira. A Bíblia e as igrejas cristãs têm sido o alvo frequente destes ataques, fundamentados ou não, que buscam apontar no cristianismo erros e falhas que demonstrariam que a fé cristã é uma fé como qualquer outra, e portanto equivalente a qualquer religião existente. Entretanto, é necessário notar que a única coisa comum entre o cristianismo e as demais religiões é a humanidade dos seus praticantes, à qual se devem portanto, todas as falhas e defeitos atribuídos à doutrina cristã. Esta doutrina em si mesma, nenhuma falha tem e não se relativiza a nenhum tempo ou cultura, mas é eterna e universal, pois foi inspirada por Deus.

Antes portanto de se desprezar ou atacar a priori a fé cristã sob quaisquer alegações preconcebidas, vale a pena dedicar o maior tempo possível ao estudo aprofundado de sua história, como também ao estudo da Bíblia e de sua história, de forma verdadeiramente isenta e imparcial. Da mesma forma, todo cristão deveria se dedicar sinceramente ao estudo aprofundado não só do cristianismo, mas também das outras religiões, de modo a consolidar a sua fé.

Sejamos sábios e sensatos de forma mínima o suficiente para que não venhamos a fundamentar nossa atitude em relação à vida e à nossa própria existência em meros chavões ou idéias preconceituosas e mal informadas. Sejamos humildes o suficientes para confiar o nossa vida espiritual não apenas à nossa própria razão e julgamento; mas para confessarmos a Deus a nossa impotência intelectual para conhecê-lo e para nos apresentarmos perante ele como crianças, de modo que venhamos assim a conhecer a Cristo e reconhecê-lo como nosso único e suficiente salvador.

“Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

Mateus 18:2-3

Uma Igreja Para os Jovens

Uma série da TV norte-americana chamada My Wife and Kids, importada pelo Brasil com o título Eu, a Patroa e as Crianças, é uma comédia do gênero conhecido como sitcom ou comédia do cotidiano. Essa série ridiculariza o perfil do adolescente evangélico através de um personagem que luta desesperadamente contra os seus instintos sexuais, e que sob influência da namorada, se embebeda e se entrega a toda sorte de desvarios.

Esta é apenas uma das situações utilizadas pela mídia para promover o descrédito dos princípios cristãos; que são desta forma, relegados ao ridículo e ao absurdo. A psicologia humanista não reconhece a possibilidade de qualquer indivíduo superar os seus instintos, mas apenas o de controlá-los até certo ponto ou, conforme postula a psicanálise, o de sublimá-los, ou seja, convertê-los em atividades que substituem o seu propósito original por um propósito socialmente aceitável, através da atividade artística, do trabalho artesanal ou outras semelhantes.

Entretanto, o cristianismo afirma que não somente é possível, mas necessário, que o indivíduo vença os seus próprios instintos; de forma a submetê-los a leis não mais determinadas apenas por mecanismos fisiológicos de estímulo e reação, mas pelos princípios espirituais que são transmitidos através do Espírito de Deus. Esta transformação psíquica ocorre através do renascimento espiritual do cristão, que consiste em sua plena renovação íntima, operada mediante a sua fé e pelo poder de Deus agindo diariamente em sua vida. Este processo transforma a natureza humana egoísta e corrupta do indivíduo em uma natureza pura e verdadeiramente altruísta, capaz de amar incondicionalmente, fiel à justiça divina e disposta a servir. Esta não é entretanto uma transformação instantânea ou automática, e requer a perseverança do cristão no caminho ao qual ele se converteu, para que ele possa efetivamente vencer a si mesmo.

Reconheço portanto que o fato de um jovem cristão verdadeiramente nascer de novo e vencer a si mesmo é um milagre ainda maior que a conversão de um adulto ao cristianismo. Os jovens vivem a plenitude de suas vidas, estão normalmente cheios de vigor e de vontade de inovar, de empreender e de se realizar pessoalmente, de forma independente e autônoma. Os seus instintos são naturalmente aguçados e cada vez mais estimulados por uma sociedade que valoriza absurdamente a sensualidade, o hedonismo e o orgulho pessoal. Os jovens e adolescentes valorizam absurdamente tudo que é novo, têm sede de mudança e de transformação. Por isto é difícil para eles compreender o fato de que a mensagem de Deus na Bíblia é atemporal, imutável e completa. As lutas que um jovem cristão precisa enfrentar diariamente para viver uma vida realmente cristã são realmente terríveis, por isso meu coração se rejubila e louvo a Deus quando encontro adolescentes e jovens cristãos vitoriosos; verdadeiros servos de Deus, que honram e glorificam o seu nome através de suas vidas.

Entristeço-me entretanto, ao constatar que por outro lado, muitos jovens também fracassam em sua vida cristã; por não experimentarem uma verdadeira conversão de vida, ou – o que é mais comum – por não encontrarem em suas famílias ou em suas igrejas o apoio espiritual necessário para seu fortalecimento e crescimento espiritual. Através da minha experiência pessoal, pude constatar que a falta deste apoio é maior no sentido prático que no sentido doutrinário. A maior parte dos jovens que fracassa em sua vida cristã abandona a igreja e a fé simplesmente pelo fato de não perceber uma verdadeira coerência entre aquilo é pregado sob a forma de doutrina e aquilo que é efetivamente praticado em seu lar ou na igreja que freqüentam.

O maior empecilho alegado pelos jovens para a sua integração na igreja tem sido o fato de que em geral, eles não conseguem comprovar que o cristianismo é algo cuja viabilidade é demonstrada na vida dos cristãos com quem eles convivem. Os adolescentes e os jovens têm, em certos aspectos, uma psicologia muito próxima da psicologia de uma criança. Não se pode ensinar a um jovem um comportamento que ele não pode ver comprovado na prática, o que é, aliás, bastante saudável. Por isso, alguns evangelistas têm adotado como estratégia para atrair os jovens para a igreja, o seu envolvimento em atividades comunitárias de ajuda mútua, em mutirões ou forças-tarefa de auxílio a crianças com problemas escolares, no reparo e construção de moradias, na limpeza de áreas compartilhadas pela comunidade entre outros.

Quando este tipo de atividade é praticado apenas por razões humanitárias, existe somente um ganho material e psicológico para todos os envolvidos, mas quando estas atividades são associadas ao Evangelho cristão, é produzido, além destes, o fruto principal que é o crescimento espiritual.

Não deixo de lamentar, todos os dias, a deplorável condição da maioria de nossos jovens, aliciados para vícios como a prostituição, as drogas (socialmente aceitas ou não), a violência e a todo tipo de entretenimentos, moralmente e espiritualmente degradantes. Sei que este estado de coisas não pode ser totalmente evitado, pois sempre existirão aqueles que são filhos deste mundo e, portanto morrerão com ele.
Entretanto, muitos que são filhos do Reino estão enredados nestes abismos porquê não conhecem a luz, porquê não vêem uma saída.

Uma igreja realmente viva e comprometida com a evangelização tem como objetivo prioritário, assim como Jesus, buscar os perdidos e os desgarrados e não em acomodar os que já estão salvos. Buscar meios de apresentar Cristo prioritariamente aos jovens, mais passíveis de serem seduzidos ou confundidos pelo mundo que os adultos e idosos; supostamente dotados de maior sensatez e discernimento. Buscar meios de canalizar a energia destes jovens para a construção do Reino de Deus e não para a glorificação das paixões materiais.

Os meios mais eficazes para isto não são simplesmente a pregação da doutrina, os shows de música gospel e as performances teatrais em praças públicas, como muitos acreditam. Se quisermos criar meios para que o Espírito de Deus possa produzir conversões verdadeiras, não podemos dizer a um adolescente ou a um jovem que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos se não mostrarmos a ele como fazemos isso em nossas vidas. Não podemos conduzir os jovens a Cristo se nós mesmos não formos verdadeiramente cristãos.

Quando Jesus respondeu ao jovem rico que o perguntou sobre o necessário para herdar a vida eterna, Ele não apenas lhe ordenou cumprir os mandamentos básicos, mas mostrou a ele também como demonstrar, na prática, que ele estava sinceramente decidido a herdar a vida eterna e que amava a Deus e a seu semelhante e não estava apenas interessado em obter o melhor dos dois mundos: “vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me”. Além disso, Jesus testemunhava claramente através de sua própria vida tudo aquilo que pregava. Confrontado com esta escolha eminentemente prática, aquele jovem revelou ali a verdadeira natureza de seu coração.

Jesus também nos mostrou, de forma prática, como receberá e reconhecerá aqueles que realmente fazem parte de sua igreja:

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mt 25:34-36)