d) A amizade entre Jônatas e Davi
“A alma de Jonatas se ligou com a alma de David; e Jonatas o amou, como à sua própria alma” (I Samuel 18:1)
Este é um episódio bíblico normalmente citado pelos defensores do homossexualismo como uma comprovação de que a prática da sodomia era aceita entre os judeus como natural. Em outras duas passagens de 1 Samuel, 18:2 e 20:41 e em 2 Samuel 1:26, parece estar claro, segundo o nosso contexto cultural, que Davi e Jônatas viviam uma relação homossexual. Entretanto, essa percepção se deve unicamente pela forma extremamente diversa de amizade autêntica entre homens na sociedade judaica daquela época, em relação aos costumes atuais. Jônatas considerava Davi não apenas como amigo, ou um irmão, mas também como herói, e passou a amá-lo ainda mais ao perceber a inveja que seu pai Saul tinha por ele e a forma como o perseguia.
Não era apenas Jônatas que amava Davi, Saul também “o amou muito” (1 Samuel 16.21). Mical, a irmã de Jônatas, “amava a Davi” (1 Samuel 18.20). O mesmo livro bíblico afirma que “todo o Israel e Judá amavam a Davi” (1 Samuel 18.16). O jovem [Davi] “era benquisto de todo o povo, e até dos próprios servos de Saul” (1 Samuel 18.5). Quando Davi soube da morte de Saul e de Jônatas, lamentou da mesma forma a morte de ambos: “Saul e Jônatas, tão queridos e amáveis na sua vida [...]” (2 Samuel 1.23)
A amizade entre estes dois personagens era realmente singular, devido à sua espontaneidade e profundidade, o que não implica necessariamente em uma conotação homossexual. Os evangelhos falam de uma amizade semelhante, entre Jesus e o apóstolo João: “Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava.” (João 13.23). Poucos atentam ainda para o fato de que na primeira parte de 2 Samuel 1.26 , Davi se refere a Jônatas como um irmão: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras.” O fato de Davi e Jônatas se beijarem, como relata 1 Samuel 20:41; também não comprova este tipo de relacionamento, pois até os dias atuais é comum, entre alguns povos, a troca de beijos entre homens, com uma conotação exclusivamente cultural. O apóstolo Judas traiu ao próprio Jesus com um beijo (Mateus 26:49).
Na segunda parte de 2 Samuel 1.26, “Teu amor me era mais precioso que o amor das mulheres”, é importante observar ainda que a palavra hebraica ahavá, normalmente traduzida como “amor”, não possui apenas conotação conjugal e sexual, mas também sentido paternal como, em Gênesis 25.28; sentido de amizade, como em 1 Samuel 16.21; sentido de amor a Deus , como em Deuteronômio 6.5; e no sentido de amor ao próximo, como em Levítico 19.18. É portanto por razão lingüística, e não por falso pudor, que a tradução bíblica NVI traz 2 Samuel 1.26 como “Tua amizade me era mais preciosa que o amor das mulheres”.
Uma outra forma de interpretação dos textos bíblicos foi introduzida através do princípio hermenêutico que leva em consideração o contexto cultural das sociedades envolvidas. Este princípio, embora válido, tem sido indevidamente utilizado para introduzir princípios humanistas de interpretação dos mandamentos morais cristãos, com o objetivo precípuo de relativizar e tornar inadequada a sua aplicação nos nossos dias.
A chamada Teologia Feminista é um movimento recente que tem insurgido como uma reação a algumas tendências sociais atuais, não se caracterizando como um movimento teológico originário da doutrina cristã. Este movimento possui claras ligações com formas de espiritualismo neo-pagãs, como o culto a Gaia e a Wicca. Esta Teologia Feminista procura relativizar as orientações morais bíblicas, alegando estarem as mesmas relacionadas a um determinado contexto histórico e cultural, e que portanto devem ser interpretadas hoje levando em conta as mudanças culturais ocorridas em nossa sociedade. A aplicação de um princípio bíblico pode realmente variar entre culturas e contextos sociais ao longo do tempo, mas este princípio não pode ser invalidado por estas mudanças. Por exemplo o princípio da prática adotada por algumas igrejas do uso de chapéus pelas mulheres nos cultos, é baseada na recomendação de Paulo no passado para que as mulheres usassem véus, como um sinal de submissão a Deus. Ou seja, o princípio bíblico da submissão é obedecido por meio do uso de um elemento do vestuário moderno e não do elemento específico citado por Paulo.
Uma igreja mais moderada e conservadora pode interpretar a mesma passagem 1 Coríntios 11: 1-16 através de um exame da cultura grega antiga, e concluir que durante a época de Paulo, prostitutas e mulheres promíscuas freqüentavam a igreja sem véu, por não se importarem em expor a sua conduta sexual. Assim, mais que se tornar um símbolo de igualdade, a falta do véu promovia a tentação e a desatenção na igreja. Paulo então teria assim pedido às mulheres para usarem véu como um símbolo de humildade e integridade. Esta igreja conservadora poderia então tentar aplicar o mesmo princípio aconselhando as mulheres a não usar determinado tipo de roupas, embora não tornasse normativo o uso de chapéus.
Em ambos os casos, estas igrejas ao interpretar das Escrituras tentaram descobrir o princípio bíblico subjacente à norma comportamental encontrada em uma determinada situação. O objetivo de ambas foi o de aplicar o mesmo princípio ao contexto cultural atual, considerando sempre entretanto, que a intenção do autor e o princípio teológico em si presente naquela norma eram divinamente inspirados. Como tal, tanto a intenção do autor como o princípio teológico foram reconhecidos como sendo divinamente inspirados, tanto no sentido doutrinário como no sentido prático, pois conforme afirma Paulo a Timóteo, “Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Timóteo 3.16)
A hermenêutica moderna liberal entretanto introduz um novo princípio, que relativiza a autoridade bíblica com respeito a quaisquer princípios ou normas que ela contenha, não reconhecendo o princípio básico da inspiração divina das Escrituras. Esta hermenêutica humanista considera que os autores dos textos bíblicos estavam necessariamente condicionados por sua cultura e limitados por seus valores pessoais e por suas próprias experiências de vida. Entretanto, o fato de Moisés não possuir o conhecimento científico necessário sobre o assunto, não torna o livro de Gênesis menos digo de credibilidade do ponto de vista moral e teológico de seus ensinamentos. Os intérpretes liberais afirmam ainda, por exemplo, que pelo fato de Paulo haver sido criado em uma cultura patriarcal, ele via a narrativa de Gênesis de criação do primeiro casal humano pelas lentes de sua cultura. Por isto ele teria ensinado que o homem é o cabeça do casal e pregado a submissão da mulher ao homem.
Esta hermenêutica retira do texto bíblico a autoridade que lhe é inerente; conferida pela inspiração divina, e a transfere assim para o intérprete; ao qual cabe agora a responsabilidade pelo discernimento das interferências culturais e pessoais dos seus autores, daquilo que seria verdadeiramente “o princípio fundamental” do texto. Este discernimento entretanto passa a ser feito segundo um novo parâmetro, que é determinado pela ideologia humanista da sociedade que está lendo aquele texto . No caso do movimento feminista atual, um destes novos princípios ideológicos é a “plena humanidade da mulher.”
Desta forma, este feminismo toma Gálatas 3:28, onde Paulo afirma que “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, como parâmetro canônico com relação aos papéis e relações entre os sexos masculino e feminino na Bíblia. As feministas atuais afirmam que este verso comprova que a revelação divina estabelece igualdade para os papéis a serem desempenhados pelo homem e pela mulher na sociedade. E também, com base no mesmo verso, afirmam que os outros ensinamentos bíblicos com relação a este assunto; que possuam uma conotação patriarcal, podem seguramente ser descartados como sendo destituídos de autoridade doutrinária . Entretanto, o erro hermenêutico aqui é o de utilizar uma passagem bíblica particular como padrão exegético para avaliação de outras passagens. Neste caso, não há uma confirmação crítica da validade de se tomar Gálatas 3:28 como um padrão crítico de avaliação deste assunto no restante da Bíblia, o que torna esse pressuposto subjetivo e portanto inválido.
Segundo a mesma hermenêutica falha, os ensinamentos de Paulo sobre homossexualismo e fornicação poderiam ser considerados reflexos de preconceitos de sua época. Dessa forma, hoje, em uma época supostamente mais esclarecida; com maior conhecimento científico, podemos constatar que o homossexualismo não é uma escolha moral, mas uma condição genética. A liberalidade sexual ,da mesma forma, não é mais um pecado; pois com o advento dos métodos contraceptivos modernos, foi eliminada a necessidade social de proteção da mulher grávida através do casamento. Outros argumentos similares poderiam ser levantados, de forma a justificar que as Escrituras não constituem mais um parâmetro comportamental para nossa sociedade. O erro que fundamenta este julgamento é novamente o pressuposto de que a intenção que caracteriza os textos bíblicos não é divinamente inspirada ou normativa. A relativização da moral cristã chegou ao ponto em que são utilizados princípios cristãos básicos que supostamente contradizem ensinamentos bíblicos específicos. A autoridade divina é assim diminuída, e a autoridade do intérprete é exaltada.
Não há dúvida de que as Escrituras refletem a cultura na qual elas foram escritas, e podem incluir certas práticas sociais que não são normativas de forma absoluta, como por exemplo, o uso de véu na igreja. Por isso, o conhecimento da cultura é uma exigência exegética para se estabelecer corretamente as equivalências culturais destas práticas sociais para os nossos dias, segundo os princípios bíblicos que as determinaram. Exemplos disto são as práticas que na Bíblia são normalmente toleradas por Deus, por causa da dureza do coração dos homens, mas que jamais foram normativamente aprovadas, como a escravidão, a poligamia e o divórcio motivado por razões aleatórias.
Quando Paulo, Pedro e Tito afirmam portanto, que a mulher deve ser submissa ao homem, eles estão se baseando não em sua cultura patriarcal, mas no texto bíblico que declara a ordem da criação (Gênesis 2:18-25) e a conseqüente relação de dependência natural da mulher em relação ao homem:
“Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem.” (1 Coríntios 11.7-9)
Entretanto, Paulo reconhece que, no sentido espiritual, a dependência entre homem e mulher é mútua, pois fomos todos criados por um mesmo Deus:
“Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus.” (1 Coríntios 11.11-12)
O que Gálatas 3:28 afirma portanto, é esta igualdade espiritual de todos perante Deus, o que não implica em legitimar uma igualdade dos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher. Esta diferenciação de papéis é tão fundamental que existe no próprio nível biológico, se considerarmos as funções de cada sexo no processo reprodutivo. A busca de igualdade social portanto, reflete um anseio por dignidade e valorização pessoal; causada sem dúvida por uma falha ancestral no tratamento que os homens sempre dispensaram às mulheres, ao longo de toda a história da civilização. Entretanto, mais que buscar um igualitarismo social totalmente estranho aos olhos de Deus, como compensação pelo fato de a sociedade não reconhecer a verdadeira igualdade espiritual de todos os seres perante Deus, é necessário que aqueles que foram de alguma forma; desprezados e oprimidos por uma ordem social injusta, se lembrem que Deus já os exaltou em seu Reino, por sua justiça, como frutos de sua glória.
Esta substituição do parâmetro moral cristão pelo parâmetro humanista foi consolidada pelo Estado, sob várias formas, inclusive na educação. No Brasil, o MEC orienta os professores escolares a combater toda forma de discriminação sexual entre os alunos. Como parte desta diretriz, sugere o emprego do conceito de “gênero” e não de “sexo” para designar homens e mulheres, pois “o uso desse conceito [gênero] permite abandonar a explicação da natureza como a responsável pela grande diferença existente entre os comportamentos e lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade.”
Em sua edição de janeiro de 2000, o jornal do Centro Feminista de Estudos e Assessoria de Brasília elogia o plano do governo para todas as escolas do Brasil com a manchete: “Plano Nacional de Educação Ganha Perspectiva de Gênero”. No mesmo jornal, a entidade afirma que “a legalização do aborto traria mais democracia” para o Brasil. Dessa forma, para combater a discriminação social, princípios feministas e homossexuais são indiretamente incutidos na educação básica de nossos filhos. Em nome da suposta necessidade de separação entre o Estado e a religião, princípios humanistas são ensinados como sendo superiores aos princípios cristãos. Conforme conclui Julio Severo, “o fato é que o movimento homossexual e o feminista estão tentando minimizar as diferenças entre os homens e as mulheres no trabalho, lazer e moda. A finalidade é demolir os padrões sexuais tradicionais e criar um ambiente favorável à homossexualização da sociedade.”
Não quero com isto dizer que devemos nos acomodar com toda a forma de discriminação, exploração e opressão social, seja ela por motivo de sexo, raça ou religião. O cristão pode e deve lutar contra este mal, tendo no entanto o cuidado de se lembrar que os princípios mais elevados pelos quais ele deve viver são os de Deus e não os dos homens. Os princípios humanistas podem criar a ilusão de uma sociedade mais igualitária e justa, porém são como aqueles que desprezam os recursos da justiça enquanto instituição social para fazer justiça com as próprias mãos. Os princípios humanistas, por mais nobres e legítimos que sejam, jamais serão superiores à justiça de Deus e não poderão portanto jamais substituí-la.
O autoritarismo, o desrespeito e a opressão são conseqüência da corrupção da natureza humana pelo pecado, mas a obra restauradora de Cristo não elimina a hierarquia, a liderança ou a autoridade seja na família, na igreja ou na sociedade. De fato, muitas passagens do Novo Testamento ensinam que a autoridade é um princípio legitimado por Deus, como em Romanos 13; Hebreus 13:17, 1 Pedro 2:13-18 e 5:5. Em parte, nossa resistência em nos submeter a qualquer autoridade que não a nossa própria; é um reflexo de nossa recusa tácita em aceitar o senhorio de Cristo, através do seu governo na igreja e em nossas próprias vidas.
Voltando ao tema da homossexualidade; como lembra Julio Severo, deveríamos nos lembrar antes de tudo que “a diferença inescapável entre o sexo normal e a conduta sexual dos homossexuais é a capacidade natural de gerar nova vida. Embora seja plenamente aberto ao prazer sexual, o homossexualismo é um comportamento totalmente fechado para a transmissão natural da vida. Só um homem e uma mulher casados têm chamado para cumprir o primeiro e mais importante mandamento de Deus para a sexualidade humana.”
Jesus ratificou de modo claro o ensinamento de Gênesis 1:27 e 2:24; quando citou o mandamento divino com relação à união sexual humana, referindo-se à sacralidade do casamento:
“Não tendes lido que o Criador os fez desde o princípio homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará o homem pai e mãe, e unir-se-á a sua mulher; e serão os dois uma só carne? (Mateus 19.4-5)
Pessoalmente, considero o homossexualismo como uma doença espiritual, como a prostituição, a dependência de drogas, a idolatria e o feminismo. O homossexualismo não é hoje visto, segundo os critérios médicos humanos, como doença psicológica, por não afetar o comportamento normal do indivíduo na sociedade. Também não se enquadra como crime segundo os critérios jurídicos, quando praticado de forma consentida entre pessoas adultas. Entretanto, perante a lei de Deus, ele é um pecado como outro qualquer. O homossexualismo e o feminismo estão entre tantas outras doenças da alma que infestam as nossas vidas, causadas pela progressiva degeneração espiritual da sociedade do nosso tempo.
Não vejo portanto motivo para discriminarmos os homossexuais em nossas igrejas ou em nossa vida social. Se assim devêssemos fazer, teríamos também que discriminar os idólatras, os heterossexuais viciados em sexo, os drogados, os adúlteros, para citar apenas algumas formas de pecado que são absolutamente toleradas em nossas igrejas. Na verdade, se fôssemos mais radicais em nosso princípio hipócrita de manter os pecadores fora da igreja, nossos templos estariam virtualmente vazios.
Entretanto, isto não justifica, por outro lado; que em nome da tolerância, passemos a considerar o homossexualismo como sendo uma manifestação normal da sexualidade e não mais como um pecado. O homossexualismo é um pecado e como todo pecado deve ser combatido, não apenas por aquele do qual ele é escravo, mas também pela igreja, que deve se unir em favor de todos aqueles que querem efetivamente se libertar, através da graça salvadora de Jesus Cristo.
A verdadeira tolerância que um cristão deve demonstrar em relação aos que estão em pecado é exatamente esta, a de ajudá-los a se arrepender sinceramente de seus erros, e de encontrar em Cristo o alívio, a paz e a salvação. As terapias médicas até hoje desenvolvidas para a reversão da homossexualidade são, em sua maioria, consideradas ineficazes; os métodos por elas utilizados controversos e passíveis de riscos de resultados adversos. Entretanto, a boa notícia é que Cristo; o maior de todos os médicos, pode sem dúvida curar não apenas os males do corpo, mas também os males da alma, se efetivamente aceitarmos o seu senhorio sobre as nossas vidas.
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The Pauline Rationale for Submission: Biblical Feminism and the hina Clauses of Titus 2:1-10,” The Evangelical Quarterly, Jan. 1987
Júlio Severo, As Ilusões do Movimento Gay, 2003
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