A Lei da Palmada
dezembro 19, 2011
A filosofia humanista que tem norteado os rumos da civilização ocidental produziu no Brasil mais uma de suas preciosidades. Foi aprovada na Câmara Federal uma lei bastante curiosa, que proíbe qualquer tipo de violência praticada pelos pais em relação a seus filhos.
Digo curiosa não apenas pelo seu teor, mas por que ela se coloca na contramão da política liberal que tem caracterizado a postura das instituições governamentais com relação à vida dos cidadãos. Rejeita-se por exemplo, por um lado, toda e qualquer forma de censura dos meios de comunicação, quanto ao conteúdo dos produtos da mídia e obras de arte em geral.
Advoga-se também a liberação da comercialização de drogas, por que segundo essa ideologia, não cabe ao Estado interferir nas escolhas da sociedade civil.
Entretanto, o Estado acha-se no direito de interferir na forma como os pais educam os seus filhos, em nome de uma pretensa proteção da criança, como se já não houvesse uma legislação específica para este fim.
A chamada Lei da Palmada não é apenas ideologicamente contraditória, mas peca também ao não discernir entre a agressão física e uma simples palmada ou puxão de orelha.
A filosofia humanista abomina toda e qualquer forma de violência, por que está essencialmente divorciada da lei de Deus. Para horror dos seus defensores, a Bíblia mostra claramente que em diversas ocasiões Deus recorreu a medidas violentas, em seu relacionamento com o povo eleito, com o objetivo não simplesmente de punir, mas de corrigir os desvios morais e espirituais de uma nação.
Ignora também essa ideologia que a própria natureza é em si mesma violenta e que, portanto, a violência não é apenas um produto abominável da degeneração de caráter do indivíduo ou uma patologia da natureza humana.
O proclamado bordão pedagógico humanista “violencia não educa”, é apenas uma meia verdade e merece um exame mais detalhado de seus princípios.
O primeiro ponto a considerar é que a violência, a princípio, somente é legítima enquanto característica inerente aos fenômenos naturais, ou quando resultado da intervenção divina na história humana. Deus não autoriza o uso da violência pelo ser humano, por sua propria deliberação, sob nenhuma circunstância.
A justiça humana entretanto considera legitimo o uso da violência em algumas circunstâncias, como nas guerras, para a defesa da soberania nacional e como “legítima defesa”, em casos de ameaça à vida do indivíduo ou de seus familiares. O fato de a justiça humana legitimar estes comportamentos violentos entretanto, não significa que Deus os considere legitimos, mas apenas que os tolera, como inerentes à natureza humana.
Deus no entanto autoriza uma forma particular de violência, através da Bíblia, no caso específico da educação dos filhos. Em Provérbios, encontramos os repetidos preceitos:
O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga. (13:24)
A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela.(22:15)
Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá.(23:13)
A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe. (29:15)
Evidentemente, esta forma de violência paterna preconizada por Salomão deve ser distinguida da violência indiscriminada praticada por muitos pais psicologicamente doentes, levianos ou irresponsáveis, que submetem seus filhos a verdadeiros regimes de terror doméstico. Estes pais são movidos pela insensatez, pela ignorância e pela falta de amor a seus filhos, que são vistos muitas vezes como indesejáveis. Esta forma de violência, além de desumana, serve apenas para gerar adultos ressentidos, incapazes de amar e de interagir socialmente de forma colaborativa.
É inegável que a melhor forma de educação de nossos filhos é através do diálogo franco, da imposição de limites claros e razoáveis. É fundamental também, em qualquer situação, que toda e qualquer atitude corretiva do comportamento dos filhos imposta pelos pais seja sempre embasada em amor autêntico e também na coerência, pois os pais não podem exigir dos filhos uma conduta que eles própria contrariam.
O uso moderado da violência, assim como o chamado castigo (privação de regalias) como uma atitude enérgica de repreensão, pode e deve ser usado em casos específicos, em que a criança não responde aos métodos corretivos normais. Nisto peca gravemente a Lei da Palmada, ao não reconhecer as diferenças de personalidade existentes mesmo nos mais tenros anos da infância.
Enquanto algumas crianças, mais sensíveis e dóceis, reagem prontamente à mais leve repreensão verbal e se mostram dispostas a acatar os motivos apresentados pelos pais, mesmo que em algumas situações não possam entende-los; outras crianças, de índole rebelde e menos sensíveis, reagem de modo totalmente refratário a reiteradas tentativas racionais de repreensão.
Estas crianças refletem muitas vezes em seu comportamento problemas psicológicos pelos quais estão passando, que neste caso devem ser solucionados. Entretanto, na maioria das vezes elas tentam apenas impor uma personalidade voluntariosa e egocêntrica, o que requer portanto dos pais uma atitude mais enérgica, em situações em que o seu comportamento se torna intolerável.
A Lei da Palmada é portanto mais uma dessas leis descabidas e inúteis, que apenas fazem sentido para um pequeno grupo de intelectuais carentes de bom senso e como tal, está fadada ao esquecimento.
A pedagogia humanista talvez jamais venha a concordar com isto, mas entre a sabedoria humana e a sabedoria divina, eu fico com a divina, que inspirou o rei Salomão.
A Crise da Autoridade
dezembro 5, 2011
A cultura humanista e individualista da sociedade pós-moderna se caracteriza, entre outras coisas, pela subversão do conceito de autoridade.
Esta subversão nega os tradicionais modelos de autoridade, começando pela rejeição da autoridade divina e consequentemente, pela rejeição da autoridade moral e espiritual da Igreja cristã e das Escrituras bíblicas.
Como consequência desta atitude, são rejeitados em seguida a autoridade moral do Estado sobre a sociedade civil, a autoridade dos pais sobre seus filhos, dos maridos em relação a suas famílias e dos empregadores, em relação a seus subordinados.
O homem pós-moderno declara sua plena emancipação de qualquer forma de autoridade moral e espiritual, reivindicando sua absoluta autonomia em relação à sua própria vida. Esta atitude muitas vezes leva à rebelião em relação às instâncias de autoridade secularmente instituídas.
Um exemplo recente disto é o atual protesto dos estudantes da USP contra a permanência de uma unidade da Policia Militar no campus da universidade.A medida foi tomada após a morte de estudante nas dependencias do campus e após a constatação do uso indiscriminado de drogas pelos estudantes. A medida foi violentamente repudiada, taxada como fascista e se tornou alvo de acalorados protestos, dentro e fora do campus.
O apóstolo Paulo, já em seu tempo, havia comentado atitudes deste tipo:
“Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá.” (Romanos 13:2-3)
Este fenômeno social não se restringe ao mundo ocidental, mas atinge também até mesmo as estruturas sociais de nações orientais, tradicionalmente as mais rigidamente hierarquizadas.
Esta profunda mudança nos relacionamentos sociais é geralmente vista como um avanço, uma conquista dos novos tempos. Entretanto, ela é na verdade o núcleo de um novo e terrível processo de deterioração espiritual do ser humano, como jamais visto em sua história.Esta verdadeira crise do princípio da autoridade tem minado as instituições sociais mais fundamentais, como o governo, a família, a escola e as relações de trabalho.
O conceito de autoridade não é uma invenção humana, mas emana de um princípio espiritualmente estabelecido por Deus.Este princípio se expressa biblicamente através de um padrão fundamental, que permeia todas as Escrituras.
Este padrão pode ser sintetizado da seguinte forma: Deus criou o homem e sobre ele exerce sua autoridade soberana, como também sobre toda a sua criação. Deus exerce essa autoridade com amor e justiça e o homem obedece e ama a Deus.
Este padrão é extendido, a partir deste princípio espiritual primordial, a toda a criação, nos relacionamentos entre os governantes e a sociedade, entre patrões e empregados, entre marido e mulher e entre pais e filhos.
Evidentemente, o exercício, por Deus, do princípio da autoridade é perfeito, o que não ocorre com os homens.É comum o exercício abusivo da autoridade por aqueles que a detêm, como também os erros julgamento, as negligências e as falhas de caráter, inerentes à própria condição humana.
Entretanto, isso não dá ao homem o direito à desobediência e à rebelião.Tanto Jesus (Mateus 22:21) como os apóstolos (Romanos 13:1-7; Efésios 6:1-9; Colossenses 3:18-22; 1 Pedro 2:13-15,18; Hebreus 13:17) enfatizaram a necessidade de honrar e obedecer a toda forma de autoridade humana instituida.
A corrupção das instituições públicas e governamentais é apontada muitas vezes como justificativa para o descrédito e o repúdio a toda forma de autoridade instituída. Entretanto, precisamos nos lembrar que é a própria sociedade que está corrompida. Os políticos e autoridades corruptos saíram da mesma sociedade que os condena, e não de um outro país ou de um outro planeta.
Isto não significa, entretanto, que nos resta apenas cruzar os braços e nos conformar com a corrupção dos governantes e dirigentes, a cuja autoridade estamos sujeitos. Significa que cada cidadão deve lutar primeiramente não pela reforma ou mesmo pela derrocada das instituições, mas pela sua própria transformação interior, como indivíduo, para que assim a corrupção seja eliminada da sociedade em que vive. Gandhi,o grande ativista indiano, não era cristão, mas expressou uma ideia profundamente cristã, quando afirmou que cada um deve realizar em sua própria vida a mudança que deseja ver no mundo à sua volta.
Naturalmente o princípio espiritual da autoridade se aplica às instituições legitimamente estabelecidas, segundo a justiça humana. Assim, a autoridade exercida sobre uma nação, por um tirano que chegou ao poder pela força, não tem respaldo espiritual. Da mesma forma, não é legitima a autoridade de um amante sobre a sua companheira ou sobre os filhos gerados dessa relação.
É interessante notar também que, no caso de um lar em que apenas a esposa é cristã, a autoridade espiritual é conferida a ela, e não ao marido, até que este se converta (1 Corintios 7:13-14).
Todo indivíduo investido de autoridade deve ter plena consciência da responsabilidade que lhe advém em consequência disto. Como depositário do poder inerente a esta condição, ele deverá responder perante Deus por cada um de seus atos. O cristão deve buscar continuamente a restauração de seu caráter e a sabedoria divina, através do poder do Espírito Santo, para que possa exercer apropriadamente a autoridade da qual é investido.
O melhor exemplo do exercício legitimo da autoridade foi dado por Jesus. Jesus considerava a sua missão como a missão do Pai. Jesus reconheceu, se submeteu e honrou a autoridade do Pai. Por essa atitude Jesus recebeu a plena autoridade do Pai. Jesus ensinou com isso que o primeiro passo para exercer a autoridade é aprender a se colocar sob autoridade.
Consumo Emocional
novembro 17, 2011
O mercado de consumo utiliza, de forma cada vez mais intensiva, técnicas de publicidade e marketing, com o objetivo de promover o aumento do consumo, da forma mais generalizada possível.
Estas técnicas estão cada vez mais sofisticadas, e atualmente são capazes não apenas de gerar novas necessidades de consumo em todas as classes sociais e faixas etárias, como também de promover o chamado consumo emocional.
Através de técnicas de propaganda, é possível vincular uma marca ou produto a um determinado apelo emocional em um público específico, que passa assim a não apenas consumir, mas também a cultuar esta marca ou produto, como ícone representativo de um estilo de vida ou de uma ideologia.
A história da Apple Inc., talvez seja o exemplo mais emblemático de consumo emocional.O consumidor dos produtos da Apple não é motivado apenas por razões racionais, como qualidade ou superioridade tecnológica destes produtos – que em alguns aspectos é inferior a de seus concorrentes -, e tampouco pelo seu preço, mas sobretudo pelo seu apelo emocional e ideológico.
A Apple não inventou nada, apenas reciclou conceitos já existentes, de forma a torná-los mais práticos e esteticamente atraentes, sobretudo para um público jovem. Até mesmo a concepção do seu computador pessoal e a interface operacional foram recriadas pela Apple, a partir dos modelos originais da Xerox Corporation, na década de 1970.
O mantra de marketing de Steve Jobs, o principal responsável pelo sucesso destes produtos, era “o consumidor não sabe o que quer”, o que é apenas uma meia verdade. Na realidade o consumidor sabe o que quer: alem de características mensurávies como qualidade, praticidade e preço, quer também prazer, diversão, comunicação, ideologia e arte, tudo isso da forma mais exclusiva e pessoal possível.
Jobs sooube agregar a produtos já existentes no mercado, cujas funções entretanto eram extremamente restritas, funções adicionais que iam de encontro a estas necessidades implícitas do público consumidor, de uma forma extremamente harmoniosa e atraente e nisto consistiu a sua genialidade.
Jobs conseguiu associar as suas marcas a elementos intangíveis como inovação, sofisticação estética e exclusividade. Os produtos da Apple se tornaram simbolos de uma ideologia que prega, essencialmente, que pessoas realmente inteligentes e bem sucedidas não se confundem com a multidão e não se contentam com o que o mercado de massa oferece.
Esta é a mesma ideologia que leva um homem a comprar um carro sob medida, fabricado em uma linha de produção especial, ou que leva uma mulher a comprar um vestido único, assinado por uma grife de alta costura.
Entretanto, o consumo emocional não é um fenômeno exclusivo de classes sociais abastadas. Jovens, crianças e adolescentes de quaisquer classes sociais são especialmente suscetíveis a apelos emocionais publicitários, que vinculam certos produtos a determinados estilos de vida ou a ídolos e ícones culturais cultuados por sua comunidade, em um determinado momento histórico.
Estes vínculos são altamente dinâmicos, de forma a se adequar com rapidez às constantes mudanças dos valores e personagens cultuados pelo público alvo de cada tipo de produto.
As pessoas que são alvo das campanhas publicitárias que utilizam apelos emocionais, ou que criam necessidades artificiais de uso de certos produtos, estão muitas vezes totalmente conscientes dos motivos que as levam a consumir estes produtos. Entretanto, elas concordam, de forma tácita, em fazer parte deste jogo, simplesmente porque isto traz a elas uma certa satisfação e bem estar, pelos quais elas estão dispostas a pagar.
Esta é uma situação bastante perigosa, quando se leva em conta que os produtos envolvidos nem sempre são de boa qualidade ou saudáveis, como no caso de alimentos. Além disso, o consumo emocional ou frívolo, não motivado por uma necessidade real, leva o indivíduo a um processo de alienação da realidade à sua volta, em proporção direta ao grau de resposta positiva que ele oferece aos apelos de que é alvo.
Para preencher o vazio deixado pela perda dos valores cristãos, a sociedade cria necessidades inexistentes, como o entretenimento em tempo integral, que de certa forma ajuda a mitigar a corrosiva angústia causada por essa lacuna.
O sucesso dos chamados miniaplicativos, ou simplesmente apps, criados para smartphones e tablets, se deve sobretudo ao fato de que eles ajudam a manter o seu usuário completamente absorvido em uma atividade que ele chama de entretenimento. O que ele não percebe entretanto, é que esse entretenimento eletrônico bloqueia o seu senso crítico e a sua capacidade de reflexão; além de desvirtuar, com o uso constante, o seu senso estético e até mesmo a sua capacidade afetiva.
Neste sentido, não é exagero afirmar que os dispositivos eletrônicos que ocupam a cada dia um papel fundamental na rotina diária de um número cada vez maior de pessoas, tem transformado essas pessoas, de forma sutil, à sua própria imagem e semelhança.
Nascer de Novo
outubro 27, 2011
Há algum tempo atrás escrevi um texto que chamei A Usina. Nele eu abordava a dramática divisão psicológica que ocorre na vida dos novos cristãos, quando o novo convertido se vê subitamente envolvido em uma tremenda tensão espiritual, entre a sua antiga natureza, que ainda persiste nele, e a sua nova natureza, criada por Deus.
Comparei neste texto a interação entre estas duas naturezas a uma situação em que uma nova usina geradora de energia, mais moderna e segura, é construída para substituir a antiga, ultrapassada e cheia de defeitos. Durante o processo de crescimento espiritual cristão, a velha usina, que representa a sua velha natureza, é gradativamente desativada, enquanto que a nova usina, recém construída, que representa sua nova natureza, entra em atividade, até que substitui totalmente a antiga, que deixa assim de operar. Hoje refleti novamente sobre este assunto, enquanto pensava sobre a magnitude e as conseqüências do conflito que muitos cristãos vivem interiormente; entre estas duas identidades. A princípio, este é um fenômeno normal, que reflete o processo de crescimento da nova natureza que passa a existir na alma do cristão, e o declínio da velha natureza, que paulatinamente vai sendo sobrepujada, por uma nova consciência. Paulo via essa processo como uma verdadeira luta íntima, entre a carne e o espírito, pela prevalência sobre a natureza humana.
Este processo, entretanto, pode persistir, de forma bizarra, na vida de muitos cristãos, por toda a sua existência. Quando uma pessoa adota os valores cristãos, mas não passa por uma verdadeira conversão; ou quando ocorre uma conversão espiritual, mas não um renascimento espiritual; ela pode ficar indefinidamente presa em um permanente conflito psicológico, o que tem um efeito altamente nocivo sobre a sua vida.
A verdade é que a conversão cristã plena nem sempre ocorre no momento em que aceitamos a Jesus como nosso único Senhor e Salvador. Para muitos cristãos, a verdadeira conversão e o conseqüente renascimento espiritual somente ocorrem muito tempo depois, quando vimos a conhecer verdadeiramente a Deus e permitimos que Ele venha habitar em nosso coração. Para algumas pessoas entretanto, lamentavelmente, esses transformações cruciais de suas vidas nem chega a ocorrer, e o individuo se vê preso a um limbo, onde já não se identifica com seu antigo estilo de vida, mas também não vive plenamente o novo estilo de vida que escolheu. É como sair de um lugar para ir para outro lugar, mas nunca chegar, e passar a viver vagando pelo caminho.
Como isso é possível? Para entender esta trágica situação, é preciso compreender claramente em que consistem a conversão cristã e o renascimento espiritual que normalmente a acompanha.
Conversão é essencialmente uma decisão. Decisão motivada pela insatisfação real com um estilo de vida mundano e pecaminosos, pelo arrependimento sincero pelos erros cometidos e a firme convicção de estar disposto a se tornar um discípulo de Cristo. Com a conversão, o cristão recebe em seu coração a presença do Espírito Santo, que passa a habitar nele e a agir no sentido de orientá-lo segundo a vontade de Deus, e não mais segundo a vontade de seu eu. Além disso, o Espírito Santo cria nele, gradativamente, uma nova consciência; uma consciência cristã.
Este, entretanto, ainda não é o renascimento espiritual, que consiste na regeneração da mente e do coração humanos, de modo a que o individuo possa assumir a sua nova identidade como discípulo de Cristo. Para tanto, é necessário que o cristão entregue realmente toda a sua vida nas mãos de Deus, permitindo a Ele moldá-lo, como um oleiro molda um vaso novo, a partir do barro informe.
O que acontece na vida de muitas pessoas é que esses dois processos não ocorrem como deveriam ocorrer, seja por não ter havido uma verdadeira conversão, seja por não ter havido um renascimento espiritual. Isto cria na personalidade do indivíduo uma divisão, uma personalidade híbrida, que muitas vezes passa despercebida pelas pessoas com as quais ele se relaciona, até mesmo em sua igreja. Estas pessoas ainda vivem carnalmente e não são guiadas pelo Espírito de Deus. Elas dificilmente conseguem levar alguém a Cristo, as suas obras são ineficazes e não têm permanência. Buscam sempre as bênçãos de Deus, mas não buscam sinceramente a Deus. São cristãos mornos, também chamados cristãos nominais, cristãos religiosos ou falsos cristãos.
Esse cristão híbrido pode entretanto conviver indefinidamente com essa estranha divisão de sua psicologia. Separa a sua vida entre situações seculares e situações espirituais. As situações seculares são o tempo em que passa trabalhando, fazendo reparos na casa ou a manutenção do carro; o tempo que gasta com suas atividades fisiológicas e mesmo o tempo que passa com a família, com os amigos, se divertindo ou se entregando a atividades que lhe dão prazer. As situações espirituais são aqueles momentos que reserva para cultuar e adorar a Deus; seja na igreja, seja em reuniões domésticas, seja na privacidade de seus aposentos, onde se dedica à oração e ao estudo da Bíblia.
Sempre me intrigou o fato de que quando estava na igreja, sentia-me maravilhosamente perto de Deus; sentia a alegria de sua presença, a sua paz, o conforto da sua mensagem. Deixava a igreja sempre de modo totalmente diferente de como ali havia entrado. Entretanto, no dia seguinte tudo voltava ao “normal”; isto é, a mesma frustração, a mesma tristeza, os mesmos temores e preocupações do constituem a rotina diária. Por que esse contraste?
O que antes eu não podia explicar, pois achava que Deus deveria de alguma forma operar em mim um milagre que perpetuasse a beleza, o gozo e a plenitude daqueles momentos, hoje consigo compreender de forma absolutamente clara. A verdade é que eu não vivia uma vida de plena comunhão com Deus. Ele ocupava por assim dizer um nicho da minha vida, a que eu chamava de “o primeiro lugar”, mas durante a maior parte da minha vida eu reprimia a sua presença, preservando este nicho como algo precioso demais para se misturar com meu cotidiano. Apenas na igreja, nos momentos de oração e estudo e no convívio com pessoas cristãs eu me permitia realmente me relacionar com Deus.
Deus era um assunto que normalmente não fazia parte das minhas conversas com amigos, vizinhos ou parentes não cristãos e que eu mantinha no recôndito da minha privacidade, juntamente com os fatos mais íntimos da minha vida. Deus era um assunto que eu reservava apenas para aquelas pessoas com quem sentia alguma afinidade espiritual; não por me sentir constrangido ao falar nele, mas por julgar que para falar de Deus era necessária uma ocasião especial e um interlocutor especial; que fosse também cristão ou que demonstrasse possuir um espírito contrito, pronto para ouvir o chamado de Jesus e ser evangelizado.
Vivia assim uma vida dupla, composta de uma dimensão interior, espiritual e profunda, marcada pelo temor e por um contido e secreto amor a Deus; e uma dimensão exterior, prática e objetiva, através da qual eu me relacionava com o mundo à minha volta.
É mais comum do que se imagina as pessoas experimentarem não uma plena conversão espiritual, operada em seu coração, mas apenas uma conversão formal; ou seja, uma mudança intelectual de atitude em relação à vida; normalmente acompanhada de emoção e de sentimentos de culpa, mas não de verdadeiro arrependimento e conseqüente renascimento espiritual. Esta é uma das causas desta dicotomia psicológica, que cria no indivíduo a noção de que a vida secular e a vida espiritual são coisas diferentes e precisam ser tratadas de forma diferente.
Essa pessoa passa a pensar mais ou menos da seguinte forma:Deus é maravilhoso, mas quem entende mesmo de minha vida cotidiana é o velho eu, ele já tem o “jeito” para lidar com o dia-a-dia, com as coisas práticas e racionais, pois afinal ele aprendeu vivendo, e que experiência ele tem nisto!
Acredita que a Deus é preciso dedicar apenas as áreas mais nobres de sua vida, como a edificação de seus valores e princípios e a direção de sua vida espiritual. Por que envolvê-lo na mediocridade de seu cotidiano? Deus não precisa ir com ela ao supermercado. Entrega a Ele a direção de sua vida, mas apenas aquelas decisões cruciais, que ela não sabe tomar. Cada coisa em seu lugar: Quando vai para o trabalho, o melhor é deixar Deus em casa, junto de sua Bíblia, pois ora a ele todas as manhãs e pede a sua bênção. Afinal, ela já sabe tomar conta de si mesma!
Além disso, se precisar de sua ajuda, basta pedir e Ele logo virá em seu socorro. Foi ensinada a “fazer a sua parte” para que Deus faça a parte dele; como se Deus não fizesse parte de nosso pensar, de nosso querer e de nosso agir. Afinal, ela não precisa invocar a Deus para resolver aqueles problemas com seus fornecedores, ou aquele relacionamento difícil com o vizinho, ou ainda aquelas dificuldades financeiras normais de toda família. Não precisa de Deus para escolher o curso que vai fazer ou com quem vai se casar ou a casa que vai comprar.
No entanto, vivendo dessa forma ela cria uma vida cheia de altos e baixos, cheia de lacunas, de vazios às vezes; mas diz para si mesma que a vida de todo mundo é assim, nada que não possa ser resolvido com um bom filme, um jogo de cartas, um passeio no shopping, um bom papo com os amigos. Anda triste e apreensiva às vezes, mas quem não anda? Logo chegará o dia do culto na igreja e poderá então renovar as suas forças espirituais. O problema é que às vezes ela chega até a igreja com as suas reservas espirituais tão baixas, que nem mesmo consegue se recuperar.
Vive assim, servindo a dois senhores, sem perceber. Mas o mais grave é que também sem perceber, ela relega Deus ao segundo lugar em sua vida. Embora nominalmente o declare senhor de seus caminhos, quem dirige na prática as sua vida é o velho eu, o velho homem que insiste em viver nela. Existe na verdade uma grande diferença entre entregar efetivamente nossos caminhos ao Senhor, rendendo-nos à sua soberania sobre as nossas vidas; e levar esta vida dúbia, em que honramos a Deus com palavras e louvores, mas não com o nosso coração. Entoa o velho hino: “Vem espírito de Deus! o meu coração é o Teu altar”, mas na verdade o altar de Deus no coração dela está vazio.
O nosso sistema de relacionamento humano e espiritual é semelhante aos sistemas audiovisuais de telecomunicação, que utilizam ondas eletromagnéticas para transmitir uma programação a que temos acesso através do rádio e da televisão.
O relacionamento humano se daria; segundo essa analogia, em uma determinada faixa de frequências; enquanto que o relacionamento espiritual se daria em uma outra faixa de freqüências, mais elevada. Em seu relacionamento com o mundo, o cristão híbrido sintoniza com a faixa de frequências do mundo e em seu relacionamento com Deus, utiliza a faixa de frequências espirituais.
O problema é que quando vai para o trabalho, muda a faixa de frequência de sua mente para a faixa do mundo e assim se desliga de Deus. Ao entrar na igreja ou em seu quarto para orar, faz o contrário; isto é, se desliga do mundo e sintoniza apenas com Deus. Isto, porém faz com que desperdice um tempo enorme de sua vida longe daquele que é a própria vida, o nosso Criador e Senhor. O Deus do seu cotidiano se torna assim apenas uma espécie de ícone sagrado, excluído inteiramente de sua vida secular; por quem nutre um temor cerimonial e a quem recorre apenas em suas aflições e anseios.
Mas, na verdade, não é preciso que seja assim e nem deve ser assim. Não faz sentido perder a nossa sintonia com Deus quando desempenhamos atividades seculares; e nem precisamos deixar os nossos problemas seculares do lado de fora da igreja quando ali entramos para orar e cultuar a Deus.
Se verdadeiramente conhecermos a Deus e o amarmos, a ponto de que a sua presença venha a se tornar algo tão vital para nós como o ar que respiramos; então Ele já não será apenas um símbolo, um ser de quem ouvimos falar e a quem devemos adorar. Ele se revelará a nós então como o Criador, o Pai espiritual, o amigo e o eterno amado de nossas almas. Ele estará de tal forma entranhada em nossos corações; que os cultos na igreja, os momentos de oração e estudo; não mais serão momentos de nos encontrarmos com Ele, mas momentos de estar em plena intimidade com Ele; de celebrar a nossa comunhão com Ele; momentos de aprender com Ele e de lhe dar graças por suas dádivas em nossas vidas. Para isto entretanto, é preciso que tenhamos realmente nascido de novo, da água e do Espírito.
O pastor Márcio Valadão, da IBL de Belo Horizonte declarou certa vez, em uma de suas pregações: Ou Deus ocupa o primeiro lugar em sua vida ou Ele não ocupará o segundo. Em vão nos enganamos e julgamos enganar a Deus, crendo estar em comunhão com Ele; quando reservamos a Ele na verdade apenas o segundo lugar em nossas vidas a que chamamos, às vezes cinicamente, “o lugar mais nobre”. Deus, entretanto é senhor das coisas espirituais, mas precisa ser senhor também das coisas seculares, dos nossos prazeres, dos nossos negócios, e precisamos nos colocar em sua total dependência, mesmo nas mínimas coisas que fazem parte de nosso cotidiano.
Isto não é negar a nossa própria responsabilidade para com nossas decisões e nossos atos; é apenas o reconhecimento de que Ele é a própria essência de nossas vidas, o nosso fôlego vital, a luz dos nossos olhos, o calor do nosso sangue, assim como é a fonte de nossos sentimentos e anseios mais elevados. É Ele quem opera em nós “tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:13)
Na verdade, até experimentarmos o renascimento espiritual, nós mesmos preferimos, inconscientemente, viver desta maneira dual se não experimentamos uma autêntica conversão espiritual de vida. Viver sob o domínio do eu psicológico tem muitas desvantagens, como os altos e baixos emocionais a que estamos sujeitos; os temores, a angústia e a ansiedade em que nos vemos continuamente mergulhados; a insegurança e o desassossego causados pelas tribulações diárias.
Entretanto, intimamente reconhecemos nesse domínio egocêntrico certas vantagens às quais nos acostumamos; como certas reações automáticas que adotamos, diante de algumas situações que não requerem de nós nenhuma reflexão. Além disso, podemos nos deleitar em nossos pequenos hábitos e vícios, os quais nos transmitem uma sensação de paz e bem-estar. A idéia de confiarmos inteiramente o domínio de nossas vidas a Deus nos parece sem dúvida uma decisão demasiadamente ousada e assustadora. Afinal, isso implicaria em mudar radicalmente o nosso modo de viver.
Além de nos assustar, a idéia de consagrar totalmente as nossas vidas a Deus representa um desafio que muitos de nós não temos a coragem necessária para aceitar. Assim, julgamos não apenas natural, mas prudente, continuarmos dividindo a nossa consciência, como sempre fizemos, deixando “cada coisa em seu devido lugar”. Esta é, no entanto uma decisão enganosa, pois se na prática relegamos Deus a um segundo lugar em nossas vidas, não podemos dizer sinceramente como cristãos que estamos em Cristo e que Cristo vive em nós. A atuação de Deus em nossas vidas torna-se também parcial. Nossas orações às vezes são ouvidas, outras vezes não. Nossa fé é vacilante, como também a nossa fidelidade a Ele, pois na verdade servimos a um Deus a quem não amamos realmente.
Para amar alguém é preciso conhecer. Deus nos conhece e por isso nos ama, mas nós não o conhecemos. O livro Cantares de Salomão é um poema que narra o amor de um rei e de sua noiva. Nele, ambos elogiam os encantos um do outro e falam de sua ansiedade em se encontrar. Creio que nosso relacionamento com Deus deveria ser também de tal intensidade.
Quando amamos verdadeiramente, a imagem da pessoa amada não sai de nossa mente e estamos permanentemente em sintonia com ela, o que quer que estejamos fazendo. Aqueles que não nasceram de novo, no entanto, não conhecem a Deus o suficiente para amá-lo desta forma. Na verdade eles o temem mais que o amam, por que não o conhecem. É verdade que Deus se revela a nós de muitas maneiras, mas a melhor maneira de conhecer alguém ainda é pessoalmente. Podemos ir à casa de uma pessoa, sem que ela esteja presente e conhecer um pouco dela, através do que nos falaram a respeito dela, através de seus pertences, através de fotos e de seus escritos. Mas isso não traz a mesma profundidade de conhecimento que um convívio pessoal. Como, no entanto estabelecer esse convívio se somos carne; e Ele é Espírito, se somos sangue; e Ele é luz, se somos impuros; e Ele é santo?
Alguns místicos cristãos consagraram tanto as suas vidas a Deus que conseguiram alcançar um nível de convívio com Ele bastante profundo; algo bastante semelhante a um convívio pessoal. No mundo moderno, porém, estamos envolvidos de tal forma com as atividades seculares, que nos sobra muito pouco tempo para buscar a Deus. Mas para estar em comunhão com Deus não é preciso nos isolar em conventos ou mosteiros; embora seja essencial que nos santifiquemos, ou seja, que vivamos moral, cultural e espiritualmente separados do mundo. Isto significa que para alguns, talvez seja realmente necessário se afastar fisicamente do mundo, ou pelo menos do seu núcleo habitual de convívio, por algum tempo. Por causa da dureza de nossos corações, Deus se revela mais a nós nos momentos de solidão e de dor; do que quando estamos cercados por amigos e familiares, em prosperidade e em paz com o mundo.
Desde o advento de Cristo ao mundo, Jesus é o único caminho através do qual é possível conhecer a Deus a chegar até Ele. Jesus disse que quem o conhecesse conheceria também a Deus (João 14:9). Jesus foi o próprio verbo feito carne, a sua doutrina não era dele, mas daquele que o enviara. Ele dizia que o Pai estava nele e Ele no Pai e que as suas obras eram as obras de Deus. Jesus é, portanto o nosso perfeito mediador entre a carne e o Espírito; entre o divino e o humano, a ponte que nos uniu ao Pai, sobre o abismo antes intransponível do pecado.
Logo, para chegar a Deus é preciso negar a si mesmo, tomar a sua cruz seguir a Jesus. Esta entrega total significa submeter todos os nossos bens, nossos relacionamentos e a nossa própria vontade ao seu senhorio, colocando sobre o seu altar e ao seu dispor tudo aquilo que nos identifica com o mundo.
Significa confiar plenamente em sua sabedoria, em seu amor e em sua justiça, tomar sobre si o seu jugo suave e aprender dele a mansidão e a humildade. Esta total rendição a Cristo; decorrente da plena confiança nele, é essencial para que venhamos a nos ligar à sua videira e consequentemente conhecer ao Pai. Jesus se espantava às vezes ao perceber que seus próprios discípulos, que conviviam com Ele diariamente; demonstravam ainda não conhecê-lo e não confiar plenamente nele, através de sua falta de fé: “Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (Marcos 4:40)
Seguir a Jesus significa implica também em sermos seus perfeitos imitadores, ou seja; permitir que o nosso modo de pensar, falar e agir se torne o mais semelhante possível ao dele, em nosso dia-a-dia e em nossos relacionamentos. A nossa mente precisa assim estar sempre em sintonia com a mente de Jesus, para que Ele nos guie em todos os momentos de nossas vidas; e não apenas naqueles mais críticos ou mais significativos, a nosso critério. Ele é o nosso perfeito guia, o nosso Pastor; e ninguém melhor do que Ele pode nos conduzir nesta jornada pelo caminho que leva de volta à casa do Pai, pois Ele viveu no mundo, conhece o mundo e venceu o mundo.
Precisamos, portanto, encontrar uma forma de tornar o nosso convívio diário com Deus o mais profundo possível; para que assim possamos conhecê-lo cada vez mais e amá-lo cada vez mais, de modo a que ele possa realmente ocupar o seu trono em nosso coração. Isso significa buscar a sua presença. Buscar, durante a maior parte possível de nosso tempo, a sua presença, e isso requer uma sede espiritual.
Esta sede de Deus entretanto somente pode brotar de uma atitude de absoluta insatisfação em relação à vida mundana, com sua corrupção, suas injustiças e sua impermanência. É preciso sentir uma profunda e sincera insatisfação com relação à mediocridade de uma vida egocêntrica e o desejo de mudar, de negar a si mesmo e se render à vontade de Deus.
Uma vida realmente vivida na plenitude da presença e da direção de Deus não tem altos e baixos espirituais, lacunas ou vazios; pois Ele aplaina os nossos caminhos e estamos sempre cheios do seu Espírito, o que significa experimentar contínua alegria, segurança e paz interior; independentemente de quaisquer circunstâncias.
Evidentemente, haverá momentos em nossas vidas que serão de dor, de luta, de indignação; pois afinal ainda estamos no mundo e somos humanos. Até mesmo Cristo passou por momentos assim. Entretanto, é muito mais fácil superar estas situações vivendo no real sustento de Deus e servindo a um só senhor do que divididos entre duas vontades.
Deus não irá curar de modo sobrenatural uma simples e casual dor de cabeça, mas irá participar ativamente junto com cada fibra de nosso corpo no restabelecimento do seu equilíbrio biológico. Da mesma forma, Deus certamente não sairá à rua para procurar um emprego para nós, isso cabe a nós fazer. Entretanto, Ele nos guiará certamente nessa busca; de forma a encontrarmos não apenas um emprego, mas exatamente o trabalho que precisamos em um dado momento de nossas vidas, segundo sua infinita sabedoria.
Deus não irá eliminar milagrosamente os vícios que possamos ter quando a Ele entregamos as nossas vidas; pois eles estão profundamente arraigados em nossa vontade própria, mas o próprio renascimento espiritual e o viver continuamente na sua presença tornarão esses vícios não apenas estranhos a nós; mas também repugnantes, de modo que nós mesmos nos afastaremos deles. A luta entre a carne e o espírito continuará; mas se verdadeiramente nascemos de novo, o espírito prevalecerá sobre carne, pois Cristo venceu sobre a cruz a morte e o pecado.
Nascer de novo espiritualmente significa viver inteiramente segundo a vontade de Deus. Significa que Deus passa a ser tão essencial em nossas vidas como o ar que respiramos é essencial ao nosso corpo. Jamais teremos um pensamento, pronunciaremos uma palavra ou tomaremos qualquer decisão irrefletidamente. Teremos a noção clara e plena de cada pensamento, palavra ou ato; o que significa uma assombrosa ampliação de nossa consciência. Ser infiel a Deus ou ignorar a vontade de seu Santo Espírito neste caso implicaria em uma crise psicológica e espiritual sem precedentes, cujas conseqüências nem ao menos ousamos imaginar.
A nossa percepção é ampliada de tal modo que adquirimos plenitude de consciência de todos os nossos atos, a partir do momento em que despertamos pela manhã. Para muitos cristãos, essa nova percepção faz com que até mesmo a água que cai sobre seu corpo no chuveiro, os sons que vêm da rua e cada um de nossos pensamentos adquiram um significado que antes não percebiam, enriquecendo sobremaneira o modo como vivem cada momento do presente. Os atos antes rotineiros de cozinhar, cuidar da casa, lavar a roupa e tomar o ônibus para o trabalho; tornam-se experiências únicas a cada dia, e incomparavelmente mais ricas.
De um modo geral, a comunhão com Deus faz com que em tudo percebemos a glória de Deus manifestada, até mesmo nas pequenas coisas ao nosso redor. Ou a ausência desta glória, pois aumenta também a percepção da corrupção e da miséria espiritual de muitas pessoas com que cruzamos ou com as quais nos relacionamos.
Mas não é apenas a nossa sensibilidade espiritual que se intensifica. Ao nos deleitarmos a cada momento na presença de Deus; nosso coração começa a compartilhar aquilo que está no coração de Deus, em relação a nossas vidas e nas vidas das pessoas que nos cercam. Passamos a conhecer de forma clara e indubitável qual seja a sua perfeita vontade para as nossas vidas, algo que só podíamos conhecer antes através de muita oração e jejum. Ele nos guia então como guiou o seu povo no deserto, como uma nuvem durante o dia e como um fogo etéreo à noite. Deus compartilha conosco também seu sentimento de urgência com relação à sua obra, o seu amor e compaixão pelos seus filhos e a sua indignação com relação ao pecado e à injustiça que campeiam no mundo.
Se efetivamente nascemos de novo, somos definitivamente firmados na rocha que é Cristo, e Ele passa realmente a ocupar o seu trono em nosso coração. Tornamo-nos canais do seu amor e de suas bênçãos. Nossos sonhos se tornam os sonhos de Deus e nosso maior anseio então é viver em sua presença; e lutar pela realização destes sonhos. A nossa mente se torna cada vez mais semelhante à mente de Jesus; com quem passamos a gozar de plena comunhão, comunhão esta que nos dá o seu amor, e que o mundo jamais poderá abalar.
O apóstolo Paulo demonstra maravilhosamente, através de suas cartas, haver alcançado o seu renascimento espiritual e a plena comunhão com Deus; em função da sua total rendição à vontade divina, a ponto de afirmar que nele não mais vivia o seu eu, mas que Cristo vivia nele. Ele afirma em várias passagens que os seus ensinamentos não provinham de seu intelecto, mas do Espírito Santo. Aos Filipenses (4:12), declarou viver independentemente das circunstâncias; mantendo a sua paz e alegria espiritual, quer na carência ou na abundância. Paulo evidentemente não quis dizer com isso que ele havia se tornado como Deus, mas que seu coração agora era segundo o coração de Deus, como o Rei Davi.
Para verdadeiramente conhecer a Deus e vir a amá-lo, é necessário nascer de novo e para nascer de novo é necessário a total rendição do ser humano ao seu criador: corpo e mente; alma e espírito. Paulo era um homem que efetivamente andava segundo o Espírito de Deus e não segundo a carne. Muitos cristãos hoje, no entanto afirmam haverem nascido de novo e que agora andam “em Espírito”. Que diferença grotesca entre essa vida dual que é vivida pela maioria dos cristãos e a vida daqueles que realmente experimentaram o renascimento espiritual e andam no Espírito de Deus!
Por quanto tempo alguém pode se dizer cristão sem haver nascido de novo? É difícil determinar a partir de que momento viver uma vida cristã sem ter ainda renascido em Cristo deixa de ser parte de um processo normal e se torna uma deformidade espiritual.
Creio que somente Deus, que conhece a fundo os nossos corações, pode julgar. Entretanto, é fundamental que o cristão tenha plena consciência de sua condição espiritual, e não tente enganar a si mesmo. Jesus é o Bom Pastor, Ele conhece as suas ovelhas e estas também o conhecem. Jesus afirmou que sem nascer de novo é impossível entrar no Reino de Deus (João 3:3). Hoje refleti novamente sobre este assunto, enquanto pensava sobre a magnitude e as conseqüências do conflito que muitos cristãos vivem interiormente; entre estas duas identidades. A princípio, este é um fenômeno normal, que reflete o processo de crescimento da nova natureza que passa a existir na alma do cristão, e o declínio da velha natureza, que paulatinamente vai sendo sobrepujada, por uma nova consciência. Paulo via essa processo como uma verdadeira luta íntima, entre a carne e o espírito, pela prevalência sobre a natureza humana.
Este processo, entretanto, pode persistir, de forma bizarra, na vida de muitos cristãos, por toda a sua existência. Quando uma pessoa adota os valores cristãos, mas não passa por uma verdadeira conversão; ou quando ocorre uma conversão espiritual, mas não um renascimento espiritual; ela pode ficar indefinidamente presa em um permanente conflito psicológico, o que tem um efeito altamente nocivo sobre a sua vida.
A verdade é que a conversão cristã plena nem sempre ocorre no momento em que aceitamos a Jesus como nosso único Senhor e Salvador. Para muitos cristãos, a verdadeira conversão e o conseqüente renascimento espiritual somente ocorrem muito tempo depois, quando vimos a conhecer verdadeiramente a Deus e permitimos que Ele venha habitar em nosso coração. Para algumas pessoas entretanto, lamentavelmente, esses transformações cruciais de suas vidas nem chega a ocorrer, e o individuo se vê preso a um limbo, onde já não se identifica com seu antigo estilo de vida, mas também não vive plenamente o novo estilo de vida que escolheu. É como sair de um lugar para ir para outro lugar, mas nunca chegar, e passar a viver vagando pelo caminho.
Como isso é possível? Para entender esta trágica situação, é preciso compreender claramente em que consistem a conversão cristã e o renascimento espiritual que normalmente a acompanha.
Conversão é essencialmente uma decisão. Decisão motivada pela insatisfação real com um estilo de vida mundano e pecaminosos, pelo arrependimento sincero pelos erros cometidos e a firme convicção de estar disposto a se tornar um discípulo de Cristo. Com a conversão, o cristão recebe em seu coração a presença do Espírito Santo, que passa a habitar nele e a agir no sentido de orientá-lo segundo a vontade de Deus, e não mais segundo a vontade de seu eu. Além disso, o Espírito Santo cria nele, gradativamente, uma nova consciência; uma consciência cristã.
Este, entretanto, ainda não é o renascimento espiritual, que consiste na regeneração da mente e do coração humanos, de modo a que o individuo possa assumir a sua nova identidade como discípulo de Cristo. Para tanto, é necessário que o cristão entregue realmente toda a sua vida nas mãos de Deus, permitindo a Ele moldá-lo, como um oleiro molda um vaso novo, a partir do barro informe.
O que acontece na vida de muitas pessoas é que esses dois processos não ocorrem como deveriam ocorrer, seja por não ter havido uma verdadeira conversão, seja por não ter havido um renascimento espiritual. Isto cria na personalidade do indivíduo uma divisão, uma personalidade híbrida, que muitas vezes passa despercebida pelas pessoas com as quais ele se relaciona, até mesmo em sua igreja. Estas pessoas ainda vivem carnalmente e não são guiadas pelo Espírito de Deus. Elas dificilmente conseguem levar alguém a Cristo, as suas obras são ineficazes e não têm permanência. São aqueles normalmente chamados cristãos nominais, cristãos religiosos ou falsos cristãos.
Esse cristão híbrido pode entretanto conviver indefinidamente com essa estranha divisão de sua psicologia. Separa a sua vida entre situações seculares e situações espirituais. As situações seculares são o tempo em que passa trabalhando, fazendo reparos na casa ou a manutenção do carro; o tempo que gasta com suas atividades fisiológicas e mesmo o tempo que passa com a família, com os amigos, se divertindo ou se entregando a atividades que lhe dão prazer. As situações espirituais são aqueles momentos que reserva para cultuar e adorar a Deus; seja na igreja, seja em reuniões domésticas, seja na privacidade de seus aposentos, onde se dedica à oração e ao estudo da Bíblia.
Sempre me intrigou o fato de que quando estava na igreja, sentia-me maravilhosamente perto de Deus; sentia a alegria de sua presença, a sua paz, o conforto da sua mensagem. Deixava a igreja sempre de modo totalmente diferente de como ali havia entrado. Entretanto, no dia seguinte tudo voltava ao “normal”; isto é, a mesma frustração, a mesma tristeza, os mesmos temores e preocupações do constituem a rotina diária. Por que esse contraste?
O que antes eu não podia explicar, pois achava que Deus deveria de alguma forma operar em mim um milagre que perpetuasse a beleza, o gozo e a plenitude daqueles momentos, hoje consigo compreender de forma absolutamente clara. A verdade é que eu não vivia uma vida de plena comunhão com Deus. Ele ocupava por assim dizer um nicho da minha vida, a que eu chamava de “o primeiro lugar”, mas durante a maior parte da minha vida eu reprimia a sua presença, preservando este nicho como algo precioso demais para se misturar com meu cotidiano. Apenas na igreja, nos momentos de oração e estudo e no convívio com pessoas cristãs eu me permitia realmente me relacionar com Deus.
Deus era um assunto que normalmente não fazia parte das minhas conversas com amigos, vizinhos ou parentes não cristãos e que eu mantinha no recôndito da minha privacidade, juntamente com os fatos mais íntimos da minha vida. Deus era um assunto que eu reservava apenas para aquelas pessoas com quem sentia alguma afinidade espiritual; não por me sentir constrangido ao falar nele, mas por julgar que para falar de Deus era necessária uma ocasião especial e um interlocutor especial; que fosse também cristão ou que demonstrasse possuir um espírito contrito, pronto para ouvir o chamado de Jesus e ser evangelizado.
Vivia assim uma vida dupla, composta de uma dimensão interior, espiritual e profunda, marcada pelo temor e por um contido e secreto amor a Deus; e uma dimensão exterior, prática e objetiva, através da qual eu me relacionava com o mundo à minha volta.
É mais comum do que se imagina as pessoas experimentarem não uma plena conversão espiritual, operada em seu coração, mas apenas uma conversão formal; ou seja, uma mudança intelectual de atitude em relação à vida; normalmente acompanhada de emoção e de sentimentos de culpa, mas não de verdadeiro arrependimento e conseqüente renascimento espiritual. Esta é uma das causas desta dicotomia psicológica, que cria no indivíduo a noção de que a vida secular e a vida espiritual são coisas diferentes e precisam ser tratadas de forma diferente.
Essa pessoa passa a pensar mais ou menos da seguinte forma:Deus é maravilhoso, mas quem entende mesmo de minha vida cotidiana é o velho eu, ele já tem o “jeito” para lidar com o dia-a-dia, com as coisas práticas e racionais, pois afinal ele aprendeu vivendo, e que experiência ele tem nisto!
Acredita que a Deus é preciso dedicar apenas as áreas mais nobres de sua vida, como a edificação de seus valores e princípios e a direção de sua vida espiritual. Por que envolvê-lo na mediocridade de seu cotidiano? Deus não precisa ir com ela ao supermercado. Entrega a Ele a direção de sua vida, mas apenas aquelas decisões cruciais, que ela não sabe tomar. Cada coisa em seu lugar: Quando vai para o trabalho, o melhor é deixar Deus em casa, junto de sua Bíblia, pois ora a ele todas as manhãs e pede a sua bênção. Afinal, ela já sabe tomar conta de si mesma!
Além disso, se precisar de sua ajuda, basta pedir e Ele logo virá em seu socorro. Foi ensinada a “fazer a sua parte” para que Deus faça a parte dele; como se Deus não fizesse parte de nosso pensar, de nosso querer e de nosso agir. Afinal, ela não precisa invocar a Deus para resolver aqueles pequenos problemas com seus fornecedores, ou aquele relacionamento difícil com o vizinho, ou aquelas dificuldades financeiras normais de toda família. Não precisamos de Deus para escolher a roupa que vamos vestir, ou a pasta de dentes que vamos usar.
No entanto, vivendo dessa forma ela cria uma vida cheia de altos e baixos, cheia de lacunas, de vazios às vezes; mas diz para si mesma que a vida de todo mundo é assim, nada que não possa ser resolvido com um bom filme, um jogo de cartas, um passeio no shopping, um bom papo com os amigos. Anda triste e apreensiva às vezes, mas quem não anda? Logo chegará o dia do culto na igreja e poderá então renovar as suas forças espirituais. O problema é que às vezes ela chega até a igreja com as suas reservas espirituais tão baixas, que nem mesmo consegue se recuperar.
Vive assim, servindo a dois senhores, sem perceber. Mas o mais grave é que também sem perceber, ela relega Deus ao segundo lugar em sua vida. Embora nominalmente o declare senhor de seus caminhos, quem dirige na prática as sua vida é o velho eu, o velho homem que insiste em viver nela. Existe na verdade uma grande diferença entre entregar efetivamente nossos caminhos ao Senhor, rendendo-nos à sua soberania sobre as nossas vidas; e levar esta vida dúbia, em que honramos a Deus com palavras e louvores, mas não com o nosso coração. Entoa o velho hino: “Vem espírito de Deus! o meu coração é o Teu altar”, mas na verdade o altar de Deus no coração dela está vazio.
O nosso sistema de relacionamento humano e espiritual é semelhante aos sistemas audiovisuais de telecomunicação, que utilizam ondas eletromagnéticas para transmitir uma programação a que temos acesso através do rádio e da televisão.
O relacionamento humano se daria; segundo essa analogia, em uma determinada faixa de frequências; enquanto que o relacionamento espiritual se daria em uma outra faixa de freqüências, mais elevada. Em seu relacionamento com o mundo, o cristão híbrido sintoniza com a faixa de frequências do mundo e em seu relacionamento com Deus, utiliza a faixa de frequências espirituais.
O problema é que quando vai para o trabalho, muda a faixa de frequência de sua mente para a faixa do mundo e assim se desliga de Deus. Ao entrar na igreja ou em seu quarto para orar, faz o contrário; isto é, se desliga do mundo e sintoniza apenas com Deus. Isto, porém faz com que desperdice um tempo enorme de sua vida longe daquele que é a própria vida, o nosso Criador e Senhor. O Deus do seu cotidiano se torna assim apenas uma espécie de ícone sagrado, excluído inteiramente de sua vida secular; por quem nutre um temor cerimonial e a quem recorre apenas em suas aflições e anseios.
Mas, na verdade, não é preciso que seja assim e nem deve ser assim. Não faz sentido perder a nossa sintonia com Deus quando desempenhamos atividades seculares; e nem precisamos deixar os nossos problemas seculares do lado de fora da igreja quando ali entramos para orar e cultuar a Deus.
Se verdadeiramente conhecermos a Deus e o amarmos, a ponto de que a sua presença venha a se tornar algo tão vital para nós como o ar que respiramos; então Ele já não será apenas um símbolo, um ser de quem ouvimos falar e a quem devemos adorar. Ele se revelará a nós então como o Criador, o Pai espiritual, o amigo e o eterno amado de nossas almas. Ele estará de tal forma entranhada em nossos corações; que os cultos na igreja, os momentos de oração e estudo; não mais serão momentos de nos encontrarmos com Ele, mas momentos de estar em plena intimidade com Ele; de celebrar a nossa comunhão com Ele; momentos de aprender com Ele e de lhe dar graças por suas dádivas em nossas vidas. Para isto entretanto, é preciso que tenhamos realmente nascido de novo, da água e do Espírito.
O pastor Márcio Valadão, da IBL de Belo Horizonte declarou certa vez, em uma de suas pregações: Ou Deus ocupa o primeiro lugar em sua vida ou Ele não ocupará o segundo. Em vão nos enganamos e julgamos enganar a Deus, crendo estar em comunhão com Ele; quando reservamos a Ele na verdade apenas o segundo lugar em nossas vidas a que chamamos, às vezes cinicamente, “o lugar mais nobre”. Deus, entretanto é senhor das coisas espirituais, mas precisa ser senhor também das coisas seculares, dos nossos prazeres, dos nossos negócios, e precisamos nos colocar em sua total dependência, mesmo nas mínimas coisas que fazem parte de nosso cotidiano.
Isto não é negar a nossa própria responsabilidade para com nossas decisões e nossos atos; é apenas o reconhecimento de que Ele é a própria essência de nossas vidas, o nosso fôlego vital, a luz dos nossos olhos, o calor do nosso sangue, assim como é a fonte de nossos sentimentos e anseios mais elevados. É Ele quem opera em nós “tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:13)
Na verdade, até experimentarmos o renascimento espiritual, nós mesmos preferimos, inconscientemente, viver desta maneira dual se não experimentamos uma autêntica conversão espiritual de vida. Viver sob o domínio do eu psicológico tem muitas desvantagens, como os altos e baixos emocionais a que estamos sujeitos; os temores, a angústia e a ansiedade em que nos vemos continuamente mergulhados; a insegurança e o desassossego causados pelas tribulações diárias.
Entretanto, intimamente reconhecemos nesse domínio egocêntrico certas vantagens às quais nos acostumamos; como certas reações automáticas que adotamos, diante de algumas situações que não requerem de nós nenhuma reflexão. Além disso, podemos nos deleitar em nossos pequenos hábitos e vícios, os quais nos transmitem uma sensação de paz e bem-estar. A idéia de confiarmos inteiramente o domínio de nossas vidas a Deus nos parece sem dúvida uma decisão demasiadamente ousada e assustadora. Afinal, isso implicaria em mudar radicalmente o nosso modo de viver.
Além de nos assustar, a idéia de consagrar totalmente as nossas vidas a Deus representa um desafio que muitos de nós não temos a coragem necessária para aceitar. Assim, julgamos não apenas natural, mas prudente, continuarmos dividindo a nossa consciência, como sempre fizemos, deixando “cada coisa em seu devido lugar”. Esta é, no entanto uma decisão enganosa, pois se na prática relegamos Deus a um segundo lugar em nossas vidas, não podemos dizer sinceramente como cristãos que estamos em Cristo e que Cristo vive em nós. A atuação de Deus em nossas vidas torna-se também parcial. Nossas orações às vezes são ouvidas, outras vezes não. Nossa fé é vacilante, como também a nossa fidelidade a Ele, pois na verdade servimos a um Deus a quem não amamos realmente.
Para amar alguém é preciso conhecer. Deus nos conhece e por isso nos ama, mas nós não o conhecemos. O livro Cantares de Salomão é um poema que narra o amor de um rei e de sua noiva. Nele, ambos elogiam os encantos um do outro e falam de sua ansiedade em se encontrar. Creio que nosso relacionamento com Deus deveria ser também de tal intensidade.
Quando amamos verdadeiramente, a imagem da pessoa amada não sai de nossa mente e estamos permanentemente em sintonia com ela, o que quer que estejamos fazendo. Aqueles que não nasceram de novo, no entanto, não conhecem a Deus o suficiente para amá-lo desta forma. Na verdade eles o temem mais que o amam, por que não o conhecem. É verdade que Deus se revela a nós de muitas maneiras, mas a melhor maneira de conhecer alguém ainda é pessoalmente. Podemos ir à casa de uma pessoa, sem que ela esteja presente e conhecer um pouco dela, através do que nos falaram a respeito dela, através de seus pertences, através de fotos e de seus escritos. Mas isso não traz a mesma profundidade de conhecimento que um convívio pessoal. Como, no entanto estabelecer esse convívio se somos carne; e Ele é Espírito, se somos sangue; e Ele é luz, se somos impuros; e Ele é santo?
Alguns místicos cristãos consagraram tanto as suas vidas a Deus que conseguiram alcançar um nível de convívio com Ele bastante profundo; algo bastante semelhante a um convívio pessoal. No mundo moderno, porém, estamos envolvidos de tal forma com as atividades seculares, que nos sobra muito pouco tempo para buscar a Deus. Mas para estar em comunhão com Deus não é preciso nos isolar em conventos ou mosteiros; embora seja essencial que nos santifiquemos, ou seja, que vivamos moral, cultural e espiritualmente separados do mundo. Isto significa que para alguns, talvez seja realmente necessário se afastar fisicamente do mundo, ou pelo menos do seu núcleo habitual de convívio, por algum tempo. Por causa da dureza de nossos corações, Deus se revela mais a nós nos momentos de solidão e de dor; do que quando estamos cercados por amigos e familiares, em prosperidade e em paz com o mundo.
Desde o advento de Cristo ao mundo, Jesus é o único caminho através do qual é possível conhecer a Deus a chegar até Ele. Jesus disse que quem o conhecesse conheceria também a Deus (João 14:9). Jesus foi o próprio verbo feito carne, a sua doutrina não era dele, mas daquele que o enviara. Ele dizia que o Pai estava nele e Ele no Pai e que as suas obras eram as obras de Deus. Jesus é, portanto o nosso perfeito mediador entre a carne e o Espírito; entre o divino e o humano, a ponte que nos uniu ao Pai, sobre o abismo antes intransponível do pecado.
Logo, para chegar a Deus é preciso negar a si mesmo, tomar a sua cruz seguir a Jesus. Esta entrega total significa submeter todos os nossos bens, nossos relacionamentos e a nossa própria vontade ao seu senhorio, colocando sobre o seu altar e ao seu dispor tudo aquilo que nos identifica com o mundo.
Significa confiar plenamente em sua sabedoria, em seu amor e em sua justiça, tomar sobre si o seu jugo suave e aprender dele a mansidão e a humildade. Esta total rendição a Cristo; decorrente da plena confiança nele, é essencial para que venhamos a nos ligar à sua videira e consequentemente conhecer ao Pai. Jesus se espantava às vezes ao perceber que seus próprios discípulos, que conviviam com Ele diariamente; demonstravam ainda não conhecê-lo e não confiar plenamente nele, através de sua falta de fé: “Então lhes perguntou: Por que sois assim tímidos? Ainda não tendes fé?” (Marcos 4:40)
Seguir a Jesus significa implica também em sermos seus perfeitos imitadores, ou seja; permitir que o nosso modo de pensar, falar e agir se torne o mais semelhante possível ao dele, em nosso dia-a-dia e em nossos relacionamentos. A nossa mente precisa assim estar sempre em sintonia com a mente de Jesus, para que Ele nos guie em todos os momentos de nossas vidas; e não apenas naqueles mais críticos ou mais significativos, a nosso critério. Ele é o nosso perfeito guia, o nosso Pastor; e ninguém melhor do que Ele pode nos conduzir nesta jornada pelo caminho que leva de volta à casa do Pai, pois Ele viveu no mundo, conhece o mundo e venceu o mundo.
Precisamos, portanto, encontrar uma forma de tornar o nosso convívio diário com Deus o mais profundo possível; para que assim possamos conhecê-lo cada vez mais e amá-lo cada vez mais, de modo a que ele possa realmente ocupar o seu trono em nosso coração. Isso significa buscar a sua presença. Buscar, durante a maior parte possível de nosso tempo, a sua presença, e isso requer uma sede espiritual.
Esta sede de Deus entretanto somente pode brotar de uma atitude de absoluta insatisfação em relação à vida mundana, com sua corrupção, suas injustiças e sua impermanência. É preciso sentir uma profunda e sincera insatisfação com relação à mediocridade de uma vida egocêntrica e o desejo de mudar, de negar a si mesmo e se render à vontade de Deus.
Uma vida realmente vivida na plenitude da presença e da direção de Deus não tem altos e baixos espirituais, lacunas ou vazios; pois Ele aplaina os nossos caminhos e estamos sempre cheios do seu Espírito, o que significa experimentar contínua alegria, segurança e paz interior; independentemente de quaisquer circunstâncias.
Evidentemente, haverá momentos em nossas vidas que serão de dor, de luta, de indignação; pois afinal ainda estamos no mundo e somos humanos. Até mesmo Cristo passou por momentos assim. Entretanto, é muito mais fácil superar estas situações vivendo no real sustento de Deus e servindo a um só senhor do que divididos entre duas vontades.
Deus não irá curar de modo sobrenatural uma simples e casual dor de cabeça, mas irá participar ativamente junto com cada fibra de nosso corpo no restabelecimento do seu equilíbrio biológico. Da mesma forma, Deus certamente não sairá à rua para procurar um emprego para nós, isso cabe a nós fazer. Entretanto, Ele nos guiará certamente nessa busca; de forma a encontrarmos não apenas um emprego, mas exatamente o trabalho que precisamos em um dado momento de nossas vidas, segundo sua infinita sabedoria.
Deus não irá eliminar milagrosamente os vícios que possamos ter quando a Ele entregamos as nossas vidas; pois eles estão profundamente arraigados em nossa vontade própria, mas o próprio renascimento espiritual e o viver continuamente na sua presença tornarão esses vícios não apenas estranhos a nós; mas também repugnantes, de modo que nós mesmos nos afastaremos deles. A luta entre a carne e o espírito continuará; mas se verdadeiramente nascemos de novo, o espírito prevalecerá sobre carne, pois Cristo venceu sobre a cruz a morte e o pecado.
Nascer de novo espiritualmente significa viver inteiramente segundo a vontade de Deus. Significa que Deus passa a ser tão essencial em nossas vidas como o ar que respiramos é essencial ao nosso corpo. Jamais teremos um pensamento, pronunciaremos uma palavra ou tomaremos qualquer decisão irrefletidamente. Teremos a noção clara e plena de cada pensamento, palavra ou ato; o que significa uma assombrosa ampliação de nossa consciência. Ser infiel a Deus ou ignorar a vontade de seu Santo Espírito neste caso implicaria em uma crise psicológica e espiritual sem precedentes, cujas conseqüências nem ao menos ousamos imaginar.
A nossa percepção é ampliada de tal modo que adquirimos plenitude de consciência de todos os nossos atos, a partir do momento em que despertamos pela manhã. Para muitos cristãos, essa nova percepção faz com que até mesmo a água que cai sobre seu corpo no chuveiro, os sons que vêm da rua e cada um de nossos pensamentos adquiram um significado que antes não percebiam, enriquecendo sobremaneira o modo como vivem cada momento do presente. Os atos antes rotineiros de cozinhar, cuidar da casa, lavar a roupa e tomar o ônibus para o trabalho; tornam-se experiências únicas a cada dia, e incomparavelmente mais ricas.
De um modo geral, a comunhão com Deus faz com que em tudo percebemos a glória de Deus manifestada, até mesmo nas pequenas coisas ao nosso redor. Ou a ausência desta glória, pois aumenta também a percepção da corrupção e da miséria espiritual de muitas pessoas com que cruzamos ou com as quais nos relacionamos.
Mas não é apenas a nossa sensibilidade espiritual que se intensifica. Ao nos deleitarmos a cada momento na presença de Deus; nosso coração começa a compartilhar aquilo que está no coração de Deus, em relação a nossas vidas e nas vidas das pessoas que nos cercam. Passamos a conhecer de forma clara e indubitável qual seja a sua perfeita vontade para as nossas vidas, algo que só podíamos conhecer antes através de muita oração e jejum. Ele nos guia então como guiou o seu povo no deserto, como uma nuvem durante o dia e como um fogo etéreo à noite. Deus compartilha conosco também seu sentimento de urgência com relação à sua obra, o seu amor e compaixão pelos seus filhos e a sua indignação com relação ao pecado e à injustiça que campeiam no mundo.
Se efetivamente nascemos de novo, somos definitivamente firmados na rocha que é Cristo, e Ele passa realmente a ocupar o seu trono em nosso coração. Tornamo-nos canais do seu amor e de suas bênçãos. Nossos sonhos se tornam os sonhos de Deus e nosso maior anseio então é viver em sua presença; e lutar pela realização destes sonhos. A nossa mente se torna cada vez mais semelhante à mente de Jesus; com quem passamos a gozar de plena comunhão, comunhão esta que nos dá o seu amor, e que o mundo jamais poderá abalar.
O apóstolo Paulo demonstra maravilhosamente, através de suas cartas, haver alcançado o seu renascimento espiritual e a plena comunhão com Deus; em função da sua total rendição à vontade divina, a ponto de afirmar que nele não mais vivia o seu eu, mas que Cristo vivia nele. Ele afirma em várias passagens que os seus ensinamentos não provinham de seu intelecto, mas do Espírito Santo. Aos Filipenses (4:12), declarou viver independentemente das circunstâncias; mantendo a sua paz e alegria espiritual, quer na carência ou na abundância. Paulo evidentemente não quis dizer com isso que ele havia se tornado como Deus, mas que seu coração agora era segundo o coração de Deus, como o Rei Davi.
Para verdadeiramente conhecer a Deus e vir a amá-lo, é necessário nascer de novo e para nascer de novo é necessário a total rendição do ser humano ao seu criador: corpo e mente; alma e espírito. Paulo era um homem que efetivamente andava segundo o Espírito de Deus e não segundo a carne. Muitos cristãos hoje, no entanto afirmam haverem nascido de novo e que agora andam “em Espírito”. Que diferença grotesca entre essa vida dual que é vivida pela maioria dos cristãos e a vida daqueles que realmente experimentaram o renascimento espiritual e andam no Espírito de Deus!
Por quanto tempo alguém pode se dizer cristão sem haver nascido de novo? É difícil determinar a partir de que momento viver uma vida cristã sem ter ainda renascido em Cristo deixa de ser parte de um processo normal e se torna uma deformidade espiritual.
Creio que somente Deus, que conhece a fundo os nossos corações, pode julgar. Entretanto, é fundamental que o cristão tenha plena consciência de sua condição espiritual, e não tente enganar a si mesmo. Jesus é o Bom Pastor, Ele conhece as suas ovelhas e estas também o conhecem. Jesus afirmou que sem nascer de novo é impossível entrar no Reino de Deus (João 3:3).
Nota: Esta é uma revisão do artigo original publicado em 31/08/2008
A Mente de Cristo
setembro 26, 2011
Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo. 1 Coríntios 2:16
Quando Paulo escreveu aos coríntios estas palavras, estava falando sobre a impossibilidade do homem natural compreender as coisas espirituais. Por isso é tão comum ouvir, de pessoas não cristãs, tantos argumentos contrários à Palavra de Deus. Somente os que abriram seus corações a Deus e foram tocados pelo seu Espírito adquirem o discernimento espiritual necessário para compreender o que lhes é anunciado no Evangelho.
Este estado mental somente se forma quando o cristão se converte de sua vida mundana para a nova vida em Cristo. Quando o homem natural passa pelo renascimento espiritual, e o Espírito de Deus passa a habitar nele, sua mente e seu coração são regenerados. Mas para que seja possível ocorrer realmente essa transformação,são necessários antes três requisitos básicos:
1 – Coração puro. A mente está ligada ao coração. Os pensamentos e os sentimentos são um todo inseparável. Por isso o coração precisa também ser puro. Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração (Mateus 5:28 – 12:34; Hebreus 8:10 – Lucas 2:19 – Provérbios 4:23)
2 – Integridade. Isso parece óbvio, mas muitas pessoas se aproximam de Deus com um coração dividido entre Deus e o mundo. Jesus mostrou também que não se pode servir a dois senhores. (2 Timóteo 3:5 – Mateus 6:24 – 15:7-8)
3 – Fé. É preciso ter fé e não apenas acreditar na Palavra de Deus. Em outras palavras, é preciso estar realmente convicto de que aquilo que Deus diz em sua Palavra é uma verdade absoluta. (Marcos 11:23; Tiago 1:6)
Aqueles que não possuem esses requisitos são ímpios, e suas obras não têm valor para Deus (Mateus 7:15-19). Paulo se referiu a eles quando advertiu a Timóteo sobre o perigo de se desviar dos verdadeiros ensinamentos do Evangelho, cuja finalidade última é o amor:
Ora, o fim do mandamento é o amor de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. 1 Timóteo 1:5
Mas nascer de novo não nos torna iguais a Cristo. Como seus discípulos, vamos agora aprender a viver como Ele viveu. Paulo lembrou, em sua carta aos romanos, a necessidade de renovarmos continuamente as nossas mentes, de modo a experimentarmos em nossas vidas “qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2) Essa renovação contínua do nosso entendimento significa buscar transformar a nossa mente em uma mente semelhante à mente de Cristo. Por esse motivo, para ter a mente de Cristo é preciso desenvolver continuamente algumas atitudes espirituais, típicas do caráter de Jesus:
1 – Discernimento- É necessário exercitar o discernimento espiritual, isto é, separar o que é verdadeiro e o que é falso. Jesus demonstrou esse discernimento quando foi levado ao deserto, para ser tentado por Satanás, quando era provocado pelos fariseus e quando demonstrou em que consistia o verdadeiro cumprimento da Lei judaica. (Mateus 16:3) Para isto, o cristão precisa conhecer profundamente a Palavra de Deus. (Mateus 22:29; 2 Coríntios 10:5; I Tessalonicenses 5.21; Hebreus 4:12 – 5:14; 1 João 4:1)
2 – Separação do mundo – Jesus deixou claro que seu reino não era deste mundo e falavra sempre do Reino de Deus. (João 18:36) Falava também do destino daqueles que se apegavam a seus bens e à riqueza. Ele tinha um profundo compromisso com a sua missão, a ponto de considerar que o seu alimento consistia em cumprir essa missão.(João 4:34) O cristão precisa estar alerta para não ser seduzido pelos vícios e valores mundanos, desviando-se do seu alvo, mas procurar manter a sua atenção voltada para os valores e características do Reino de Deus. (Mateus 6:33; João 6:27; Romanos 12:2 – 14:17; Filipenses 4:8; 1 João 2:15-17; Salmos 1:1)
3 – Comunhão com Deus. Jesus vivia continuamente na presença do Pai, através da oração e do recolhimento. Ele sabia que todo o seu poder e autoridade eram provenientes da sua comunhão com o Pai. Essa comunhão é quebrada quando o cristão age segundo a carne e não segundo o Espírito. Jesus disse a seus discípulos que a vigilância e a oração são necessárias para que o homem não caia em tentação. (Mateus 26:41) O salmista afirma que é bem-aventurado, isto é, feliz, o homem que tem prazer na lei do Senhor e nela medita dia e noite. (Salmos 1:2 – 119) Paulo exortou os cristãos também a viver uma vida de oração (1 Tessalonicenses 5:17).
4 – Sabedoria – Jesus demonstrava absoluta sabedoria, como no conhecimento da Palavra de Deus, no trato com os fariseus, na escolha e formação de seus discípulos e nos seus julgamentos. (Mateus 4:1-11, 13:10-14; Lucas 2:46-47, 10:1-12, 20:1-8; João 8:1-11) Esta é uma das principais características da mente de Cristo. Não a sabedoria intelectual, mas a sabedoria divina, que Deus concede liberalmente. Salomão e Tiago ensinaram o valor da sabedoria divina. (Provérbios 2:4-6; Tiago 1:5)
5 – Justiça – Jesus veio ao mundo cumprir efetivamente a justiça de Deus, que não consiste em rituais e em sacrifícios pessoais, mas na obediência à sua Palavra. (Isaías 1:11-17; Mateus 5:17-48 – 7:21) Através de suas parábolas, Jesus ilustrava a aplicação prática da justiça divina.(Mateus 20:1-16; Lucas 16:1-12; João 8:1-11) Praticar a justiça divina começa com nossa própria condição como cidadãos. Pagar os impostos, obedecer as autoridades, negociar com honestidade, honrar pai, mãe, esposa e filhos, ajudar os necessitados. (Mateus 22:21; Romanos 13:1,7,13; Efésios 6:1-9)
6 – Compaixão – Esta é também uma das principais características da mente de Jesus. Ele demonstrava uma profunda compaixão por aqueles que o seguiam em busca de cura de suas enfermidades fisicas e espirituais.(Mateus 9:36 – 15:30) A parábola do bom samaritano é um exemplo da prática da compaixão cristã.(Lucas 10:25-37) João ensina que aqueles que não amam o seu semelhante também não amam a Deus e vivem em trevas espirituais. (1 João 2:9-11) O perdão também é uma forma de compaixão e Jesus enfatizou, várias vezes a necessidade de perdoarmos uns aos outros. (Marcos 11:25; Mateus 18:21-22)
7 – Humildade – Cristo é a própria personificação da humildade. Sendo Ele o Filho de Deus, se esvaziou de si mesmo, abriu mão de sua glória e se fazendo servo, habitou entre nós, chamando a si mesmo Filho do Homem. Jesus tinha todo o poder e autoridade no céu e na terra, mas foi em tudo obediente ao Pai e exercia a sua majestade com mansidão e suavidade. (Mateus 11:29 – 26:42; João 5:30; Filipenses 2:7) O cristão que busca a mente de Cristo sabe que nada pode fazer de bom por si mesmo, que em tudo depende de Deus, que é sua fonte de vida, de força e sabedoria. Nada faz para seu próprio engrandecimento, mas para a glória de Deus.Aos humildes, Deus exalta em seu devido tempo. (João 15:5; Romanos 12:16; 1 Coríntios 10:31; 1 Pedro 5:5-6)
Mas falta ainda uma coisa, para que possamos a ter uma mente realmente cristã. Jesus não tinha pecado, mas nós ainda pecamos, embora involuntariamente, pelo fato de que ainda somos humanos. Para que não vivamos em iniquidade, precisamos confessar continuamente a Deus os nossos pecados. (1 João 1:8-9)
Ter a mente de Cristo e viver como Jesus viveu não é fácil, mas é o único caminho para Deus. Entretanto, é pelo esforço e a perseverança que o cristão encontra em Jesus o poder para vencer a sua mente carnal e viver segundo o Espírito de Deus. (Mateus 11:12)
Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou.1 João 2:6
Se nos convertemos realmente a Deus, então nós já temos a mente de Cristo, como afirmou Paulo. Basta apenas que busquemos em tudo imitá-lo, tendo como modelo constante a sua própria vida. (Filipenses 2:12-13)
Para Amar uma Mulher
setembro 1, 2011
O salmista bíblico, inspirado por Deus, escreveu que o ser humano, na escala da criação, foi criado um nível apenas menor que os anjos.
Talvez esteja exagerando, mas acredito que a mulher está exatamente neste limite entre o humano e o angelical. Não por que seja inerentemente pura, mesmo por que foi ela quem induziu o homem ao pecado, mas por sua própria natureza.
Séculos e séculos de maus tratos e desprezo masculinos, entretanto brutalizaram a tal ponto a alma feminina que é difícil hoje encontrar uma verdadeira mulher. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro e se a revolução feminista, como subproduto de suas inúmeras conquistas, masculinizou a mulher; o homem por sua vez, como consequência da inexorável lei da reação, se efeminou, de tal maneira que é difícil hoje também encontrar um homem verdadeiro.
Quando falo em homens e mulheres verdadeiros me refiro ao ser humano em sua plenitude, de corpo, alma e espírito, conforme originalmente foram criados.
Evidentemente, nenhum ser humano possui hoje a sua natureza original, conforme criada por Deus, porque ela se corrompeu pelo pecado, como todo o restante da natureza. Entretanto, é possível ainda encontrar homens e mulheres que não se entregaram simplesmente a esta corrupção e ainda preservam a essência de sua natureza original.
Os seres humanos, como toda a natureza, foram criados perfeitos, o que significa que eram belos, em todos os aspectos do seu ser e essa beleza estava vinculada a todos esses aspectos, de maneira indissociável. Assim, os seres humanos originais eram belos de corpo, alma e espírito. Lamentavelmente, hoje não é mais assim e é possível encontrar pessoas exteriormente belíssimas, mas que são extremamente feias em seu íntimo, e naturalmente o contrário também é verdadeiro.
A beleza de corpo é a beleza estética formal, a beleza de alma está associada à personalidade e a beleza de espírito está associada ao caráter e às aspirações humanas mais íntimas.
É um indescritível deleite ao conhecer uma mulher, descobrir nela estas três dimensões essenciais do seu ser e se maravilhar com a beleza existente em cada uma delas.
A beleza física, a mais aparente e a de maior impacto, é também a mais frágil. Ela revela com grande intensidade o efeito implacável do tempo e das circunstâncias. Entretanto, é impossível permanecer indiferente diante de uma bela mulher. Não são apenas os poetas e outros artistas que se rendem à beleza do corpo feminino. Muitos homens foram (ou ainda são) capazes de dar (e tirar) a vida por uma bela mulher.
Já a beleza de alma se revela na inteligência, nos gestos, no andar, no falar: a graça feminina. Embora isso não seja tão evidente como no caso da beleza física, o seu impacto pode ser tão ou mais avassalador. É através desta graça que uma mulher pode se revelar tão sensual como um demônio ou tão doce como um anjo. É por causa dessa graça que muitos homens se veem inexplicavelmente atraídos por mulheres que não são fisicamente belas, a ponto de desejar tê-las ao seu lado por toda a vida.
É através da graça que a mulher revela a sua feminilidade. A graça feminina está presente de forma mais pura, simples e espontânea na idade mais tenra da mulher, da meninice à juventude. Depois disso ou ela mingua ou deixa de ser espontânea.
A única coisa que pode acabar com a graça, com a beleza de alma de uma mulher é a sua brutalização. Um homem de alma ou espírito brutos pode destruir completamente a graça de uma mulher, a ponto de torna-la extremamente parecida com ele. Isso é obviamente uma estupidez, mas a estupidez ainda é um forte traço na alma masculina.
Finalmente, existe a beleza de espírito, a mais sutil e refinada forma de beleza humana. Ela está associada não apenas ao caráter humano, mas também a seus valores e aspirações mais íntimas. É através do espírito que a mulher revela vulgaridade e frivolidade ou nobreza e virtude. É ali também que estão seus anseios e seus temores, suas frustrações e seus talentos, além é claro, de sua espiritualidade. É possível se apaixonar intensamente por uma mulher por causa da beleza do seu corpo ou da sua alma, mas isso não é amor verdadeiro. Somente é possível amar realmente uma mulher se se mergulhar completamente em seu espírito, e estabelecer ali um conluio permanente.
A maioria dos relacionamentos entre um homem e uma mulher não se sustentam porque são superficiais, ou seja, se baseiam apenas no conluio físico, emocional ou intelectual. Em nosso tempo, mais que nunca, desde que os jovens conquistaram autonomia para escolher seus próprios pares, as pessoas não desejam se conhecer profundamente, mas apenas estabelecer relacionamentos práticos, úteis e prazerosos. Se no passado isso ocorria por descuido ou insensibilidade, hoje ocorre intencionalmente.
A poesia é uma das melhores formas de se expressar o amor, seja ele passional ou real. Para amar uma mulher, entretanto, não é necessário romance, nem poesia, aliás, estas coisas só atrapalham, pois envolvem tudo em um véu fútil de fantasia. Nenhuma mulher é romântica, ainda que ela pense ser. O romantismo na verdade é a expressão tosca desse anseio profundo do espírito humano pelo amor verdadeiro.
Vinicius de Moraes, como Pablo Neruda, estão entre os poetas que melhor compreendiam a alma de uma mulher. Entretanto, eles se limitavam a suas paixões, que vivam inatensamente, e provavelmente jamais amaram verdadeiramente uma mulher. Vinícius escreveu, em um de seus mais lembrados sonetos:
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
(Soneto da Fidelidade)
Uma mulher é como um vasto e desconhecido continente a ser conquistado e o bravo descobridor aporta nele navegando pelo mar do seu olhar.
As terras à sua frente podem se revelar secas e áridas como uma caatinga, ou densas e luxuriantes como uma selva; monótonas como uma campina, ou plácidas como um vale e essas paisagens se sucedem ao longo de sua jornada. Entretanto, elas sempre guardarão perigos e surpresas, frustrações e desapontamentos, gozos e encantos.
O descobridor incauto corre nesta empreitada grandes riscos: risco de se perder de si mesmo, risco de perder a cabeça e até mesmo o risco de morrer e de matar por sua paixão.
Vinicius fala de seu anseio pelo verdadeiro amor:
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar,
Plantado num chão verde
Para eu morar-te.
Morar-te até morrer-te…
(O Mais que Perfeito)
Ao desembarcar nesta terra, o descobridor depara com o corpo de sua amada. É ali que ele inicia sua jornada e muitos tolos se fascinam de tal modo pelos encantos e prazeres destas praias que se demoram ali e chegam a fazer ali mesmo a sua morada.Neruda é talvez o poeta que mais exprime esta ânsia sensual insaciável:
Corpo de pele e de musgo, de ávido leite e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei em tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho
indeciso!
Obscuros leitos onde a sede eterna continua,
e segue a fatiga, e esta dor infinita.
(Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada)
Os mais sagazes, entretanto sabem que não é ali que está o verdadeiro tesouro daquela terra e avançam, em busca da alma da mulher amada. A descoberta da alma de uma mulher é uma das mais fascinantes aventuras a que um homem pode se entregar. Drummond fala do significado desse momento:
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele…
No modo de sentir e de pensar!
(Para Viver um Grande Amor)
Mas a maioria dos homens acredita que este é o fim da jornada. Ou ficam nesse lugar ou dali retornam. Julgam conhecer a mulher que está ao seu lado porque conhecem sua voz, seus gestos, seus gostos, suas afinidades, seus vícios e suas opiniões sobre política, economia, família e futebol; além, é claro, de cada palmo de seu corpo.
Somente os mais sábios e os mais indômitos prosseguem a jornada, rumo aos recônditos mais longínquos daquela terra: o espírito de sua amada. É ali que se encontra o lugar mais belo (ou mais feio) desse território. É pelo seu espírito que uma mulher pode envolver um homem em profunda paz ou leva-lo à loucura. É pelo seu espírito que uma mulher pode levar um homem aos mais gloriosos feitos ou faze-lo sentir-se como o mais desprezível dos seres sobre a terra.
Para o fim dessa jornada é preciso não se deixar abater pelo aparente enigma que é o espírito de uma mulher. Devagar ele se revela ao descobridor paciente, pois é a paciência que produz a perseverança e a perseverança traz o conhecimento. É ali que ele encontra o melhor (ou o pior) daquela terra e é ali que ele faz ou não a sua verdadeira morada.
O amor requer atenção, cuidado, carinho e dedicação, mas sobretudo, requer profundo conhecimento mútuo. Não existe amor à primeira, nem à segunda, nem à terceira vistas. Para amar é preciso conhecer sobretudo a essência, que é o espírito. Não o conhecimento frio e distante, psicanalítico, mas o conhecimento do descobrimento, pelo qual anseia o desbravador, que se lança por inteiro na sublime aventura de conhecer a terra onde vai habitar.
Creio que foi Drummond quem mais compreendeu o verdadeiro amor:
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir…
(Para Viver um Grande Amor)
Se um homem deseja realmente amar uma mulher, desnecessário se torna o sermão moralista da fidelidade. A fidelidade é o primeiro pressuposto do amor verdadeiro, conforme atesta o próprio poeta:
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… — não tem nenhum valor.
(Para Viver um Grande Amor – Vinicius de Moraes)
É justamente esse amor verdadeiro, esse conluio espiritual, essa cumplicidade existencial o que verdadeiramente nos distingue de outros animais, e a única forma de relacionamento que nos remete à beleza original com que fomos criados.
A melhor descrição deste amor é bíblica, e foi dada por um homem que foi capaz de experimentar o amor em sua forma mais sublime:
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha.
Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
1 Coríntios 13:4-7
Mas cá entre nós. Se um homem puder encontrar em sua esposa, além desse conluio espiritual a graça e a beleza física, esse é certamente um bem-aventurado, alguém realmente abençoado por Deus.
A Verdadeira História do Islamismo
agosto 10, 2011
O islamismo, a manifestação religiosa mais moderna do tronco judaico-cristão, surgiu como uma versão árabe do judaísmo, recontando a história da revelação da Verdade divina ao homem através de Abraão, do ponto de vista de sua descendência árabe, ou seja, proveniente de seu filho bastardo Ismael. De acordo com a religião islâmica, Maomé é o último mensageiro de Deus e o maior dos profetas. O Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, nega a ligação espiritual entre Abraão e os judeus e Maomé afirma que Abraão é o patriarca do Islã, mas não de Israel, porque ele “se rendeu a Alá”. (1) A Bíblia, entretanto, demonstra claramente o oposto, através da genealogia apresentada por Mateus, que Jesus é descendente de Isaque, o filho legítimo de Abraão.
Embora partilhe os mesmos princípios básicos de fé do judaísmo, e tenha como um de seus fundamentos o de ser a última revelação de Deus ao homem; considerando ser Maomé, o seu fundador, o “selo dos profetas” e os seus ensinamentos os únicos de caráter universal; o etos do islamismo não é o mesmo do judaísmo. O fim último do islamismo é ensinar o Islã, ou a adoração e a submissão do homem a um único Deus, na forma da observância de seus estatutos, conforme descritos no Alcorão e nas Sunas, que são relatos tradicionais sobre a vida de Maomé. Os ensinamentos de Allah (a palavra árabe para Deus) estão contidos no Alcorão ou Corão (Qur’an, ou “recitação”). Os muçulmanos acreditam que Maomé recebeu estes ensinamentos de Allah por intermédio do anjo Gabriel (Jibreel) através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C.. O Corão é considerado sagrado apenas em sua versão original, em árabe, embora já esteja traduzido em vários idiomas. Além do Alcorão, as crenças e práticas do islamismo baseiam-se na literatura Hadith, que compõem as Sunas, as quais para os muçulmanos esclarecem e comentam os ensinamentos do profeta, assim como o Talmud hebraico em relação à Torah.
O islamismo reconhece a legitimidade da Torah hebraica, embora afirme que a perda dos manuscritos originais gerou muitas distorções na interpretação do seu conteúdo. O Novo Testamento cristão, entretanto não é reconhecido como fonte escritural espiritual legítima, pois segundo os estudiosos islâmicos, os manuscritos nos quais foram baseados os seus textos e a origem dos testemunhos ali contidos não são confiáveis. Segundo o islamismo, o Corão seria o verdadeiro fundamento da Nova Aliança celebrada entre Deus e o homem; por haver sido revelado a um único profeta, por ser baseado em seus textos originais e por ser escrito em uma linguagem atual.
Poucos conhecem entretanto a história do islamismo. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que Allah era originalmente o nome do deus da Lua, uma das várias divindades cultuadas pelos povos árabes antes do nascimento de Maomé, que depois veio a se tornar o nome genérico de Deus nas culturas do oriente médio. O símbolo da lua crescente encontrado nas mesquitas, minaretes e nas bandeiras de alguns emirados árabes no início de xéculo XX, é um resquício do politeísmo que caracterizava a vida religiosa desses povos. (2)
Quando Maomé foi viver com seu tio, chefe do clã Hachemita, Meca era uma cidade-estado no deserto, um grande centro comercial e religioso. Maomé era sensível aos frequentes conflitos entre as tribos, que marcavam a vida nômade do seu povo, como também se ressentia do intenso politeísmo e animismo em que estavam espiritualmente mergulhados.
Sentia-se indignado com a cultura materialista que dominava a cidade, e insatisfeito com a forma como órfãos, pobres e viúvas eram excluídos da sociedade. Reputado por sua sabedoria e por sua capacidade de arbitramento de disputas entre as lideranças tribais, era então chamado de Al-Ameen (“o confiável”) devido ao seu senso de justiça demonstrado nestas intermediações.
Maomé fazia parte de uma facção religiosa existente em Meca que, inspirados pelos princípios judaico-cristãos, distanciavam-se dos cultos pagãos ali praticados, denominando-se hunafa, termo derivado do siríaco hanephe, que significa gentio ou pagão (3). Os hunafa declaravam-se crentes no Deus único de Abraão.
Maomé conhecia a história do povo judeu, conhecia também o Deus de Abraão e percebeu como a revelação desse Deus aos judeus trouxera uma profunda coesão e sentimento de unidade étnica entre eles. Assim como entre os judeus, a religião era o aspecto cultural mais significativo para a vida das tribos árabes daquele tempo. Maomé viu portanto que este seria o caminho para a unificação e o desenvolvimento social do seu povo. Entretanto, não via a possibilidade de adotar nem o judaísmo nem o cristianismo como religião de sua nação, devido a desentendimentos que teve com os judeus e também devido aos conflitos doutrinários existentes entre essas religiões.
Maomé elaborou assim, através do Corão, uma transposição cultural do judaísmo – e, em certa extensão, também do cristianismo – para a sua gente, tendo como meta instaurar entre eles o culto a um único Deus, e estabelecer o fundamento cultural para o surgimento de uma nação árabe. (3) Maomé foi portanto um grande líder social e, embora não soubesse ler ou escrever, era um talentoso poeta. O Corão é na verdade uma magnífica obra poética religiosa de tradição oral, assim como o épico hindu Mahabharata. Maomé certamente foi inspirado a criar esta obra, mas essa inspiração não poderia jamais ser considerada uma revelação divina, pois o Deus a quem ele se refere, não é o mesmo Deus bíblico.
O próprio Maomé não tinha a princípio a certeza de ser um profeta, e tampouco da fonte de suas revelações. Conforme afirma Daniel Shayesteh, os poetas árabes acreditavam que somente poderiam ser considerados autênticos poetas aqueles que fossem possuídos por um jinn ou djnn, um ser espiritual, que os compelia a recitar os versos por eles inspirados. A natureza moral destes espíritos não era importante, contanto que ajudassem a tribo a crescer e prosperar. A inspiração espiritual de Maomé é altamente controvertida, como atestam os chamados “Versos Satânicos” (53:19-20) do Corão, em que são exaltados os deuses pagãos al-Lott, al-Uzza e Manat. Maomé depois afirmou que esses versos haviam sido inspirados por Satanás, com a permissão de Allah, com o fim de confundir os homens de coração endurecido. Maomé veio depois a remover essa revelação, segundo ele também por determinação de Allah. (2)
Maomé foi persuadido quanto à legitimidade e nobreza de seu ministério por Khadijah, sua primeira esposa, e pelo tio dela, Nofel. Khadijah, uma próspera comerciante e poetisa, foi sempre o maior apoio de Maomé em seu ministério, e provavelmente ele não teria sido bem sucedido sem ela.
Não se pode avaliar entretanto até onde o Corão foi inspirado espiritualmente e até onde ele é fruto das convicções pessoais de Maomé e de influências judaico-cristãs. A prova da influência das Escrituras judaico-cristãs na produção do Corão é o fato de que os seus versos (Ayat), “ao contrário da poesia altamente refinada dos árabes pré-islâmicos, apresenta em sua estrutura rimas e ritmos distintos, mais semelhantes aos enunciados proféticos, marcados por descontinuidades inspiradas, encontrada tipicamente nas escrituras sagradas do judaísmo e do cristianismo”. (5)
Alguns rituais islâmicos e passagens do Corão têm forte influência do zoroastrismo, religião que Maomé veio a conhecer através de um estudioso chamado Salman Farsi. Maomé se inspirou também certamente na vida de Zoroastro (ou Zaratustra) e em sua luta pela extinção do politeísmo entre os povos da antiga Ásia Central. (2)
O maometismo, que pregava o islã ou a humildade e submissão, foi bem aceito por grande parte da população de Meca, entretanto a liderança de Maomé foi rejeitada pela maioria das tribos e Maomé se viu forçado a abandonar a cidade, em 622 d.C. e fugir para Yathrib, depois chamada Medina. Ali conviveu com judeus e cristãos, os quais ele chamava de “O Povo do Livro”, um termo usado para designar os não muçulmanos de religiões que possuíam uma Escritura revelada, chamada em árabe Al-Kitab, ou “o Livro” e “a Escritura”. Esses povos mencionados no Corão, são os judeus, os cristãos e os árabes.
Em Medina ele arregimentou um número significativo de seguidores, que lutavam ao seu lado. Por volta de 627 d.C., Maomé tinha unido toda Medina sob o Islã, com o desaparecimento dos seus inimigos internos. Os beduínos, após um período de batalhas e negociações, tornaram-se aliados de Maomé e aceitaram a sua religião. Em 630 d.C., depois de muitas batalhas, Maomé consegue assumir o domínio de Meca, destruindo os ídolos pagãos ainda ali existentes.
Devido à desentendimentos crescentes com os judeus, Maomé mudou a direção da oração dos muçulmanos de Jerusalém para Meca e legitimou a guerra contra os não-muçulmanos, o que levou à expulsão e extermínio de todos os judeus em Medina. Logo depois, Maomé rejeitou também os princípios cristãos que ele tinha no início aceito. Ele negou Jesus como sendo filho de Deus, sua divindade e o conceito cristão da Trindade. (6) Alguns versos do Corão, que elogiavam os cristãos e os judeus, acima de todos os outros povos (Q.2: 62; Q.3: 55) foram depois alterados de modo a refletir sua nova posição política, como nos versos Q.9: 5; Q.4: 171 e Q.9: 31.
Até a sua morte, em 632 d.C., Maomé havia já se tornado o líder político e religioso mais poderoso da península árabe, tendo conseguido estabelecer alianças com a maioria das tribos nômades ali existentes. Ao se converter à sua doutrina, os adeptos se tornaram conhecidos como muçulmanos, ou seja, aqueles que se submetem a Deus.
Por vezes visto como um ramo separado do Islã, o sufismo é considerado uma forma de misticismo que pretende alcançar um contato direto com Deus através de uma série de práticas que geralmente incluem o ascetismo exterior, ou seja; a vida ascética do sufi em relação ao mundo e práticas místicas, como a meditação e a dança. O sufismo ganhou adeptos entre um grande número de muçulmanos como uma reação contra o materialismo do califado Umayyad (661-750 d.C.).
O islamismo possui várias concepções dos requisitos necessários para a salvação, porém basicamente é aceito que o homem é salvo pela fé em Deus e pelo cumprimento de seus ensinamentos, conforme o Corão.
O Deus do islamismo é um deus de justiça, mas não um Deus de amor. Ele está, “tão perto quanto a jugular” (Q.50:16), mas ao mesmo tempo tão distante que não se pode relacionar com ele. Ele é totalmente incognoscível e determina o destino dos homens, podendo ou não alterar essa determinação, segundo as obras de cada um, de modo que nenhum muçulmano tem certeza de sua salvação, inclusive o próprio Maomé.
Quando um muçulmano conhece a Cristo, e Ele lhe revela a verdadeira natureza do Pai, então são abertos os seus olhos e seus ouvidos espirituais, porque conhece o único e verdadeiro Deus. A grande diferença entre Deus e Allah é o Filho, isto é, Jesus Cristo, a perfeita manifestação de seu amor, de sua justiça e de sua graça. O muçulmano, como todos os homens, encontra em Cristo a sua redenção e a certeza de sua salvação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Bard, Mitchell G. The Complete Idiot’s Guide to Middle East Conflict. 3rd Edition. NY: Alpha Books, 2005.
2. Shayesteh, Daniel. The Difference is The Son. Daniel Shayesteh, 2004.
3. Grypeou, Emmanouela. The Encounter of Eastern Christianity With Early Islam. Edited by Mark N. Swanson, David Thomas Emmanouela Grypeou. Brill Academic Publishers, 2006.
4.Conforme o site Answering Islam: “Ele [Maomé] dedicou-se, portanto, a transplantar em suas mentes [dos habitantes de Meca] algo do “conhecimento” das coisas religiosas que aqueles que habitavam nas nações mais desenvolvidas possuíam. Sua própria familiaridade com esse “conhecimento” era bastante limitada, e a oposição dos habitantes de Meca para sua doutrina fundamentalmente monoteísta emprestou um caráter denunciatório à maioria dos seus ensinamentos. Mas uma certa quantidade de ensinamentos positivos ele havia adquirido e promulgado no Corão, antes de sua migração para Medina. Para isso, ele havia atentado para aqueles que tinham sido monoteístas antes dele, i. e., para judeus e cristãos. É quase impossível decidir em detalhes se ele inspirou-se em fontes judaicas ou cristãs. Também não importa muito. Não parece que nos estágios iniciais ele tenha feito distinção entre eles. Toda religião era para ele revelada, e o conteúdo da revelação dada por um único Deus, deve ser também único. Em qualquer caso, ele tinha o hábito utilizar monoteístas anteriores como fonte de seu conhecimento, e ele naturalmente assumiu que eles concordariam com ele.” (Who Were the Hanifs? – http://www.answering-islam.org/Books/Bell/hanifs.htm)
5 Nasr, Seyyed Hossein. “Qur’an.” Encyclopædia Britannica Online. March 15, 2011. http://www.britannica.com/EBchecked/topic/487666/Quran.
6. Conforme mostra Daniel Shayesteh, em The Difference is the Son (pp. 132-136) o Corão é contraditório com relação aos ensinamentos sobre a divindade de Cristo. Isso se deve ao fato de Maomé haver inicialmente incorporado nele alguns princípios cristãos fora de seu contexto e mesclado estes princípios com outras fontes, arranjando-os no Corão de forma a diferenciar a sua mensagem do texto bíblico. Entretanto, a própria lógica do Corão não nega a divindade de Cristo, como demonstram os versos Q.3:45-47; Q.4:171b; Q.19:17 e Q.21:91. Entretanto, alguns versos acusam os cristãos de afirmar que Deus teve um relacionamento carnal com Maria de modo a gerar Jesus (Q.4:171c; Q.6:101 e Q.112:1-4); o que é um conceito desvirtuado da concepção virginal. Maomé admite a possibilidade de Deus gerar um filho no verso Q.39:4 do Corão, o que contradiz o seu ensinamento básico de que Deus é incognoscível e também a sua condenação dessa afirmação pelos judeus e cristãos, no verso Q.9:30).
Cristianismo não é Moralismo
julho 21, 2011
A maioria dos não cristãos julgam que a essência do cristianismo é a sua moralidade e que a pregação cristã é basicamente moralista.
Entretanto, esta visão, embora justificada pelo comportamento de muitos cristãos, é completamente equivocada. Jesus jamais foi moralista, ao contrário, repreendeu veementemente os moralistas de sua época. Jesus confrontou os fariseus e seu legalismo hipócrita, pois não havia neles um coração realmente reto e temente a Deus, mas apenas uma aparência de piedade.
O moralismo é a crença de que todo indivíduo deve se comportar segundo determinados padrões morais, tidos como ideais pela sociedade, por uma religião ou por uma doutrina filosófica.
É um fato que o cristianismo possui uma moralidade intrínseca, originária dos princípios bíblicos. Entretanto, essa moralidade é completamente diversa de outras formas de moralidade, pois não pode ser imposta a ninguém. Ela nasce da transformação íntima operada em cada cristão, quando realmente convertido.
O verdadeiro cristão não se comporta de acordo com os princípios cristãos por que foi ensinado a agir dessa ou daquela forma, por essa ou aquela igreja, mas por que seus valores pessoais foram efetivamente transformados e ele possui uma convicção íntima e própria destes princípios.
Esse processo é absolutamente pessoal e ocorre de forma individualizada. Por isso não faz sentido cobrar de ninguém um determinado padrão de comportamento cristão, pois esse comportamento depende do relacionamento íntimo de cada indivíduo com Deus.
Infelizmente, entretanto, muitas igrejas e líderes cristãos confundem espiritualidade com religiosidade e transformação de vida com moralidade e instituem uma série de normas e padrões de comportamente a serem rigorosamente obedecidos por toda a congregação. Cristãos formados segundo esse modelo tornam-se moralistas, e passam a policiar uns aos outros e também a sociedade, julgando o comportamente de cada um segundo esses padrões morais.
Isso não significa porém que o cristão é transigente com relação a seus valores. Os princípios cristãos são eternos e independem de características culturais, pois não são adquiridos intelectualmente. Eles são construídos espiritualmente, através da fé e a fé cristã não é comparável à fé religiosa, pois não surge a partir de uma crença ou identificação ideológica, mas a partir da revelação divina, através das Escrituras.
As leis de Deus são perfeitas e eternas e não precisam e nem podem ser mudadas, para se adaptar às mudanças culturais humanas. Elas são como uma balança fiel, um referencial absoluto, que vai sempre cumprir a função para a qual foram criadas, de discernir o bem e o mal. Elas podem alterar a sua forma, mas nunca a sua essência.
As leis de Deus não são como as leis humanas, que precisam ser aperfeiçoadas com o tempo, por que o homem é um ser imperfeito. As leis de Deus são expressão de sua perfeita sabedoria e justiça. Por isso, são os homens que deveríam adaptar as suas leis às leis de Deus.
Apesar de pautar sua conduta por esse referencial absoluto, o cristão verdadeiro jamais se atribui o direito de julgar a quem quer que seja. Ele é tolerante para com o seu semelhante, por que reconhece suas próprias falhas e sabe que Deus é tolerante para com ele.Somente Deus, que é absolutamente justo, pode julgar o mundo.
Deus é justo e santo, entretanto é também misericordioso e compassivo. Em João 3:16 Deus revela, através da pena do apóstolo, que foi por amor que enviou ao mundo o Filho, para a redenção de todos os homens.
Nossas Lutas
julho 5, 2011
Certa vez, quando tinham se passado poucos meses após minha conversão, estava em uma biblioteca da PUC em Belo Horizonte e encontrei ali um livro que transformou radicalmente minha visão de vida.
O livro, Vinde Amados Meus, foi escrito por Frances Roberts, uma ministra de louvor, música de grande talento e uma grande serva de Deus. Abri o livro movido pela curiosidade, pois estranhei encontrar um livro evangélico na seção de psicologia daquela biblioteca.
Ao abrir o livro, deparei com um texto intitulado Cabeça ao Vento, que dizia:
“Não tenho sempre consentido que soprem ventos favoráveis sobre as velas do teu barco, por que então ficarias ocioso e dentro em pouco, descansado e insensível. É quando o vento é de alta pressão e as ondas ameaçadoras, que te tornas alerta e arguto, e assim Eu posso fortalecer a tua fibra espiritual.
“A tempestade não é algo para se temer, mas antes para se recepcionar. Tu aprenderás a descobrir a tua cabeça ao léu do vento com absoluta delícia, tanto quanto farás a descoberta das mais clarividentes revelações de Mim mesmo nos tempos de tensão e de tristeza.”
E foi exatamente isso que aprendi. Temos a tendência a abominar os períodos difíceis que temos muitas vezes que atravessar em nossas vidas, aos quais muitas vezes nos referimos como lutas ou provações.
Esta é uma reação natural humana, uma vez que esses períodos normalmente exigem de nós o máximo de nossa força física e emocional, e chegam muitas vezes a nos dar a impressão de que ameaçam a nossa própria sanidade mental.
Entretanto, a própria psicologia humana reconhece que é através dos desafios que temos que encarar ao longo de nossas vidas que amadurecemos emocionalmente e adquirimos sabedoria. Uma vida sem desafios ou tensão produz pessoas frágeis, medrosas e que geralmente desistem de seus objetivos diante dos menores obstáculos.
Em minha infância, fui poupado de muitas lutas por uma mãe amorosa mas superprotetora, o que reforçou traços da minha personalidade como a indolência e a timidez, que somente muito tempo depois foram superados, graças à ação transformadora do Espírito Santo em minha vida.
Jesus afirmou que como galhos de sua videira, precisamos ser periodicamente submetidos a podas espirituais, para que permaneçamos frutíferos (João 15:2). Essas podas são quase sempre dolorosas, mas são benéficas e essenciais, para que glorifiquemos ao Pai através de nossas vidas.
A maioria dos cristãos, diante das provações, se põe de joelhos como eu mesmo fazia, e clama a Deus em desespero e entre lágrimas, que os livre das lutas e lhes dê vitória o mais rápido possível.
Essa atitude covarde e infantil entretanto provocaria espanto e indignação ou talvez risos entre a maioria dos valentes guerreiros dos tempos bíblicos. Aqueles homens não dispunham de armas sofisticadas, apenas de um escudo, uma lança e uma espada e tinham que vencer batalhas em lutas corpo a corpo contra seus mais ferrenhos inimigos. Entretanto, a maioria deles se sentiam estimulados com isso e alguns até mesmo se alegravam com as batalhas.
Hoje não lutamos contra a carne, a nossa luta é na maioria das vezes espiritual, mas geralmente subestimamos o maior de nossos inimigos: o nosso próprio ego e simplesmente ignoramos o poder que Deus coloca à disposição de todos os que nele confiam.
Quando leio o relato das proezas dos trinta valentes de Davi, ressalta aos meus olhos o quanto nos tornamos frágeis, acomodados e covardes nos dias de hoje. Evidentemente nem todos nós nascemos fortes, mas Deus nos promete suprir as nossas fraquezas, desde que sejamos valentes, isto é, confiemos em seu poder.
Quantos de nós demonstram a coragem de enfrentar tão prontamente os gigantes espirituais com que temos que lutar hoje, como Davi demonstrou ao se prontificar a combater o gigante filisteu? Ou Josué e Calebe ao decidirem tomar posse da terra prometida, apesar das circunstâncias desalentadoras que ali encontraram? Ou ainda, o apóstolo Paulo, que se regozijava nas tribulações, antevendo o seu benefício futuro?
Esta é a exata medida de nossa fé: a confiança que demonstramos no poder do Deus a quem servimos, não durante os tempos de paz, mas durante os dias de luta. Essa medida é que vai determinar o tipo de cristão em que nos tornaremos.
A Marcha da Maconha
junho 18, 2011
A maconha é geralmente considerada a mais popular, barata e inofensiva das drogas, muito menos nociva que o fumo e o álcool. Os seus usuários não veem sentido na sua proibição, e proclamam, agora pelas ruas, que a legalização do consumo do baseado seria altamente benéfica para a nação. Estarão com a razão os apologistas da droga?
Não faltam teorias conspiratórias que associam a repressão governamental ao uso da maconha a interesses escusos, tanto políticos quanto econômicos.
Segundo essas teorias, esta repressão faria parte da política expansionista norte-americana e também do combate à presença cada vez maior dos mexicanos no sul daquele país, disputando empregos com os cidadãos norte-americanos.
Essas teorias conspiratórias políticas denunciam, às vezes delirantemente, um suposto preconceito dos países ricos em relação a árabes, chineses, mexicanos e negros, usuários tradicionais da droga. Para os mais exaltados, como o cientista político Thiago Rodrigues, a proibição das drogas é uma forma de controle social utilizada pelos governantes. (1) Os que pensam dessa forma certamente consideram também a religião apenas como um instrumento de dominação.
Existem também as teorias conspiratórias econômicas, que associam a repressão à maconha ao interesse de grandes grupos econômicos como a Du Pont, que temeria a concorrência da fibra natural do cânhamo em relação à suas fibras sintéticas, como também de William Randolph Hearst, dono de uma grande rede jornalística, que plantava eucaliptos e outras árvores para produzir papel. Ele teria assim também interesse em que a maconha americana fosse destruída – levando com ela a indústria de papel de cânhamo.
A verdade, porém é que grande parte politica de combate ao uso da maconha foi equivocada, motivada pela pouca informação disponível sobre as conseqüências do seu uso, o que teria provocado reações alarmistas por parte dos órgãos governamentais. Os dados considerados até hoje mais confiáveis sobre o assunto foram obtidos apenas em 1995, com a conclusão do relatório oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre as consequências físicas e psicológicas do uso da maconha.
Segundo esse estudo, foram comprovados os seguintes malefícios produzidos pelo uso contínuo da maconha:
a) Redução da capacidade de raciocínio e da memória;
b) Indução ao uso de drogas mais pesadas, sobretudo entre adolescentes;
c) Prejuízo da coordenação motora;
d) Dano ao aparelho respiratório;
e) Redução da produção de hormônios;
f) Acentuação de problemas psiquiátricos em pessoas com histórico destes problemas;
g) Efeito desmotivacional em adolescentes.
O estudo da OMS não comprovou nenhum efeito danoso da maconha sobre o sistema imunológico de pessoas saudáveis, entretanto outros estudos apontam riscos para pessoas portadoras do vírus HIV.
Do ponto de vista moral e psicológico, a maconha é semelhante a qualquer outra droga. Além dos seus efeitos nocivos sobre o organismo, causa dissolução psíquica e espiritual, ou seja, perda parcial da capacidade de autodomínio e autocensura, levando a uma liberação de eventuais limites morais, presentes no estado normal de consciência. Causa também a despersonalização do indivíduo. Despersonalização é uma síndrome de desordem dissociativa, caracterizada por sensações de irrealidade, de ruptura com a personalidade, amnésia e apatia.
Além disso, tende a potencializar a sensibilidade física e emocional, em detrimento da capacidade intelectual e da sensibilidade espiritual.
O uso de drogas é ancestral na história da humanidade e faz parte da cultura humana, o que não significa, no entanto, que deva ser aceito como uma característica normal do comportamento humano e muito menos incentivado. O uso de drogas, assim como outros vícios, é uma forma degenerada de expressão do impulso ontológico humano de transcender a realidade material.
Mas assim como outros vícios, deve ser combatido, não através da repressão pura e simples, mas através da conscientização pública, da prevenção e da promoção da realização pessoal e espiritual do indivíduo, que é a forma legítima de atualização do impulso de transcendência.
O desenvolvimento da dependência da maconha, embora seja baixo entre adultos (entre 6% e 12%) é bastante freqüente entre jovens e adolescentes, (46,3%) conforme demonstra o estudo Curso Natural do Uso, Abuso e Dependência de Maconha ao Longo das Primeiras Décadas de Vida, publicado pelo periódico médico Addiction.[2]
Entretanto, a dependência de drogas é um problema de saúde, não um problema criminal. Não faz sentido punir criminalmente o usuário da droga, mas sim proporcionar a ele o tratamento médico e psicológico adequado. Nada mais justo, portanto, que descriminalizar o uso da maconha e de outras drogas.
Legalizar, no entanto a produção e a comercialização da maconha é uma questão complexa, que tem aspectos positivos e negativos.
Por um lado, a legalização cria uma atividade industrial e comercial intensa, que gera empregos e impostos, como aconteceu com o fumo e com as bebidas alcoólicas. Aparentemente elimina também o tráfico dessa droga e seus efeitos nefastos, como a criminalidade e o surgimento de formas de poder político econômico ilegais. Entretanto, essa suposição é ilusória. A maconha tem importância secundária na economia do tráfico de drogas, que tem nas drogas pesadas a sua maior lucratividade.
Os países citados como exemplo do sucesso da legalização da maconha não são parâmetros para o resto do mundo. A Suécia e a Holanda não têm tantos problemas de injustiça social e desemprego como os países em desenvolvimento. Além disso, como lembrou Antonio Maria Costa, diretor-executivo do Escritório de Drogas da ONU, não estão na rota do tráfico internacional e sua população possui um alto nível de escolaridade, o que facilita as campanhas de prevenção.[3]
Por outro lado, a legalização certamente provocaria um aumento no consumo da droga, o que por sua vez causaria ainda mais confusão social, pelos seguintes motivos:
a) A polícia, de um modo geral, não está preparada para combater o remanejamento das atividades do narcotráfico. Se não puderem vender maconha, os traficantes continuarão vendendo outras drogas e se o consumo dessas drogas diminuir, eles vão buscar outra atividade criminosa.
b) Não existe também; como apontou o jornalista Ruy Castro; infraestrutura adequada na rede de saúde pública no Brasil para atender o aumento dos casos de dependência que certamente ocorreria.[4] É de conhecimento público que o imposto proveniente do fumo e das bebidas alcoólicas, que deveria servir prioritariamente para o tratamento dos malefícios causados pela dependência destas drogas, não é efetivamente empregado para este fim.
c) Embora na Holanda tenha havido uma diminuição no consumo de drogas pesadas com a legalização do consumo da maconha, nada garante que isso ocorreria também em outros paises. Caso haja um aumento no consumo da cocaína no Brasil, por exemplo, aumentará também a violência social, que é normalmente associada ao consumo dessa droga.
A solução para a questão do uso de drogas, a longo prazo, é investir na melhoria das condições socioeconômicas e a curto prazo, na sua prevenção. O cânhamo possui sem dúvida usos medicinais e industriais; muitos deles ainda desconhecidos ou pouco explorados. Estas possibilidades podem e devem ser amplamente exploradas, pois são totalmente independentes do uso psicotrópico da droga.
Toda manifestação pela liberalização do uso da maconha como droga é irresponsável, na medida em que desconsidera a complexidade e os altos riscos envolvidos nas implicações desta medida, não apenas para usuários ainda incapazes de avaliar as consequências do uso da droga, como também para a sociedade em geral, que deverá arcar não apenas com o seu custo econômico, mas sobretudo com o seu custo moral e espiritual.
Ao ver erguidas nas ruas bandeiras como as da Marcha da Maconha e da Parada do Orgulho Gay, me entristeço profundamente, por constatar que em um país ainda tão carente de Deus, de justiça e de igualdade social, milhares de pessoas preferem se mobilizar por ideais como o direito de se drogarem e de instituir a perversão de sua sexualidade.
[1] Drogas: proibir é legal? – Tarso Araújo – Superinteressante – Ed. 244 – Outubro 2007
[2] Addiction, 103, 439-449 – Autores: Axel Perkonigg, Renée D. Goodwin, Agnes Fiedler, Silke Behrendt, Katja Beesdo, Roselind Lieb, Hans-Ulrich Wittchen. – 1995-2005
[3] Drogas: proibir é legal? – Tarso Araújo – Superinteressante – Ed. 244 – Outubro 2007
[4] Pressa em Liberar – Ruy Castro – Folha de São Paulo – 10/06/2011
