O Humanismo

O humanismo não é uma ideologia única, monolítica, mas um conjunto de ideologias surgidas a partir do século 19; através do reavivamento dos ideais antropocêntricos renascentistas, que têm em comum o fato de buscarem estabelecer o ser humano como o centro da vida e do universo. Estas ideologias procuravam, cada uma com seu enfoque próprio, estabelecer os princípios éticos e racionais por meio dos quais a sociedade humanista deveria se organizar e desenvolver. O humanismo surgiu a princípio como uma reação ao caráter dogmático e espiritual das religiões. 

A International Humanist and Ethical Union (União Humanista e Ética Internacional) ou IHEU, em seu último congresso em 2002, assim definiu o seu papel atual:

“Nossa tarefa primordial é tornar os seres humanos conscientes, na forma mais simples, do que o humanismo pode significar para elas e do que ele as envolve. Utilizando a livre investigação, o poder da ciência e a imaginação criativa para a promoção da paz e a serviço da compaixão, temos confiança de que possuímos os meios para solucionar os problemas que desafiam a todos nós. Convidamos a todos os que compartilham desta convicção a se associar conosco nesta empresa.”

Esta instituição assinou, em 1952 a chamada Declaração de Amsterdã, a qual foi revisada em 2002 e estabelece os princípios básicos dos seus associados. Em síntese, são os seguintes os fundamentos relacionados neste documento , como características do humanismo moderno:

a) Ética;

b) Racionalidade;

c) Apoio à democracia e aos direitos humanos, conforme definidos pela ONU;

d) Defesa da liberdade individual associada à responsabilidade social;

e) Alternativa à religiosidade dogmática;

f) Valorização da criatividade e da imaginação;

g) Busca da satisfação máxima possível do ser humano, através da ética e da vida criativa.

No Brasil, existe o MHD ou Movimento Humanismo e Democracia, fundado em 1992 e que na ocasião lançou um manifesto, que era também “uma convocação para a reflexão, para o estudo e para o debate a todos aqueles cuja formação intelectual ou atividade profissional e política pode contribuir para a consolidação de um ‘novo pensamento humanista’.”

Pode-se identificar, como principais movimentos humanistas da história; por seu impacto ideológico na civilização ocidental, o marxista, o comtiano e o secular.

O humanismo marxista é uma linha interpretativa de textos de Karl Marx, geralmente oposta ao materialismo dialético de Engels e de outras linhas de interpretação que entendem o marxismo como ciência da economia e da história. É baseado nos manuscritos da juventude de Marx, onde ele crítica o idealismo hegeliano que coloca o ser humano como um ser espiritual consciente. Para Marx o ser humano é antes de tudo um ser natural, assim como já havia dito Feuerbach, mas, diferentemente deste, Marx considera que o ser humano – de forma diferente de todos os outros seres naturais – possui uma característica que lhe é particular, a consciência, que se manifesta como saber.

O positivismo de Auguste Comte é também uma forma de humanismo, na medida em que afirma o ser humano e rejeita os valores defendidos pela teologia e a metafísica. A forma mais profunda e coerente do humanismo comtiano é sua vertente religiosa, que ele chamou de Religião da Humanidade; que propõe a substituição moral, filosófica, política e epistemológica das entidades supranaturais (os “deuses” ou as “entidades” abstratas da metafísica) pela concepção de “humanidade”. Além disso, afirma a historicidade do ser humano e a necessidade de uma percepção totalizante do homem; ou seja, em suas dimensões afetiva, racional e prática ao mesmo tempo.

Os humanistas seculares por sua vez são utilitaristas e empiristas; são geralmente encontrados entre os cientistas e os acadêmicos, embora seus simpatizantes não se limitem a esses grupos. Têm preocupação com a ética e afirmam a dignidade do ser humano, recusando explicações transcendentais para a realidade e preferindo o racionalismo. São em geral ateus ou agnósticos. Apenas alguns deles se auto-denominam humanistas; porém, a maior parte desses humanistas , embora recusem esse rótulo, seguem suas doutrinas; especialmente no que se refere a ética. Defendem o princípio de que os dogmas, as ideologias e as tradições; quer sejam elas religiosas, políticas ou sociais; devem ser avaliados e testados por cada indivíduo, em vez de simplesmente aceitas por uma questão de fé. Sua preocupação básica é com a satisfação, o progresso social, o pleno desenvolvimento das qualidades naturais e da criatividade, tanto em relação ao indivíduo quanto à humanidade em geral.

Antonio Rezk, coordenador nacional do MHD, oferece a seguinte conclusão sobre o resultado de toda uma experiência de prática destas diversas vertentes humanistas, que culminou com o fim da chamada era moderna:

“Por enquanto, basta-nos a afirmação de que a humanidade sofre uma crise estrutural de transição para uma nova era de desenvolvimento. Esta crise demoliu a experiência soviética assim como vem demolindo o sonho da democracia americana tida como modo de vida ‘exemplar’. Do mesmo modo como leva ao colapso do paradigma europeu do Walfare State da social-democracia.

Robert Kurz define esta fase como o ‘colapso ético e religioso da sociedade de trabalho – e do seu respectivo sistema produtor de mercadorias’; Alvin Toffler dirá que é o fim da era manufatureira das fábricas de chaminés. Ambos, entre outros – cada qual com a sua visão do processo –, procuram demonstrar que chega ao fim um estágio da sociedade humana. Nada impede que também opinemos, já que a verdade social e os seus modelos teóricos estão agora em sério questionamento.”

Rezk constata em seu balanço deste período histórico que em parte coincide com a idade moderna, que os valores humanistas não foram eficazes em produzir um estado de bem estar social como se supunha, mas reafirma sua fé marxista no processo histórico, ao concluir que “se os paradigmas de ontem morreram, por não conseguirem reformular-se para os novos tempos – ou por serem equivocados, não permitiam reformulações –, então tudo está novamente em questão para ser descoberto e formulado.”

A era que sucedeu a modernidade consolidou definitivamente no ocidente a hegemonia  do capitalismo como regime econômico, a democracia como a mais eficiente forma de governo e a ciência como fonte de um processo contínuo e acelerado de evolução tecnológica. A expectativa média de vida do ser humano saltou espetacularmente de 56 anos, em meados do século 20, para 65 anos, a taxa de mortalidade infantil caiu de 104 para 56 por 1000 nascidos vivos. O Índice de Desenvolvimento Humano, ou IDH, adotado pela ONU em 1993 para avaliar a qualidade de vida de comunidades, aponta em sua última avaliação em 2007 que dos 177 países avaliados, 70 foram classificados como tendo IDH elevado, 85 como apresentando um índice médio e apenas 22 com um IDH baixo.

Estamos vivendo, segundo Adam Schaff – autor da obra A Sociedade Informática – As Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial, a terceira Revolução Industrial - que tem se caracterizado por uma acelerada transformação no campo tecnológico, com conseqüências não só no mercado de bens de serviço e de consumo como também, no modo de produção e na qualificação necessária dos novos trabalhadores e nas relações sociais. Essa fase é marcada, segundo Schaff; por uma tríade revolucionária:  a microeletrônica e a informática, a microbiologia e a energia nuclear, o que nos levará, segundo o autor, a um novo salto de desenvolvimento da humanidade. Entretanto, do ponto de vista espiritual, a filosofia humanista que orienta esta sociedade pós-moderna ainda não conseguiu oferecer ao ser humano um grau de satisfação aceitável, conforme suas metas. Embora tenha alcançado um nível considerável de satisfação material e cultural, o humanismo secular tem falhado miseravelmente em oferecer às pessoas um grau mínimo de realização espiritual.

O iluminismo, que inspirou os princípios liberais que hoje norteiam o humanismo secular, deixou sem dúvida uma herança irrevogável. Noções de tolerância religiosa, liberdade de expressão, segurança pessoal, eleições livres, governo constitucional, e progresso econômico são hoje característica de qualquer nação democrática. Entretanto, no Iluminismo, o individualismo, a liberdade e a transformação tomaram o lugar da comunidade, da autoridade e da tradição como valores centrais europeus. Embora Rousseau às vezes procurasse parecer mais religiosamente devoto, ele era quase tão cético quanto Voltaire: a fé minimalista que ambos compartilhavam era chamada deísmo e ela veio finalmente a transformar a religião européia e exercer poderosa influência em outros aspectos da sociedade. O Deus que subscreve o conceito de igualdade na Declaração de Independência norte-americana é o mesmo Deus deísta que Rousseau cultuava, não o aquele adorado nas igrejas tradicionais que ainda apoiavam e defendiam as monarquias em toda a Europa.

Os liberais tradicionais eram contrários em graus variados, a monopólios hereditários, especialmente aos privilégios de algumas famílias que possuíam grandes latifúndios. Eles desprezavam as condições de vassalagem e de servidão; aspirando universalizar a condição da independência individual. Abominavam também toda forma de tirania e de absolutismo. A autoridade legítima, afirmavam, é baseada no consenso popular, não no direito divino ou na sucessão dinástica. Entretanto, eram contrários também à autoridade militar e religiosa. As noções de direitos humanos que o liberalismo desenvolveu são hoje amplamente reivindicadas pelos povos e minorias sociais oprimidas em todo o mundo, que apelam para a mesma noção de lei natural que inspiraram Voltaire e Jefferson. Entretanto, eram e ainda são acusados de promover os ideais de uma classe econômica dominante, á custa das classes trabalhadoras. Os liberais, contudo, não viam a desigualdade de riqueza propriamente, à parte de problemas de dependência e pobreza, como um mal social inaceitável. Os críticos muitas vezes afirmam que a aquiescência liberal na desigualdade econômica se origina de uma crença profunda que os talentos superiores “merecem” recompensas superiores. Os liberais aceitavam a desigualdade de riqueza, de fato, porque eles a viam como um subproduto inevitável de uma economia de mercado livre, embora defendessem a necessidade da igualdade de oportunidade econômica para todos os níveis sociais. Eles admiravam a ciência ou a livre questionamento como um aprofundamento da compreensão humana, não simplesmente como um instrumento para o domínio da natureza.

O liberalismo humanista porém falhou, como as demais ideologias racionalistas, em cumprir as suas promessas de bem estar social, embora tenha sido bastante útil na promoção do bem estar individual de uma minoria. Em muitos lugares, a violência urbana ridiculariza a promessa de proteger cada cidadão do medo físico. Os sem teto são privados da segurança elementar que um regime liberal deve a todos. As escolas decadentes representam uma traição nacional das promessas do liberalismo para as gerações vindouras. O aumento constante de crianças que vivem na pobreza está em conflito gritante com o compromisso liberal de igualdade de oportunidades. Os preços crescentes de custas judiciais colocaram em dúvida o princípio do direito de acesso igual à lei. As despesas crescentes de campanhas políticas atuais sugerem que a desigualdade econômica esteja sendo convertida diretamente em desigualdade política, contra todas as normas liberais. O liberalismo, embora possua muitos pontos admiráveis e sua doutrina, falhou no momento em que resolveu deixar fora de seus fundamentos aquele que é a pedra fundamental de toda a existência humana: Deus. Ao substituir a autoridade divina pela autoridade humana, e o Deus verdadeiro por um falso deus, o liberalismo fracassou como ideologia; por abandonar o cristianismo e se apoiar apenas na razão, no bom senso e na tolerância humanas.  O rei Davi, já em seu tempo, afirmou sabiamente:

“O Senhor desfaz o conselho das nações, anula os intentos dos povos. O conselho do Senhor permanece para sempre, e os intentos do seu coração por todas as gerações. Bem aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, o povo que ele escolheu para sua herança.” Salmos 33.10-12

Os ideais de progresso e justiça social não podem ser realizados por nenhuma ideologia, mas apenas através da sabedoria divina e de sua obra regeneradora da alma humana. Os ideais iluministas foram abandonados, por que eram apenas isto: ideais. Não eram propósitos reais estabelecidos por Deus, mas apenas metas e planos enganosos estabelecidos pela sabedoria humana. Davi não dirigia a nação de Israel apenas segundo o seu julgamento e discernimento, mas confiava plenamente no senhorio e na sabedoria de Deus para o seu governo:

“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.” Salmos 127.1

Conforme reconhece o pensador francês e humanista secular Luc Ferry, “A sociedade atual não se inspira em ideais superiores em termos de civilização, como no Iluminismo. O que nos dá a sensação de progredir é comprar, comprar, comprar. Essa lógica apenas aumenta nossa insatisfação”. Autor de várias obras que oferecem um profundo conhecimento antropológico e filosófico em uma linguagem popular, Ferry lamenta ainda a infelicidade que marca a vida nas sociedades atuais, em uma entrevista à revista Veja:

“Há um descontentamento generalizado no mundo moderno. A sociedade se interessa mais pelos meios em si do que pelos fins. Um olhar sobre o Iluminismo ajuda a compreender esse novo mundo. As mentes mais brilhantes do século XVIII buscavam nas ciências e nas artes emancipar a humanidade do obscurantismo da Idade Média. Tudo era feito com o objetivo de, no fim, alcançar a liberdade e a felicidade.

Hoje, o movimento das sociedades não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. A sociedade se movimenta no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros.

A história não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição. O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros. Como dizia o filósofo romano Sêneca, enquanto esperamos viver, a vida passa rapidamente.”

Ferry defende que para se livrar deste mal estar e do vazio criados pela sociedade utilitarista e pragmática em que vivemos, é necessário não nos deixarmos dominar pelos nossos temores e encontrar novas formas de amar, através da ampliação de nossos horizontes de vida e da descoberta de propósitos significativos para nossas vidas. Isto seria equivalente aos ideais religiosos de transcendência, como os pregados pelo budismo e pelo cristianismo, estabelecidos entretanto segundo princípios humanistas e não religiosos. Esta não parece ser entretanto uma solução viável para o problema, conforme demonstra a comprovada falência dos ideais iluministas e marxistas; e a julgar pelo ideário do IHEU, conforme a Declaração de Amsterdã.

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