"Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?" Parte 1/2

A sociedade judia nos tempos bíblicos era inteiramente teocrática. Por esse motivo, os preceitos religiosos faziam todo o sentido e eram as linhas mestras sobre as quais se organizava o governo e as relações sociais. Nos dias de hoje, entretanto, em nossa sociedade completamente antropocêntrica; marcada pelo individualismo, a competição, a realização pessoal, o hedonismo e o materialismo, que sentido faz a religião?

A religião de um modo geral, em nossa sociedade ocidental pós-moderna ainda faz sentido, mas de forma totalmente diversa daquele do passado, quando Deus era o fulcro sobre o qual se movia o mundo. A religião hoje se tornou quando muito um mero complemento de vida, ocupando o plano de fundo das atividades humanas.

Quanto mais avançam no conhecimento científico, mais os povos tendem a se afastar de Deus, cuja existência é relegada ao improvável, sob o aparente poderio da razão, que parece sinalizar à humanidade que o conhecimento científico é ilimitado e que nada mais existe além da realidade natural. Pesquisas indicam que 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos não aceitam a idéia da existência de Deus. Há dez anos, a revista Nature informou que 60% dos cientistas não acreditavam em Deus, sobretudo entre os biólogos.

A ciência, entretanto, ainda não suspeita, ou não admite, que na verdade a essência da consciência humana e grande parte dos fenômenos e fatos naturais são determinados pela realidade espiritual. A religião e a noção de Deus são vistas por esta ciência como fruto de processos cerebrais, visão esta que na verdade confunde causa e efeito. As alterações cerebrais detectadas por instrumentos científicos no estudo de indivíduos sob influência de experiências místicas são a verdade o reflexo da experiência religiosa e não a sua causa.

As pessoas em geral ainda crêem em Deus. Pesquisas recentes feitas nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil revelam que a grande maioria da população crê na existência de Deus, embora não necessariamente o Deus cristão. Entretanto, estas pessoas curiosamente se comportam no dia-a-dia como se na verdade Deus não existisse; ou como se fosse impossível para elas se relacionar com Ele, o que dá no mesmo.

Os inimigos do cristianismo vêm no Deus cristão um ser ambíguo, que se mostra por um lado vingativo e cruel e por outro amoroso e compassivo. Esta percepção equivocada de Deus não é moderna, e nem mesmo é exclusiva de leigos ou ateístas, pois o teólogo Marcião de Sinope, do primeiro século da era cristã, também a defendia. Assim como Marcião, os que se apegam a esta visão distorcida e infantil de Deus não percebem que Deus concilia em si mesmo a perfeita justiça e o perfeito amor. A justiça não exclui a compaixão e a compaixão não pode excluir a justiça. Além disso, o profundo antropocentrismo em que mergulhou o mundo desde a modernidade, impede o ser humano de reconhecer que a justiça espiritual de Deus está absolutamente acima dos conceitos rudimentares de justiça dos homens.

A espiritualidade humana tomou um sentido inverso ao da ciência, pois ao invés de evoluir, parece ter degenerado; gerando o ódio a violência entre facções religiosas em disputa, conflitos estes normalmente entremeados de imbróglios políticos e raciais. Onde não gera conflito, a religião parece haver encontrado uma acomodação pacífica, mas também inútil no coração dos homens, ocupando humildemente o segundo plano da vida social.

O cristianismo não foge desta triste dicotomia, pois se por um lado não defende a violência física, é freqüentemente acusado de violência moral, característica da discriminação social. Pelo outro lado, o cristianismo também se degenerou em grande parte; em uma forma de religiosidade nominal ou cultural, que simplesmente neutralizou o caráter fundamentalmente revolucionário do Evangelho, como instrumento do Espírito de Deus para a redenção espiritual humana.

As igrejas cristãs parecem haver perdido a capacidade de produzir reais conversões de vida e de formar verdadeiros discípulos de Cristo, pela simples razão que os que se declaram cristãos não são capazes de demonstrar aos não cristãos, através de suas vidas cotidianas, que tenham experimentado uma verdadeira conversão espiritual e que tenham realmente nascido de novo.

Muitas igrejas e instituições cristãs tornaram-se palco de ação de oportunistas e de mercadores da fé, enquanto que outras se reduziram a meras instituições de recreação social e espiritual, caracterizadas não pela presença viva de Deus, mas por uma rotina ritual e pela pregação de uma ideologia estéril. Embora baseada na palavra de Deus, esta pregação não é a boa semente do Evangelho, pois não está voltada para o centro do Evangelho, que é Cristo; nem para o caminho que Ele representa, que é o da redenção espiritual, mas para o próprio mundo. Assistimos assim entristecidos a uma verdadeira crise de identidade que paralisa e dispersa a cristandade, causada pela perda do sentido real do Evangelho, ao longo de séculos de influência de novas culturas e de arrogância materialista e antropocêntrica.

Nossas igrejas estão infestadas de falsos líderes e falsos obreiros que vêem no ministério eclesiástico uma carreira como outra qualquer, em que objetivo principal é obter sucesso profissional e financeiro. A tentação do poder, da fama, do sexo e do dinheiro tem levado muitos desses líderes a sucumbir na trajetória de seus ministérios, deixando atrás de si um rastro de corrupção e um dano irreparável à imagem do cristianismo. O equívoco de alguns cristãos que crêem possuir uma vocação para a plena consagração de suas vidas ao ministério eclesiástico é o responsável por estas tragédias, cuja principal vítima é a própria igreja. A derrocada de um líder cristão, seja ele um pastor evangélico ou um sacerdote católico, é um prato altamente cobiçado pela mídia de comunicação, que vê nesses episódios uma oportunidade inigualável de execrar a igreja cristã.

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