“Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” Parte 2/2

A doutrina cristã se fragmentou em uma miríade de denominações teológicas e de seitas, o que se revelou como um subproduto nefasto da revolução protestante. Se por um lado o protestantismo serviu para retirar das mãos de um clero corrupto a autoridade absoluta pela direção da igreja de Cristo no mundo, reconhecendo como única autoridade capaz para tanto o Espírito Santo de Deus; por outro lado tornou possível a deflagração de um processo incontrolável de dispersão e desorientação, que gerou a multiplicidade de facções em que está hoje dividido o cristianismo. Esta dispersão da doutrina cristã; se deve não à falta de unidade ou a uma inconsistência na mensagem de Deus revelada nas Escrituras, mas na dificuldade que as pessoas têm de construir uma relação de verdadeira comunhão com Deus, através da qual possam compreender esta mensagem.

Em um mundo como o nosso, cujos valores preponderantes são a sensualidade e a vulgaridade, a busca desenfreada de riqueza e relevância social, o culto à ciência e à razão e um pragmatismo materialista que caracteriza a maioria dos regimes econômicos e sistemas de governo, ainda existe lugar para fé?

O apóstolo Paulo assim profetizou a Timóteo com relação ao que ele haveria de passar, também antevendo o que o mundo atual haveria de passar:

“Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos; pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder.” (2Timóteo 3:1-5)

Paulo, no entanto, recomenda a Timóteo a atitude a manter com relação a este estado de coisas e a fidelidade a Cristo:

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus.

“Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra.” (2Timóteo 3:14-17)

Quando Jesus veio ao mundo, a condição espiritual da sociedade judaica da sua época não era muito diferente daquela que vivemos hoje. Entretanto, quando acusado de conviver com a escória daquela sociedade, ele respondeu afirmando que os que necessitam do médico são os doentes, e não os sãos; e que viera chamar os justos, mas os pecadores. Enquanto houver enfermidade espiritual no mundo; que é o pecado, e enquanto houver no mundo pecadores, Cristo estará presente no mundo, para “proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, e para pôr em liberdade os oprimidos.”

Enganam-se, portanto, os que julgam que o cristianismo está morrendo ou que a palavra de Deus está sendo silenciada por outras religiões, mais sintonizadas com o mundo atual. Deus não muda, e o poder de sua palavra permanece o mesmo, ao longo dos séculos. Embora a ética cristã seja cada vez mais afrontada e execrada em várias frentes sociais, por ser considerada impraticável e até mesmo absurda; embora a Bíblia seja objeto de constantes questionamentos quanto à sua fidelidade aos seus originais e objeções quanto à sua coerência, e apesar ainda da debilidade espiritual de grande parte da cristandade, Cristo continua vivo e presente no mundo.

Cristo continua agindo silenciosamente, mas de forma absolutamente impactante através de sua verdadeira igreja, que vive e cresce de forma vigorosa; protegida das convulsões e da corrupção do mundo, preservada dos achaques materialistas e intelectuais e das vaidades que esterilizam a fé.

Em 1896, Charles Sheldon, um ministro da Igreja Congregacional em Kansas, Estados Unidos, escreveu um livro intitulado Em Seus Passos Que Faria Jesus; uma obra ficcional baseada em sua experiência pessoal à frente de sua igreja. Em sua obra, Sheldon procurava demonstrar a necessidade e a viabilidade de se praticar os princípios cristãos na vida diária de cada cidadão. A obra foi um grande sucesso editorial, sendo classificada entre os quarenta livros mais vendidos em todos os tempos e foi depois transformada em filme, em 1936 e em 1964. Sheldon mostrou que a prática do cristianismo no mundo moderno não era apenas viável, mas essencial; embora requeresse de seus seguidores uma abnegação e consagração que somente são possíveis àqueles que verdadeiramente se converteram a Cristo, e através dele renasceram espiritualmente.

Se Sheldon, já em sua época, se preocupava com a viabilidade da prática dos ensinamentos de Jesus, o que diria ele hoje, mais de um século depois?Se no final de século de 19 os eventuais seguidores de Cristo já podiam ser acusados de fundamentalismo, o que dizer daqueles que nos dias de hoje se propõem a efetivamente seguir os seus passos?

Entretanto, este tipo de fundamentalismo não só é benéfico como constitui a própria essência do Evangelho; e os cristãos que o desprezam são em geral aqueles que adotaram que uma forma totalmente inerte de cristianismo, um cristianismo egocêntrico e cultural, acomodando-se à adoção da doutrina de suas denominações, à disciplina de suas igrejas e à observância muitas vezes hipócrita de um conjunto de regras morais.O cristianismo é ação e esta ação não pode estar desvinculada da devoção e da adoração a Deus, pois Deus não um ser estático, mas um Criador que jamais cessa de agir. Cristo não era apenas um mestre que resumia sua missão ensinar e a reunir um grupo seleto de apóstolos e treiná-los para dar continuidade a sua obra. Ele era sobretudo um homem de ação, que demonstrava em tudo o que fazia a viabilidade de seus ensinamentos, agindo de forma integral sobre o corpo e o espírito das pessoas. Por isso Ele disse aos judeus que o acusavam de violar o sábado: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”.

O verdadeiro cristianismo não é aquele voltado para um proselitismo inconseqüente, para um ritualismo estéril ou para um legalismo que cultua a aparência e a busca do bem estar de seus seguidores. O verdadeiro cristianismo é aquele que causa transformação de vidas, que luta contra a injustiça e a hegemonia do pecado, que busca formar autênticos discípulos de Cristo. A verdadeira igreja de Cristo está fundamentada na Verdade da palavra de Deus, mas também no amor, pois em Cristo a verdade e o amor são uma só coisa.

É uma igreja que está voltada para a luta espiritual e a para a ação social e não apenas para a divulgação de uma ideologia religiosa. Ela está viva e robusta no meio da sociedade, embora normalmente não seja alvo de atenção da mídia. Esta é a igreja que é usada por Deus para instauração de seu reino na Terra e a sua ação é perfeitamente eficaz, pois é dirigida por Cristo.

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