4 – O cânon bíblico
Uma das noções expressas pelo autor do artigo de Superintessante, a de que o estabelecimento do cânon bíblico, ou seja a relação dos livros que viriam a compor a Bíblia, teria sido uma imposição arbitrária da igreja católica romana, é também uma crítica bastante comum entre os adversários do cristianismo mas é também superficial e totalmente infundada.
Embora o Cânon Hebraico de 39 livros do Antigo Testamento, só tenha sido realmente fixado no Concílio judaico de Jamnia em 90 d.C. já por volta de 400 a.C. ele estava praticamente completo. Havia duas seções principais: a lei e os profetas. Quase todos os livros distribuídos entre as duas seções são referidos no Novo Testamento como as Sagradas Escrituras. A igreja católica romana estabeleceu no século IV o seu cânon, baseado no chamado cânon alexandrino, que incorporava ao tradicional cânon hebraico mais sete livros, chamados deuterocanônicos. A Reforma Protestante entretanto, decidiu manter o cânon hebraico de 39 livros instituído no Concílio de Jamnia.
A formação do cânon do Novo Testamento foi iniciada pela igreja primitiva, no primeiro século da era cristã e somente veio a se concretizar no século IV, quando já havia um consenso geral a respeito do mesmo. No início da era cristã, havia uma multiplicidade de textos e doutrinas cristãs, muitas delas contraditórias. A igreja necessitava portanto de identificar, entre todos os textos religiosos em circulação, aqueles que eram verdadeiramente fiéis aos ensinamentos de Jesus e dos seus apóstolos, tanto pelo motivo doutrinário quanto por razões políticas, sobretudo depois que o imperador Diocleciano, em 303, ordenou que fossem destruídas todas as Escrituras.
A formação do cânon do Novo Testamento iniciou-se no primeiro século da era cristã, como demonstram as práticas vigentes na época de copiar e distribuir as cartas apostólicas. Conforme afirma Norman Geisler:
“Já havia nos tempos do Novo Testamento algo parecido com uma declaração de cânon das Sagradas Escrituras, aprovada tacitamente, circulando pelas igrejas. De início nenhuma igreja detinha todas as cartas apostólicas, mas a coleção foi crescendo à medida que se faziam cópias autenticadas pela assinatura dos apóstolos ou de seus emissários. Não há dúvidas de que as primeiras cópias das Escrituras surgiram dessa prática de fazer que circulassem. À medida que as igrejas foram crescendo, a necessidade de novas cópias foi-se tornando cada vez maior, pois mais e mais congregações desejavam ter sua compilação para as leituras regulares e para os estudos, ao lado das Escrituras do Antigo Testamento.”
[...]
“As primeiras igrejas foram exortadas a selecionar apenas os escritos apostólicos fidedignos. Desde que determinado livro fosse examinado e dado por autêntico, fosse pela assinatura, fosse pelo emissário apostólico, era lido na igreja e depois circulava entre os crentes de outras igrejas.
“As coletâneas desses escritos apostólicos começaram a tomar forma nos tempos dos apóstolos. Pelo final do século I, todos os 27 livros do Novo Testamento haviam sido recebidos e reconhecidos pelas igrejas cristãs. O cânon estava completo, e todos os livros haviam sido reconhecidos pelos crentes de outros lugares. Por causa da multiplicidade dos falsos escritos e da falta de acesso imediato às condições relacionadas ao recebimento inicial de um livro, o debate a respeito do cânon prosseguiu durante vários séculos, até que a igreja universal finalmente reconheceu a canonicidade dos 27 livros do Novo Testamento.”
Desta forma, fica claro que a igreja não criou um cânon arbitrário segundo os seus próprios critérios de ortodoxia doutrinária, mas utilizou como parâmetros para formação deste cânon os princípios doutrinários e os textos considerados legítimos e autênticos pelos próprios judeus, no caso do Antigo Testamento, e pelos próprios apóstolos, nos primórdios da era cristã, no caso do Novo Testamento.
5 – Alterações textuais e conflitos doutrinários
Se Deus dependesse apenas do engenho e da diligência humanas para divulgar a sua Palavra, ela provavelmente já teria sido sepultada pelo tempo, em meio aos incontáveis massacres e invasões sofridos por Israel, e das inúmeras interferências políticas e ideológicas que marcam a história da humanidade.
A mensagem de Deus para a humanidade teria também se perdido, desde o ato inicial de sua inspiração a seus primeiros escritores, até as inúmeras traduções de que dispomos nos dias atuais, a ponto da sua completa descaracterização; devido às falhas e interferências humanas sem dúvida ocorridas no processo de sua reprodução, ao longo de mais de dois milênios. Entretanto, o fato de dispormos hoje da Palavra de Deus em uma forma que mantém de um modo espantoso no Textus Receptus o seu mesmo conteúdo original dos manuscritos mais confiáveis, é uma prova de que o processo histórico que caracterizou a elaboração deste texto e suas traduções para nossos idiomas atuais não foi um processo meramente natural de crítica e estudos lingüísticos, mas antes de tudo uma obra sobrenatural, dirigida por Deus.
Deus permitiu e permite a ocorrência de alterações e erros nos processos de cópia e tradução de sua Palavra, por que a transmissão de sua mensagem à humanidade foi e sempre será feita através de seres humanos; mas também por que ela foi e será sempre preservada por Ele, não por meio do talento e da fidelidade dos homens que a escreveram e que a manuseiam, mas apesar de todas as deficiências e interferências humanas.
As alterações de texto encontradas nos manuscritos do Antigo Testamento são relativamente raras, pelo fato de que em sua época havia uma única tradição de elaboração destes manuscritos, os quais eram produzidos segundo regras rigorosas de exatidão.
As alterações encontradas nos manuscritos do Novo Testamento são mais numerosas, devido ao maior número de cópias não oficiais que foram produzidas. A crítica textual reconhece basicamente dois tipos de erros, os intencionais e os não-intencionais. As variantes do segundo tipo são mais comuns, causadas por falhas na divisão de palavras, uma vez que nos manuscritos as palavras não eram separadas umas das outras. Omissões, inversões ou repetições de letras e palavras, são também padrões de erros comuns encontrados. Além destes, haviam erros decorrentes de má audição, no caso de textos copiados por ditado oral e os erros de memória, quando o escriba se esquecia de uma palavra e a substituía por um sinônimo. Haviam ainda erros simples de grafia, causados por um estilo imperfeito de escrita ou acidentes durante o processo, devido a más condições ambientes e cansaço. Todos estes erros entretanto são pouco significativos e facilmente identificáveis através de exame crítico.
Os erros intencionais , embora sendo geralmente eram motivados por boa fé são mais graves, pois alteram o conteúdo original dos textos, adicionando ou suprimindo às vezes passagens inteiras. Um tipo de variante comum deste tipo eram as adaptações feitas pelos copistas de estilos lingüísticos, conforme a tradição escritural da época. As alterações litúrgicas são típicas dos lecionários, como o resumo de um texto para uso exclusivo no culto, que no entanto passava a incorporar o próprio texto, como foi o caso da chamada “doxologia” na oração dominical em Mateus 6:13. Eram comuns ainda as alterações para harmonização, quando o escriba tentava harmonizar uma passagem em um texto com a passagem correspondente em outro documento, como Atos 9:5-6, que foi alterado para concordar de forma mais direta com Atos 26:14-15. As alterações históricas ou temporais eram introduzidas com o fim de ajustar nomes, datas e horários conforme o escriba julgava ser a forma mais correta, como João 19:14, que foi alterado em alguns manuscritos onde se lê hora “terceira”, ao invés de hora “sexta”.
As alterações doutrinárias, enfim, eram introduzidas em sua maior parte para ajustar o texto à versão ortodoxa, como a referência à Trindade, em 1 João 5:7-8. Outros exemplos deste tipo de alterações são o acréscimo da palavra “jejum” à palavra “oração” em Marcos 9:29, o chamado final mais longo de Marcos 16:9-20 e a chamada perícope da mulher adúltera, em João 7:53 a 8:1-11 que alguns consideram tenha sido posteriormente interpolada ao evangelho de João. Embora não conste da maior parte dos manuscritos principais, ao traduzir a Bíblia para o latim, Jerônimo a incluiu por tê-la encontrado na maioria dos manuscritos de que dispunha para o exercício da tradução.
A alegação de que o suposto “caráter machista” apontado pelos críticos modernos nas cartas do apóstolo Paulo, onde ele afirma a condição de submissão da mulher à autoridade masculina tanto na igreja quanto na família teria sido introduzido no texto bíblico por algum escriba, é totalmente infundada.
A mesma posição é encontrada na primeira carta de Pedro aos cristãos da Ásia Menor. Antes de mais nada, os apóstolos não estão aqui criando nenhuma nova doutrina, mas apenas aplicando os princípios já estabelecidos por Deus em Gênesis. Quando Paulo e Pedro afirmam unanimemente que a mulher deve ser submissa ao homem, eles estão se baseando não em sua cultura patriarcal, mas no texto bíblico que declara a ordem da criação (Gênesis 2:18-25) e a conseqüente relação de dependência natural da mulher em relação ao homem:
“Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem.” 1 Coríntios 11.7-9
Não está implícito, contudo nas recomendações dos apóstolos nenhuma medida discriminatória das mulheres, como sendo inferiores aos homens. O próprio Paulo reconhece que, no sentido espiritual, a dependência entre homem e mulher é mútua, pois fomos todos criados por um mesmo Deus:
“Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher; pois assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus.” 1 Coríntios 11.11-12
Recomendo a todos que desejem se aprofundar no conhecimento da história bíblica, as obras de Norman Geisler, Introdução Bíblica, o seu Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” Bíblicas, e a excelente Enciclopédia de Temas Bíblicos de Gleason Archer. É necessário notar, como ressalta Geisler, que nenhuma doutrina cristã se baseia em algum texto sob objeção e que apesar de todas as alterações feitas aos manuscritos originais ou autógrafos, ao longo do tempo, a mensagem de Deus expressa através da Bíblia permanece intacta em sua essência e eficaz em seu propósito original. Geisler faz um paralelo admirável entre o Novo Testamento e as obras clássicas da literatura universal:
“Quando se comparam os textos chamados variantes, do Novo Testamento, com outros textos de outros livros que sobreviveram desde a antiguidade, as conclusões são maravilhosas; pouco falta para que as consideremos espantosas. Por exemplo, embora haja cerca de 200 000 “erros” nos manuscritos do Novo Testamento, eles só aparecem em cerca de 10 000 trechos, e apenas cerca de uma sexagésima parte deles ergue-se acima do nível das trivialidades. Westcott e Hort, Ezra Abbot, Philip Schaff e A. T. Robertson avaliaram com o máximo cuidado as evidências e che¬garam à conclusão de que o texto do Novo Testamento tem pureza superior a 99%. À luz do fato de haver mais de 5.000 manuscrítos gregos, cerca de 9.000 versões e traduções, as evidências da integridade do Novo Testamento estão fora de questão.
“Isso é válido, sobretudo, quando consideramos que alguns dos maiores textos da antiguidade sobreviveram em apenas um punhado de manuscritos. Quando se compara a natureza, ou a qualidade, desses escritos com os manuscritos bíblicos, estes ficam em posição audaciosamente saliente no que concerne à integridade. Bruce M. Metzger fez um excelente estudo da Ilíada, de Homero, e da Mahãbhãrata da índia, em sua obra Chapters in the history of New Testament textual criticism [Capítulos da história da crítica textual do Novo Testamento]. Em seu estudo, o autor demonstra que a corrupção textual desses livros ditos “sagrados” é muito maior do que a que acometeu o Novo Testamento. A Ilíada é particularmente cabível para esse estudo, por ter tanta coisa em comum com o Novo Testamento. Depois do Novo Testamento, a Ilíada é a obra que tem o maior número de manuscritos disponíveis hoje, mais que qualquer outra obra (453 papiros, 2 unciais e 188 minúsculos, ou seja, 643 no total). À semelhança da Bíblia, essa obra foi considerada sagrada, sofrendo mudanças textuais, e seus manuscritos em grego também passaram pela crítica textual. Enquanto o Novo Testamento apresenta cerca de 20 000 linhas, a Ilíada tem cerca de 15 000. Apenas 40 linhas (cerca de 400 palavras) do Novo Testamento inspiram dúvidas, mas 764 linhas da Ilíada estão sob questionamento. Portanto, 5% da Ilíada sofreram corrupção, contra menos de 1% do Novo Testamento. O poema épico nacional da índia, Mahabharata, sofreu um processo mais grave ainda de corrupção. É cerca de oito vezes maior que a Ilíada e a Odisséia juntas, com cerca de 250 000 linhas. Dessas, cerca de 26 000 linhas estão corrompidas textualmente, i.e., pouco mais de 10%.
“Assim é que o Novo Testamento não só sobreviveu em um número maior de manuscritos, mais que qualquer outro livro da antiguidade, mas sobreviveu em forma muito mais pura (99% de pureza) que qualquer outra obra grandiosa, sagrada ou não. Até mesmo o Alcorão, que não é livro antigo, pois originou-se no século VII d.C., sofreu o processo de aparecimento de grande número de variantes que precisaram da revisão de Orthman. De fato, ainda existem sete modos de ler o texto (vocalização e pontuação), todas baseadas na revisão de Orthman, que se fez cerca de vinte anos após a morte do próprio Maomé.”
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