Uma série da TV norte-americana chamada My Wife and Kids, importada pelo Brasil com o título Eu, a Patroa e as Crianças, é uma comédia do gênero conhecido como sitcom ou comédia do cotidiano. Essa série ridiculariza o perfil do adolescente evangélico através de um personagem que luta desesperadamente contra os seus instintos sexuais, e que sob influência da namorada, se embebeda e se entrega a toda sorte de desvarios.
Esta é apenas uma das situações utilizadas pela mídia para promover o descrédito dos princípios cristãos; que são desta forma, relegados ao ridículo e ao absurdo. A psicologia humanista não reconhece a possibilidade de qualquer indivíduo superar os seus instintos, mas apenas o de controlá-los até certo ponto ou, conforme postula a psicanálise, o de sublimá-los, ou seja, convertê-los em atividades que substituem o seu propósito original por um propósito socialmente aceitável, através da atividade artística, do trabalho artesanal ou outras semelhantes.
Entretanto, o cristianismo afirma que não somente é possível, mas necessário, que o indivíduo vença os seus próprios instintos; de forma a submetê-los a leis não mais determinadas apenas por mecanismos fisiológicos de estímulo e reação, mas pelos princípios espirituais que são transmitidos através do Espírito de Deus. Esta transformação psíquica ocorre através do renascimento espiritual do cristão, que consiste em sua plena renovação íntima, operada mediante a sua fé e pelo poder de Deus agindo diariamente em sua vida. Este processo transforma a natureza humana egoísta e corrupta do indivíduo em uma natureza pura e verdadeiramente altruísta, capaz de amar incondicionalmente, fiel à justiça divina e disposta a servir. Esta não é entretanto uma transformação instantânea ou automática, e requer a perseverança do cristão no caminho ao qual ele se converteu, para que ele possa efetivamente vencer a si mesmo.
Reconheço portanto que o fato de um jovem cristão verdadeiramente nascer de novo e vencer a si mesmo é um milagre ainda maior que a conversão de um adulto ao cristianismo. Os jovens vivem a plenitude de suas vidas, estão normalmente cheios de vigor e de vontade de inovar, de empreender e de se realizar pessoalmente, de forma independente e autônoma. Os seus instintos são naturalmente aguçados e cada vez mais estimulados por uma sociedade que valoriza absurdamente a sensualidade, o hedonismo e o orgulho pessoal. Os jovens e adolescentes valorizam absurdamente tudo que é novo, têm sede de mudança e de transformação. Por isto é difícil para eles compreender o fato de que a mensagem de Deus na Bíblia é atemporal, imutável e completa. As lutas que um jovem cristão precisa enfrentar diariamente para viver uma vida realmente cristã são realmente terríveis, por isso meu coração se rejubila e louvo a Deus quando encontro adolescentes e jovens cristãos vitoriosos; verdadeiros servos de Deus, que honram e glorificam o seu nome através de suas vidas.
Entristeço-me entretanto, ao constatar que por outro lado, muitos jovens também fracassam em sua vida cristã; por não experimentarem uma verdadeira conversão de vida, ou – o que é mais comum – por não encontrarem em suas famílias ou em suas igrejas o apoio espiritual necessário para seu fortalecimento e crescimento espiritual. Através da minha experiência pessoal, pude constatar que a falta deste apoio é maior no sentido prático que no sentido doutrinário. A maior parte dos jovens que fracassa em sua vida cristã abandona a igreja e a fé simplesmente pelo fato de não perceber uma verdadeira coerência entre aquilo é pregado sob a forma de doutrina e aquilo que é efetivamente praticado em seu lar ou na igreja que freqüentam.
O maior empecilho alegado pelos jovens para a sua integração na igreja tem sido o fato de que em geral, eles não conseguem comprovar que o cristianismo é algo cuja viabilidade é demonstrada na vida dos cristãos com quem eles convivem. Os adolescentes e os jovens têm, em certos aspectos, uma psicologia muito próxima da psicologia de uma criança. Não se pode ensinar a um jovem um comportamento que ele não pode ver comprovado na prática, o que é, aliás, bastante saudável. Por isso, alguns evangelistas têm adotado como estratégia para atrair os jovens para a igreja, o seu envolvimento em atividades comunitárias de ajuda mútua, em mutirões ou forças-tarefa de auxílio a crianças com problemas escolares, no reparo e construção de moradias, na limpeza de áreas compartilhadas pela comunidade entre outros.
Quando este tipo de atividade é praticado apenas por razões humanitárias, existe somente um ganho material e psicológico para todos os envolvidos, mas quando estas atividades são associadas ao Evangelho cristão, é produzido, além destes, o fruto principal que é o crescimento espiritual.
Não deixo de lamentar, todos os dias, a deplorável condição da maioria de nossos jovens, aliciados para vícios como a prostituição, as drogas (socialmente aceitas ou não), a violência e a todo tipo de entretenimentos, moralmente e espiritualmente degradantes. Sei que este estado de coisas não pode ser totalmente evitado, pois sempre existirão aqueles que são filhos deste mundo e, portanto morrerão com ele.
Entretanto, muitos que são filhos do Reino estão enredados nestes abismos porquê não conhecem a luz, porquê não vêem uma saída.
Uma igreja realmente viva e comprometida com a evangelização tem como objetivo prioritário, assim como Jesus, buscar os perdidos e os desgarrados e não em acomodar os que já estão salvos. Buscar meios de apresentar Cristo prioritariamente aos jovens, mais passíveis de serem seduzidos ou confundidos pelo mundo que os adultos e idosos; supostamente dotados de maior sensatez e discernimento. Buscar meios de canalizar a energia destes jovens para a construção do Reino de Deus e não para a glorificação das paixões materiais.
Os meios mais eficazes para isto não são simplesmente a pregação da doutrina, os shows de música gospel e as performances teatrais em praças públicas, como muitos acreditam. Se quisermos criar meios para que o Espírito de Deus possa produzir conversões verdadeiras, não podemos dizer a um adolescente ou a um jovem que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos se não mostrarmos a ele como fazemos isso em nossas vidas. Não podemos conduzir os jovens a Cristo se nós mesmos não formos verdadeiramente cristãos.
Quando Jesus respondeu ao jovem rico que o perguntou sobre o necessário para herdar a vida eterna, Ele não apenas lhe ordenou cumprir os mandamentos básicos, mas mostrou a ele também como demonstrar, na prática, que ele estava sinceramente decidido a herdar a vida eterna e que amava a Deus e a seu semelhante e não estava apenas interessado em obter o melhor dos dois mundos: “vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me”. Além disso, Jesus testemunhava claramente através de sua própria vida tudo aquilo que pregava. Confrontado com esta escolha eminentemente prática, aquele jovem revelou ali a verdadeira natureza de seu coração.
Jesus também nos mostrou, de forma prática, como receberá e reconhecerá aqueles que realmente fazem parte de sua igreja:
“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.” (Mt 25:34-36)
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