Muitas pessoas são capazes de lutar e vencer os seus vícios e até mesmo enfermidades apenas por esforço próprio e com ajuda médica e de seus entes queridos; movidos não por motivos espirituais, mas por uma motivação pessoal e por amor próprio, ou por princípios morais. A auto-estima elevada, o amor à vida e às pessoas significativas em nossas vidas são poderosos motivadores psicológicos; capazes de produzir grandes transformações no corpo e na mente das pessoas. Entretanto, quando não dispomos de motivação pessoal ou social para resistir ao pecado, ou pior; quando não temos consciência do pecado como transgressão espiritual, capaz de contaminar não apenas a mente e o corpo, mas a própria alma; normalmente nos entregamos às nossas suscetibilidades e paixões carnais, pois somos então totalmente submissos a elas, tendo sido por elas escravizados.
É impossível rompermos esses laços profundos e fortes de dependência espiritual do pecado sem a ajuda de Deus. A obra redentora da salvação espiritual opera em nós a partir do momento em que o Espírito Santo nos dá consciência do pecado como transgressão fatal da lei divina e assumimos perante Deus, com base nessa consciência, uma atitude de sincero arrependimento e não apenas um sentimento de culpa e pesar. É impossível descrever o que acontece com a psicologia de uma pessoa que passou por uma autêntica conversão espiritual cristã. O seu centro de gravidade psicológico, que antes era o ego, passa agora a ser o Espírito Santo, que opera nela uma verdadeira revolução espiritual.
O Espírito Santo passa a guiar a vida dessa pessoa e a operar em seu coração a regeneração espiritual, processo este que Jesus chamou de renascimento espiritual. Aqueles que ouvem a voz de Deus e atendem ao seu chamado realmente nascem de novo e já não são mais a mesma pessoa. Logo sentem dentro de si uma mudança em seus valores e afinidades e já não sentem mais prazer ou satisfação nos antigos hábitos. Sentem repugnância pela promiscuidade, pela vulgaridade e por quaisquer formas de vícios. Indignam-se com furor contra a injustiça e são capazes de sentir compaixão pelos necessitados e pelos que ainda não ouviram o chamado de Deus, como também um desejo cada vez maior de fazer alguma coisa por estas pessoas.
Por outro lado, sentem imenso prazer em orar e buscar a presença de Deus, em meditar em sua mensagem e em compartilhar com outros irmãos em Cristo a sua nova vida. Buscam de alguma forma servir a Deus e a seus semelhantes, conforme seus dons e talentos. São transformados por esse renascimento em seres livres da escravidão da ignorância espiritual e do domínio inexorável do pecado sobre as suas almas e podem agora escolher entre pecar ou não pecar. Podem agora escolher conscientemente entre ceder ao velho jugo da carne e do egoísmo ou tomar sobre si o suave jugo de Cristo, para segui-lo.
Isto não significa que aqueles que são salvos em Cristo tornam-se instantaneamente perfeitos. Eles ainda estão sujeitos a errar e a cair em tentação, pois ainda são humanos. Ocorre, contudo, em seu íntimo uma mudança radical de atitude, tanto em relação à vida quanto em relação ao mundo. O cristão agora pauta a sua conduta não mais sob um prisma apenas ético ou humanitário, mas de um ponto de vista espiritual, infinitamente mais amplo, fundamentado nos ensinamentos de Jesus. O cristão verdadeiro não é apenas uma pessoa de bom caráter, mas alguém que conheceu a Deus e foi chamado por Ele de filho e por isso devotou a sua vida a continuar a conhecê-lo e a aprender a confiar nele, a amá-lo e a obedecê-lo, como seu legítimo Pai espiritual.
Quanto mais perseveramos no caminho da santificação, isto é, no caminho que nos separou espiritualmente do mundo e escolhemos seguir a Cristo em nossas decisões diárias, mais somos fortalecidos no poder do Espírito Santo e mais crescemos no conhecimento e na comunhão com Deus e, conseqüentemente, na fé. Com a conversão cristã, tem início na vida do novo discípulo a mais terrível e a mais nobre das batalhas, a luta contra nosso egoísmo, nosso orgulho pessoal, nossas fraquezas e limitações. O ego cobra um alto preço para abrir mão de seu domínio sobre nós e é somente pelo poder da fé e do Espírito Santo que podemos vencer esta luta.
Os verdadeiros filhos de Deus são antes de tudo bons servos e valentes guerreiros espirituais, cujo coração é puro e humilde como o de uma criança. Deus os capacita para a batalha, dando a eles força e proteção, mas requerendo também deles coragem, ânimo e determinação. Muitos são os que dão o primeiro passo e experimentam uma real conversão cristã, mas que lamentavelmente tombam durante a batalha espiritual, por lhes faltar estas qualidades. Esta batalha espiritual é primeiramente contra nós mesmos, contra o nosso próprio egoísmo, nossas próprias debilidades e depois contra as mazelas que o pecado traz sobre a sociedade em geral. Nessa luta, o Inimigo de nossas almas, tentará de todas as formas impedir que o cristão seja vitorioso em sua luta contra o mal e ele somente poderá vencer se estiver em plena comunhão com Deus, vivendo em fidelidade e em justiça, fortalecido pela fé e perseverante em oração.
A nossa vitória individual sobre o pecado é consolidada à medida que deixamos de ser meros admiradores e simpatizantes doutrinários de Jesus, isto é, movidos apenas por princípios cristãos, e nos tornamos seus verdadeiros discípulos, tendo então esses princípios doutrinários se transformado para nós em verdade sólida. Isto acontece quando passamos realmente a ouvir a voz do Espírito Santo em nosso íntimo e a obedecer a sua direção e a sua benigna influência em nossos pensamentos, palavras e decisões. Isto transforma radicalmente os nossos relacionamentos familiares e sociais, de modo a que não mais se manifestam em nossas vidas as “obras da carne”; as quais, conforme Paulo exemplifica são: “a prostituição, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as facções, as dissensões, os partidos, as invejas, a embriaguez, as orgias, e coisas semelhantes”. Pelo contrário, em todas as áreas de nossas vidas manifesta o que Paulo chama de “o fruto do Espírito”; que são verdadeiras virtudes, como “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”
A mensagem do evangelho começa então a produzir frutos em nossas vidas, materializados através de “boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas”. Quanto mais entregamos efetivamente nossas vidas à direção de Cristo, como seus verdadeiros seguidores, mais bons frutos produziremos e mais seremos, gradativamente, transformados no sentido de nos tornamos cada vez mais semelhantes a Ele, até atingirmos a plenitude de sua estatura.
Se formos fiéis a Deus dessa forma, teremos então vencido esta que é a mais sublime das batalhas, o bom combate que constitui o maior desafio de nossas vidas; a batalha para a qual Cristo nos chama e que é decisiva para a nossa salvação espiritual. Cristo já venceu por nós esta batalha sobre a cruz, mas se cremos em sua vitória, é preciso então que vivamos cada dia como verdadeiros vencedores. Poderemos então ao final de nossas vidas dizer, como o apóstolo Paulo confessou a Timóteo, ao final de sua vida:
“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.”
2 Timóteo 4:7-8
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