Quando Deus me disse, em Belo Horizonte, antes de vir para o Paraná, que poderia me dar muito mais que um emprego; jamais imaginei que este algo mais seria uma pesada cruz, que carreguei durante todos estes anos. Nesta empresa encontrei desafios profissionais, em um cargo para o qual eu não estava preparado, e tive que aprender a conviver com a precariedade, com a desonestidade, com a imoralidade e com o temperamento de um patrão com quem não tinha absolutamente nada em comum. Mas, como Deus determinou ao seu povo, quando o tirou do Egito, também determinou em minha vida:
“E te lembrarás de todo o caminho pelo qual o Senhor teu Deus tem te conduzido durante estes quarenta anos no deserto, a fim de te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos.” Deuteronômio 8:2
O meu trabalho se tornou para mim uma verdadeira prisão, onde foi eliminado todo o meu orgulho e o meu egoísmo; e onde aprendi a confiar em Deus e depender dele todos os dias, para encontrar força, ânimo e capacidade para enfrentar os desafios com os quais diariamente me deparava.
Enquanto carregava esta cruz, fortalecia também a minha fé e conhecia cada vez mais esse Deus de quem eu antes vivia distante e com o qual não tinha realmente uma comunhão.
Em minha solidão entretanto, vivia abatido, angustiado e amargurado, chegando a passar por sérias crises de depressão, das quais me libertei somente pela misericórdia divina. Não tinha ânimo para servir a Deus como desejava e como havia com ele me comprometido. Vivia continuamente estressado, dormia muito pouco, o que me levou sem dúvida a perder boa parte de minha memória. Tentei por três vezes me dedicar a alguns ministérios na igreja Assembléia de Deus, a qual freqüentei desde que vim para o Paraná, mas por causa da minha fraqueza espiritual, abandonei todos eles. Afastei-me da igreja, durante este tempo, por duas ou três vezes, mas o Senhor não permitiu que eu apostatasse da fé.
“Pois ainda em bem pouco tempo aquele que há de vir virá, e não tardará. Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.
“Nós, porém, não somos daqueles que recuam para a perdição, mas daqueles que crêem para a conservação da alma.” Hebreus 10:37-39
Isolei-me socialmente em uma espécie de caverna pessoal, não tinha amigos, nem mesmo na igreja, e me sentia inseguro para buscar uma nova companheira e assumir uma nova família. Durante todos estes anos porem, Deus jamais me abandonou, nem deixou de me consolar e fortalecer. Em resposta às minhas súplicas, recebi em outubro de 2000 o batismo no seu santo Espírito, o que sem dúvida me proporcionou a força espiritual que necessitava para continuar lutando.
Perdi a conta de quantos currículos enviei à procura de um novo emprego, de quantas portas bati,em busca de falsas oportunidades de trabalho surgiram, de quantas madrugadas passei orando, clamando e chorando e de quantas tentativas eu fiz de abandonar este emprego. Deus entretanto sempre me tomava carinhosamente pela mão e me ajudava a carregar esta cruz, e respondia aos meus clamores com a promessa de liberdade, que viria em seu devido tempo. Nunca reclamei porém desta cruz a quem quer que fosse, nem mesmo com minha irmã, que veio morar em minha companhia em 2003 e era minha única amiga. Tampouco deixei de dar graças diariamente por cada dia de trabalho que findava e somente aos pés do Senhor eu me permitia derramar a dor que havia em meu coração.
Em 04 de junho de 2004, fiz o seguinte registro em meu diário espiritual:
Continuo orando a Deus para que eu possa encontrar um sentido para minha vida. Hoje, indo para o trabalho, tive a clara sensação de que estava tomando uma direção errada, e que não era para aquele lugar que eu deveria ir.
Perguntava para mim mesmo: Meu Deus, o que é que estou fazendo neste lugar?
Entretanto, Deus sabe com certeza o que ainda estou fazendo ali e porquê preciso ainda estar ali. Mas sei que não é este o plano final de Deus para minha vida. Hoje, senti claramente o que eu gostaria de estar fazendo. Não busco uma vida de regalias, de glória ou riqueza.
Gostaria apenas de ser alguem de quem ninguem lembrasse o nome, que nenhuma atenção chamasse, mas que fosse um vaso transbordante de bênçãos de Deus, e onde quer que pisassem meus pés, eu pudesse levar esperança, cura e libertação.
Gostaria de ser realmente um instrumento nas mãos de Deus, mas sei o quanto estou longe disso, o quanto de amargura, de egoísmo e medo há em meu coração, sei da minha pouca fé, da minha insegurança e ansiedade e o quanto é difícil alguém assim poder ser usado por Deus.
Mas ainda tenho esperança de um dia mudar, de me entregar verdadeiramente nas mãos do Senhor, e poder ser um instrumento de sua graça e de sua misericórdia. Espero um dia deixar de ser o mísero verme que sou e permitir a Deus me regenerar, fazer de mim uma nova criatura, um novo homem. Espero que o meu amor por Deus cresça até sufocar em mim todo egoísmo e toda amargura e toda dor.
Hoje, enquanto voltava do trabalho caminhando por uma estradinha que tomo quando perco o ônibus, passei por uma velhinha, que cantava um corinho de igreja, mas repetia sempre a mesma frase:
“Ah, se você soubesse o quanto Deus te ama … “
A última vez que Deus me reafirmou que ele atenderia o meu clamor, ele o fez de uma forma tão maravilhosa que encheu de alegria a minha alma e me devolveu a paz. Caminhava pelo centro da cidade, quando me deparei com uma vitrine onde um anúncio que estava ali afixado, trazia o texto de Lucas 18:7:
“E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?”
Os três últimos anos, 2005, 2006 e 2007 foram um tempo de grande angústia, pois quando chegavam ao seu fim, acendia em mim a esperança de que no ano seguinte eu encontraria finalmente a liberdade.
Fiz então em 2008 uma nova aliança com Deus, pela qual eu me comprometi a servi-lo, conforme a sua vontade, se ele abrisse para mim uma nova oportunidade de trabalho, em que eu encontrasse paz e alegria, para que assim eu pudesse me dedicar à sua obra.
Dediquei-me com grande empenho em estudar a Bíblia e a história do cristianismo, e me dispus sinceramente a buscar conhecer a palavra de Deus. Foi na mensagem de Deus que encontrei consolo, conforto espiritual, esperança e orientação para os meus momentos de angústia e de dúvida.
Pude ver claramente as conseqüências de minha rebeldia espiritual. Quando jovem, ao invés de buscar a Deus e me empenhar realmente em conhecê-lo, simplesmente me voltei contra o catolicismo, atentando apenas para os aspectos exteriores da religião e me afastei não só da igreja, mas também do cristianismo.
Esta atitude rebelde e imatura me levou sem dúvida a buscar outros caminhos espirituais, no espiritismo e no ocultismo, me desviando assim do caminho da Verdade. Se eu tivesse me convertido verdadeiramente ao cristianismo enquanto ainda jovem, certamente os meus caminhos seriam outros.
Não teria me tornado um adúltero e com isto impedido a bênção de Deus, que iria restaurar minha vida profissional. Talvez nem mesmo houvesse me desviado da minha carreira profissional, fazendo uma escolha errada, pois como cristão não teria tomado esta decisão sem antes consultar a Deus.
Assim eu me encontrava, com mais de cinqüenta anos, sem uma profissão definida, sem um trabalho definido e sem perspectiva de aposentadoria, a não ser por velhice. Por insensatez, deixei de prover durante o tempo em que estive desempregado e trabalhando por conta própria para minha aposentadoria, preferindo gastar com coisas supérfluas.
Dependia diariamente de Deus para sobreviver, pois era apenas por sua misericórdia que eu vivia. Enquanto o cristão fiel precisa apenas da direção e do auxílio de Deus para a sua vida, eu precisava diariamente de um milagre, para que eu não naufragasse. Deus me curou durante este meu exílio espiritual de três enfermidades e preservou a minha saúde em perfeito estado, até o dia de hoje.
Reconheço que o fato de eu não haver sido bem sucedido tanto em minha vida familiar quanto na vida profissional se deveu sobretudo ao fato de eu possuir uma personalidade, frágil, egoísta, orgulhosa e insegura; a falhas de caráter e também a um temperamento introspectivo.
Entretanto, é pelo fato de ser assim que eu deveria ter me conscientizado da necessidade de colocar desde cedo a direção da minha vida nas mãos de Deus, para que o meu coração e a minha vida pudessem ser restaurados, e eu não precisasse sofrer o que sofri. Desde que entreguei meus caminhos ao Senhor pude sentir a mão de Deus transformando o meu caráter, corrigindo as minhas fraquezas e eliminando às minhas limitações, na medida em que eu permitia que ele o fizesse. O bom cristão é aquele que cuja natureza é como a argila, que se molda com as mãos do oleiro, até se transformar em um vaso perfeito. Mas eu não era um bom cristão e muitas vezes resistia à mão de Deus.
